O poema de Pavel: Da Amazônia para Natal, a história de um comunista

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A 700 metros de alguns dos principais templos religiosos e capitalistas de Natal mora um comunista de quatro costados.

Um comunista com serviços prestados ao Partidão em diversas unidades da Federação.

Que sentiu o bafo quente e bolorento de prisões, sobretudo após a histórica ocupação das margens da rodovia Belém-Brasília, a BR-010, com seus quase 2.000 quilômetros de extensão, construída no final dos anos 1950.

Hoje ele é um homem com 83 anos de idade, de frágil compleição e traços fidalgos, herdados de antepassados portugueses, franceses e holandeses.

José Dantas Costa um dia foi Pavel, codinome de um dos dirigentes da seção paraense do PCB.

Por mais de 50 anos quis transformar a realidade de camponeses esfomeados inspirado no socialismo de Mao Tsé-tung.

Ainda criança, viu a escravidão imposta por senhores de engenho alagoanos aos trabalhadores de pele escura.

Presenciou também antigos a corrupção de companheiros, o que amainou sua verve utópica.

Passou a olhar com desconfiança para a ‘nova esquerda’.

Desde então, adotou a poesia, a fotografia e viagens pelo mundo como novas bandeiras.

Nas últimas duas décadas, percorreu dois terços do planeta em andanças existenciais.

Nesta segunda-feira infame, em que a presidente afastada Dilma Rousseff enfrenta o cadafalso no Senado Federal, contamos a história deste sujeito singular.

Um homem com política nas veias, por assim dizer.

Engenhos ALagoas

José Dantas é neto de dono de engenho em Marechal Deodoro, em Alagoas, onde a bala resolvia intrigas e vinganças; terreno minado para um jovem comunista, logo ele ganhou o Brasil

Na terra dos marajás

Corria o ano de 1932.

Marechal Deodoro era a primeira capital de Alagoas, nome emprestado do primeiro presidente republicano do Brasil.

A cidade vivia um clima pesado, com famílias tradicionais em pé de guerra.

Era uma época violenta, em que disputas por terra e pela honra terminavam em mortes com revide garantido.

Foi nesse ambiente que José Dantas nasceu.

Já na adolescência, seus pais o enviaram a Maceió, então o maior município de um dos Estados mais pobres do país.

A casa de um tio virou seu destino.

Foi matriculado em uma escola industrial e mantido longe de outro irmão de seu pai, que comandava as ‘ideias revolucionárias’ no núcleo familiar.

“Eu entrei cedo no Partido Comunista. Ainda estava na escola. Com o avanço dos direitos sociais que Getúlio Vargas copiou do fascismo italiano, vi que a vida dos camponeses poderia ser bem melhor. E como em minha família tinham vários membros do PC, foi um caminho natural que segui”.

Os meros 15 anos vividos forneciam a disposição para intercalar agitações de rua com anseios púberes que o levaram à farra.

“Garotos do interior sempre foram mais vivos, por isso eu perdi a virgindade muito jovem”.

Em outubro de 1947 o Brasil rompeu relações com a União Soviética e ser comunista aqui nos trópicos virou um tormento.

Surpreso com a vigente caçada, José Dantas estreou em uma prisão.

Participava de uma movimentação em Maceió, na hora em que a polícia o prendeu.

Foram quinze dias atrás das grades, para desespero de seus pais.

“Aquilo foi um desastre na família. Eu era muito querido por todos, mas tinha fama de rebelde. Quando fui preso foi como se confirmassem tudo o que pensavam a meu respeito”.

O fato virou um marco zero em sua militância política.

Nos anos subsequentes, perdeu a conta de quantas vezes visitou cadeias abjetas.

“Só em 1964 foram oito vezes”.

Abraçado pelo Partido Comunista, ele virou uma espécie de enviado especial em vários Estados, sempre com a tarefa de desenvolver a organização do partido.

Seus três pilares pessoais: resistência, conhecimento e dedicação.

O poema de Pavel

Aos 83 anos, José Dantas fala sobre primeira prisão, aos 15: “Aquilo foi um desastre na família. Eu era muito querido por todos, mas tinha fama de rebelde. Quando fui preso foi como se confirmassem tudo o que pensavam a meu respeito”.

Para tanto, estudos aprofundados em política e filosofia os credenciaram como peça indispensável no topo da estrutura.

Passou temporadas por Vitória, Salvador, Recife e Rio de Janeiro.

Em meio a essa peregrinação, despertou para a poesia e começou a publicar nos jornais da esquerda.

Até que o mandaram para Belém do Pará, um lugar então inóspito, sua casa pelos próximos 32 anos.

“Naquela época, recebíamos cursos do Partido. Só que não tinha nada de guerrilha, eram cursos intelectuais. Sempre foi uma de minhas premissas, a da não violência. Ocupávamos terras no Pará, mas sem armas, sem agredir ninguém”.

Em plena selva Amazônica, o jovem revolucionário se esbaldou nos atrativos que todo pedaço de chão isolado tem a oferecer.

“Eu caí na gandaia na Amazônia”.

Logo ele seria promovido a membro dirigente, o que permitiu sentar à mesa de negociações com gestores paraenses.

Era um trabalho de difícil assimilação para os nativos, pois vigorava a falta de consciência política naqueles brasileiros apartados dos acontecimentos nacionais e internacionais.

Mesmo assim, uma epopeia com 30 mil camponeses foi armada às margens da estrada recém-construída para ligar Belém à capital federal.

“Eu falo isso, mas tem gente que acha que é mentira: reunimos trinta mil trabalhadores e ocupamos faixas de terra por toda a rodovia”.

Durante quatro anos, José Dantas respondeu um processo devido ao episódio – ficou livre apenas ao entrar com recurso no Superior Tribunal Militar.

Marcha a Natal

Ele trabalhava na Petrobras, tinha separado da primeira mulher, com quem teve dois filhos, no momento em que topou vir a Natal.

“O PC no Pará era romântico e um das seções mais avançadas no Brasil. Achávamos realmente que iríamos mudar tudo”.

Pavel, ou José Dantas, chega ao Rio Grande do Norte para ocupar um cargo de almoxarife na Petrobras.

Sustentou a militância por um tempo, mas, desde o Pará, tinha perdido o vigor.

“O Partido não merecia mais confiança. Podiam nos chamar de tudo, de agitadores, radicais, tudo, menos de que fazíamos parte de algum esquema de roubo e corrupção”.

O poema de Pavel_3

Seja nos cafezais colombianos ou na noite de Havana, em Cuba, o antigo dirigente da seção paraense do Partido Comunista Brasileiro tem a companhia da advogada ‘Aninha’

Veio o desencanto.

Sem ideologia a seguir, concentrou-se nos poemas e foi curtir a aposentadoria ao lado da segunda esposa, a advogada Aninha, mulher de fibra que se divide entre Natal e Belém, onde cuida da mãe enferma.

Os temas de seus versos são variados, o que inclui críticas bem humoradas à política atual.

Com um livro preste a ser lançado, ele é moderado ao analisar o período do PT no governo.

“Não existe governo que não tenha coisas positivas. O PT tinha um bom caminho para percorrer, mas houve absurdos nos acordos que o Lula fez. Esse tipo de coisa [acordos com partidos distintos] sempre foi tendencioso para casos de corrupção. Mas sem o apoio dos outros ele jamais poderia governar”.

Filho de uma geração que esnobou seus poetas, ele trava uma luta contra a DMRI, a Degeneração Macular Relacionada com a Idade, uma doença que pode causar cegueira.

Seus olhos azuis têm sido atingidos na área nobre e central da retina.

A captação de detalhes visuais está cada vez mais difícil.

O tratamento tem lhe custado caro no bolso e na paciência.

Enquanto isso, novas viagens estão programadas.

Nos últimos tempos, esteve na Colômbia, no Panamá e Equador, então uma das poucas nações latino-americanas ausentes de sua lista.

“Dizem que o comunista ficou rico”, fala com o sorriso aberto.

Como em um poema, cuja manifestação artística parte da fantasia, da verdade ou da pura sensibilidade estética, a trajetória de José Dantas Costa manteve estrutura parecida com a rima e a métrica dos melhores versos.

Ora alegre, ora triste, como no câncer mortal que vitimou a primeira companheira, sua vida daria um livro.

“Como na linguagem política, tudo tem vitórias e atrasos. Existe muita coisa que ainda quero observar e estou totalmente dedicado ao tratamento e pesquisas sobre a doença”.

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