POETA DA SEMANA: Michelle Ferret

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Michelle Ferret é jornalista, professora da Universidade Potiguar e professora substituta na UFRN. Atualmente escreve a peça “João ou eu só queria ver os Pássaros” ao lado de Thiago Medeiros, ator e autor, e Marina Rabelo, poeta. Tem publicado poemas em coletâneas como II Concurso de Poesia Luis Carlos Guimarães, além de coletivas no livro “Escolha seu Título” de Daniel Minchoni. Atuou no grupo Poesias e Flores em Caixas e atualmente é componente dos Insurgentes. Prepara seu livro intitulado “Febre” e acredita que a palavra transforma o mundo, de dentro e de fora. Michelle é nossa POETA DA SEMANA:

SER

As ruas desperdiçam o seu deserto
Na passagem dos afônicos
Seres, pássaros, desejos
Tudo passa
Eu fico
Permaneço
Inerte enquanto escapo
Desse despencamento, das batidas, da velocidade dos passos
Rasos
Sinto medo de atravessar
A vida, o tempo, esse olhar
Que de vez por outra
Mede, seca, quer dizer que não pode
Existir dói
Ser estrangeiro mais
Nas esquinas do mundo
O vento atrapalha a respiração
E o esquecimento é uma maneira segura
De continuar
Ser estrangeiro numa cidade
Em que os carros são mais importantes
Que os seres
Que as nuvens
Que essa saudade gritante
E sufocar o entardecer
Nos olhos, nas distâncias, na coragem de seguir
De ser
Simplesmente
Sem ter medo
De nada
Muito menos
De passar
despercebido.

———

CASA

vivo pra morrer de saudade
e todas as noites parecem pardas
quase incendiárias
com seus ocres e mel
escorridos pelas paredes das calçadas

Adoçam o céu
invertem as incertezas
desnuda vulcões
e trazem as erupções para dentro
do outro lado

Quase sempre a mesma calçada
na beira dessa casa em que ninguém se muda

———

Pássaro feito de efêmero

Vivo para inventar planos de fuga
E todas as noites
Gaiolas inteiras se abrem por dentro
A matéria prima
Escolhida ao acaso
Une silêncio, dorzinhas, arames cortados e um pouco de solidão
Disso tudo se faz portinhas infinitas
A passagem é o lugar
O vôo consequencia
Asas pequenas ou grandes
Miragens
Feito desertos inteiros dentro da gente
Não se apagam nunca
Vive-se para inventar planos de fuga
E todas as noites as janelas se fecham para a vida
São pequenas as mortes de dentro
Imagens deitadas de inventos
Vivemos para desenhar planos de fuga
E todos os dias
A passagem é o passageiro
Entre o ir e vir de grades
grandes ou pequenas
Ficar é apenas consequência…

———

ROSA

Nos olhos cansados dela
Deita calma a tempestade
Delineados de sombras
Pode-se ver na parede
Um pássaro, um vento e uma mulher
Nus
Quase toco em seus cabelos
Mas o mundo é maior
E não alcanço
Seria a chuva menos frágil?
Ou até mesmo um sertão inteiro
Ninguém sabe
Ninguém sabe de nada enquanto há tormentos
Não existe deus nem diabo
Para quem sente
Coragem é palavra rara
Mas o mundo é maior
E o que importa
Agora
São os raios
Luz tanta
E o que resta
Depois de tudo.

———

COR

Quando amanhece com pássaros
o céu se aproxima
e o braço, quase asa
toca o silêncio da cidade em azul
seja qual for a estação do ano
a cor é a mesma
feminina
e o contorno das nuvens
anuncia a noite quente de amanhã
com ventos frios
que se faz
pedido de cachecol
chocolate e um sorriso morno
quase casa
é de asas que se fala
quando no decorrer da vida
o outro se parece com o céu
azul, calmo e livre.

———

FRIO

Desde que você se foi
Não tomo mais café
É de frio que te falo
Essa noite
Esses dias
Nos intervalos das aulas
E dos sinais
Nos intervalos acidentais
Do meu eletro encefalograma
Quando o ritmo é alterado
Tem pausas curtas
Disse o médico
Não consigo te precisar quantos compassos
É com temperatura que te meço
Não em notas
Colcheias, semi nuas, claves
Tudo ficou grave demais aqui
Nunca mais senti calor
Mesmo a cidade em 32 graus
De sol a pino
Diário
Não sinto
Ando de casaco pelas ruas
Escondendo tuas mãos
Atropeladas na minha cintura
Nesse tempo
Era fácil confundir o amor
E a vigilância da cidade
Abandonou a motocicleta no asfalto
Ainda morno
Nesse instante
Desejo ir embora
E não sei mais pensar em outra coisa.
Mas quando percebemos
A fuga é o resultado mais desonesto que existe
Porque andando em círculos
Ninguém é mais feliz
Ninguém pode ir embora
Com a motocicleta roubada
O pneu vai furar uma hora
E será preciso pedir abrigo
Mas eu estava falando
Que desde que você se foi
Não tomo mais café
E tudo ficou frio demais.

———

MUNDO

Talvez o céu comece
onde a gente termina
Naquele traço invisível
ignorado entre a saudade e a terra

Talvez o céu termine
onde a gente começa
e as linhas se confundem
nos trilhos, nas cordas dos violões
e nos tecidos finos
bordados por linhas grossas

Talvez a gente termine
ou seja céu
e as linhas das mãos
lidas e revisadas
sejam o conforto absoluto
da existência das ciganas

Talvez a gente seja
os olhos inquietos delas
adivinhando a chuva
e o destino
vicejando o fim do mundo

Talvez a gente seja
o fim
que comece a cada tracejar
do GPS deitado nas mãos
ou mesmo o chão
adornado de dedos e botas
que não afunda nunca
mesmo a tanto peso

Talvez a gente seja
o chão
à espera das sementinhas
ou das nuvens
projetadas pelo sol
num contorno imenso
de nossa miniatura

Talvez sejamos um braço
desse desenho
saído das mãos gigantes
de uma criança
ou um traço, uma traça, um troço
desconfortando a ciência
e retornando velada na pergunta
que ninguém nunca respondeu
o que estamos fazendo aqui?

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