POETA DA SEMANA: Wescley J. Gama

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Wescley J. Gama nasceu em São Vicente em 81, em meio aos ares da Serra de Sant’Anna a lhe emprestar gentilezas e simplicidades. Mora em Currais Novos desde a infância, palco de suas inquietações artísticas. Participa ativamente da vida cultural currais-novense, onde realiza curso de música e atividades de incentivo à leitura, estes através do Grupo Casarão de Poesia. Pelas veredas do Seridó, tece sonhos e realizações há pouco mais de trinta anos, o que tem lhe rendido bons frutos, dentre os quais a sua promissora atuação como músico e poeta. Como músico, participou das bandas Almanaárá e Seu Ernesto, atuando como guitarrista e compositor. Suas belíssimas composições se orquestraram harmonicamente em três CDs: “chuva, estiagem, água, lampiões”, “seridolendas” e “campos grandes reunidos”, um misto sereno de música e poesia. Já como poeta, Wescley tem incursionado seus versos por caminhos luminosos. Foi vencedor do VII Prêmio Luís Carlos Guimarães de Poesia (2007); da quarta edição do Concurso de Poesias Zila Mamede (2008); e, em 2014, foi um dos vencedores do Prêmio Literário Rota Batida, promovido pela Fundação Ving´t Rosado/ Coleção Mossoroense, que teve como prêmio a publicação do livro “com a força das folhas que estiverem vivas”. Wescley J. Gama é nosso POETA DA SEMANA:

A tarde desmorona feito

aves em revoada.

Os meus olhos desenham
a paisagem desse bairro pobre

na América do Sul.

As pessoas que passam (e as que jogam bila nas ruas de terra)
não sabem o quanto eu caibo nas eras (nesse exato instante),
e o quanto esse desmaio de tarde me comove.

———

Antes que a lua saia

me dê o seu olhar de áfrica cansada
me dê o seu grifo de lápis inquieto
me dê a sua alegria de água nova em
caneca velha de alumínio…

e me conceda o teor de uma dança a sós:

(a lua sai e dançamos – eu você e deus)

———

tilintar de xícaras brancas de café.
vovô desce com o enxadeco,
que o inverno vai ser bom.

lavoura arcaica brilhando.

na serra de santana
chuva grossa no telhado,
gotas furando brechas,

inverno fino dentro de casa.

———

poema para um certo rosa:

o velho e cansado João
(recostou a velha cabaça d’água
no chão da mesa riscada a faca
e) respirou música pela última vez.

———

pés na manhã

abarco
um mundo amarelo-frio
(sementes de girassol)
num chão amanhecendo:

pegadas de ontem
na areia terna dessa manhã
chovida.

———

fotografia de uma hiroshima sertaneja

cheiro de lamparina
acesa
rebeldia de goteira.

vendaval de panos brancos nos varais.

———

às margens do gargalheiras

outra beleza é possível

e
a
pesar

do alarde estridente
(o canto das engrenagens)

alguém
na colômbia
(ou na parede do açude gargalheiras)

pode estar pulsando uma ideia:
(e assim como um não atravessa
oceanos em bytes,
um sim pode transpassar ilhas
humanas – arquipélagos incontidos,
formando uma nova pangeia:

euvocêtodomundo).

———

beberemos da água desse barreiro
com mechas de lua e sargaços
e sairemos à noite,
entre as árvores, a cantar
(com a força das
folhas que estiverem vivas).

respirava montanhas
e respingava morenezas
em tudo que via,
aquele homem de barro.

———

o milharal

quando a enxada chambocava a terra,
mané de barro coloria as espigas
sementeadas ainda nos grãos de milho…

e descansava como um balaio de despensa,
cheio de aguardos e cores novas.

———

os homens de barro

vários homens a caminho da olaria
bicicletavam a estrada
toda cheia de pedrinhas,
miudinhas como dedo mindinho
de menino recém-nascido.

———

sete agoras de sítio

I

lagartixas metidas entre pedras
se entregam à lenta missão
de afagar a tarde quente.

II

bois pousados à beira de barreiros sangrando
vencem todos os relógios de parede da fazenda.

III

mangueiras em balanço lento
estudam a gravidade
de mangas maduras ao chão.

IV

pés de pitomba
com grandes cachos de meninos
trocam seus frutos por amor.

V

trabalhadores a passos largos para o roçado
discutem a seriedade
de se enterrar umbigo de menino novo
ao pé da porteira.

VI

marias doceiras passam de bicicleta,
levando esperança e café quente
aos apanhadores de castanhas e cajus.

VII

burros com cargas d’água

passam sede no caminho seco.

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