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“Novas Cartas Portuguesas”

Por Bethânia Lima

“Novas Cartas Portuguesas: o feminino e o inovador”

Em toda obra literária percebe-se uma ideologia, uma postura do artista diante da realidade e das aspirações humanas. Em “Novas Cartas Portuguesas” (1972), obra coletiva de Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno (foto) e Maria Velho da Costa, percebe-se um expoente do feminismo em Portugal, assim como um documento literário inovador. Portanto, além de uma leitura social, em que se denuncia a opressão da mulher no domínio privado e público, a obra também exprime uma exigência de liberdade, e revela uma nova vertente na literatura portuguesa contemporânea.

A obra “Novas Cartas Portuguesas” suscita questões inovadoras, como a autoria múltipla e coletiva, a dissolução do gênero romanesco, a exposição de uma fragmentação textual, de uma variada tipologia discursiva e, sobretudo, a apresentação de uma voz feminina, ativa, sexual, voraz, que se impõe em lugar de uma voz historicamente silenciada e submetida. Na pesquisa bibliográfica realizada, chama-se a atenção para o que a obra representou no momento histórico-social de Portugal, que vivia uma luta contra o governo ditatorial salazarista e sob forte censura. Contudo, toda uma ação cultural e de criação literária contra o fascismo foi realizada e colaborou para a denúncia do modelo social opressor vivido. Por sua vez, a obra citada estimulou a percepção da condição feminina, estando fortemente exposta na obra a sexualidade, o corpo e o desejo feminino, revelando-se assim como transgressora, uma vez que até então esse era um discurso exclusivamente do território masculino, não apenas dentro de uma ordem social e política discriminatória, mas também de uma ordem simbólica, utilizada pela própria linguagem, enquanto instrumento de opressão e de delimitação de papéis e de poder.

A partir da análise, e do contexto apresentando, fica evidente que a originalidade da obra e seu perfil inovador apontam “Novas Cartas Portuguesas” como uma referência, tanto no campo da forma como no da idéia, como reveladora de uma poesia profundamente intimista e feminina, que expõe o corpo erotizado da mulher e é avesso à idéia de uma mulher que está enclausurada, em uma solidão e comportamento, tipicamente e socialmente, reconhecidos como feminino. Nesse sentido, a obra oferece aos leitores um posicionamento ético, político e ideológico de suas autoras, e que, possivelmente, contribuiu para as transformações sociais ocorridas no país.

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Tácito Costa

Comentários

1 comment

  1. Binta Baldé 22 setembro, 2011 at 08:30

    Bom dia sou estudante na Universidade de Dacar ( Senegal) e estou a praparar a minha tese de licênciatura sobre as Novas Cartas Portuguesas. Portanto, seria um grande prazer para mim receber uma ajuda em relação a algumas informações porque aqui é um pouco dificil ter o maximo de informações.

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