7 livros de introdução à literatura argentina

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Domingo_Faustino_Sarmiento

Domingo Faustino Sarmiento (1811-1888) foi escritor e presidente argentino, autor do romance “Facundo”, espécie de Grande Sertão: Veredas dos hermanos e marco das letras por sua mirada sobre o país e os caudilhos

Foto de capa: Imagem do filme Plata Quemada, de Marcelo Piñeyro, baseado no livro homônimo de Ricardo Piglia

Estou em um supermercado e um colega das antigas surge eufórico. De viagem marcada para Buenos Aires, citou La Bombonera, Puerto Madero e Recoleta, como visitas certas. Pediu sugestões de lugares na capital portenha, a qual desconheço.

Lembrei apenas do roteiro borgeano em Palermo, onde o escritor foi menino, época em que o bairro era bucólico, entre a cidade e o arrabalde. Mas o colega queria restaurantes, casas noturnas e outlets, encher a bolsa de camisas e perfumes.

Conversamos por uns cinco minutos, somente sobre a Argentina (futebol principalmente). E vi o quanto ele ignorava o país vizinho – e como estava por dentro de situações análogas no Canadá e nos Estados Unidos.

O encontro motivou esta lista criada para os contrários aos argentinos por mera questão futebolística. Destaco o caráter pessoal e não hierárquico da seleção. As ausências são tremendas (não tem Cortázar!). O único critério adotado foi vasculhar minhas estantes.

Facundo – Domingo F. Sarmiento

Minha edição é da extinta Cosacnaify, com prólogo de Ricardo Piglia. Ou seja, temos uma aula sobre o escritor e político influente na história argentina do século XIX, época em que, assim como nós outros, os vizinhos se criaram como povo à base da faca e muito sangue derramado. Publicado em 1845, é considerado uma espécie de Grande Sertão: Veredas de lá, misto de biografia do caudilho Juan Facundo Quiroga e ensaio sócio antropológico do pampa e dos gaúchos. Borges o enaltecia. A alternância de gêneros literários é genial, cuja necessidade de dissimular a ficção transformou a realidade vivida por Sarmiento em algo tão atraente. Semelhanças diversas com a vida sertaneja brasileira e a Civilização do Couro.

Bioy

O que aconteceu com o protagonista de “O sonho dos heróis”?

Dinheiro Queimado – Ricardo Piglia

O autor tem obras mais badaladas, como Respiração Artificial e A Cidade Ausente, mas Plata Quemada me pegou, pois, além do livro, tem o ótimo filme dirigido por Marcelo Piñeyro (foto de capa). A começar pelo amor homoafetivo de Dorda e Brignone, homens embrutecidos no submundo do crime e prestes a executar o maior golpe de suas carreiras. A história parte de um fato real, ocorrido em Buenos Aires e Montevideo em 1965: o assalto a um banco realizado por um bando envolvido com guerrilheiros urbanos. Em meio à perseguição, a dupla se depara com o desejo e a violência extrema. Piglia teve acesso a arquivos judiciais e gravações secretas feitas pela polícia durante o cerco ao grupo em um edifício. Amor, resistência e heroísmo em dose cavalar.

O sonho dos heróis – Adolfo Bioy Casares

Até hoje tenho dúvida sobre o que foi feito com Emilio Gauna naquela noite do carnaval portenho de 1927. Ele tinha 21 anos, era novo no bairro e colou na galera que frequentava um café. Botaram algo na bebida? Ele foi espancado, estuprado, molestado de alguma forma, após apagar? O dia seguinte ao obscuro episódio foi terrível, com a turma de sorriso irônico no canto da boca e sarcasmo pra todo lado, para desespero de Gauna. Saber o que houve vira obsessão durante três anos. Se o Carnaval é o período em que anjos e demônios são liberados, muitos guardados em segredo na memória, Gauna quer ouvir a verdade, mesmo que ela custe sua honra e sanidade.

História do pranto – Alan Pauls

Neste primeiro livro da trilogia sobre a Argentina dos anos 1970, o pranto vem fácil para quem se aventura pela escrita complexa e fascinante de Pauls. Abre assim: “Numa idade em que as crianças ficam desesperadas para falar, ele pode passar horas só ouvindo”. O garoto tem quatro anos, está vestido de Super-Homem e espera o pai vir busca-lo, dentro do arranjo pós-separação. Mas ele vem mesmo? A vida passa, assim como a turbulência política argentina, e ele cresce, não sem traumas. Filho de esquerdistas de classe média, ele se apaixonará por uma conservadora. Existe amor sem pranto? Acompanhamos o crescimento do protagonista e as mudanças do país. Se não entender da primeira vez, leia de novo.

Argentina 1978Sobre heróis e tumbas – Ernesto Sabato

O velho tema da família oligárquica em decadência ganha dramaticidade com a paixão de Martín por Alejandra, esta em uma relação incestuosa com o irmão Fernando. O ciúme de Martín cresce a cada dia. Ela tem predisposição genética à loucura e uma casta maldita de cegos, cheia de poderes esotéricos, fisga milhões de seguidores pelo mundo. A atmosfera asfixiante sofrida pelos personagens isolados em uma área da mansão da família Olmos é brutal. Sabato é malhado por muitos por ser conservador, mas com este romance elimina dúvidas sobre figurar na lista dos principais escritores latino-americanos, ganhador do Prêmio Cervantes de Literatura, em 1984.

Sicily, Selinunte: the poet Jorge Luis Borges at the ruins of the temple (c) Ferdinando Scianna/Magnum Photos

Fotografia: Ferdinando Scianna/Magnum Photos

Ficções – Jorge Luis Borges

Um de meus livros prediletos, ao longo dos últimos dez anos, na hora de encaixar analogias (a última vez foi esta aqui). São 16 contos, divididos em duas seções (O jardim de veredas que se bifurcam e Artifícios, publicados entre 1941 e 1944). Praticamente todas as histórias viraram clássicos. A começar por Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, A biblioteca de Babel e Funes, o memorioso. Foi o livro que consagrou Borges no mundo, por sua incomum habilidade em unir filosofia e o fantástico. No prólogo, a famosa assertiva do autor: “Desvario trabalhoso e empobrecedor o de compor vastos livros; o de espraiar em quinhentas páginas uma ideia cuja perfeita exposição oral cabe um poucos minutos”.

O Aleph – Jorge Luis Borges

Creio ser desnecessário justificar dois livros de Borges em uma lista tão pequena. Cinco anos depois de Ficções, ele voltou com outra relação de contos quase revolucionária. Desconheço escritor que diz tanto em poucas palavras. O imortal, Biografia de Tadeo Isidoro Cruz, História do guerreiro e da cativa e o conto do título. Vai e volta, altero meu conto preferido. No momento, é Deutsches réquiem, com a loucura e a inflamação na consciência do narrador, um carrasco nazista. Gosto mais das tramas de Ficcões, mas aqui Borges chega ao ápice em temas que lhe são caros, como o tempo, a imortalidade e a perspectiva histórica argentina.

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Comentários

1 comment

  1. Nicolas 5 fevereiro, 2017 at 12:29

    Parabens Conrado pela excelente seleção introdutoria aos classicos literarios argentinos. Só não conhecia História do pranto, de Alan Pauls. Vou me informar sobre. Forte abraço!

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