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Pelo direito de chorar

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Eu poderia falar sobre a crise política, ruptura da democracia, do abismo conservador e direitista ao qual escorregamos profundezas abaixo.

Eu poderia falar sobre a vergonha que sinto sobre o jornalismo praticado pelos jornalões e televisões Brasil afora.

Eu poderia falar sobre a crise hídrica que agora assola também Brasília.

Ou poderia até falar sobre o lobista João Dólar, que ganhou as eleições no maior centro “cultural” do Brasil.

Eu poderia falar sobre o noticiário local de hoje, que deu conta de um assaltante fugitivo quatro vezes de Alcaçuz.

Eu poderia falar do estado de exceção, golpe, o papa Francisco, as crianças que continuam morrendo na Síria, poderia falar das palestras água com açúcar do padre Fábio de Melo.

Eu poderia até mesmo me calar.

Mas eu quero falar de um tema que a mim me é inerente: ser mulher.

E vou retransmitir uma declaração que Jorge Luis Borges fez na Rádio Nacional Argentina, ao entrevistador Osvaldo Ferrari, cujo conjunto de entrevistas virou três livros que transcrevem essas conversas, numa coleção chamada Borges/Osvaldo Ferrari.

No título “Sobre a Amizade e outros diálogos”, eles estão falando sobre Quevedo e o ceticismo que esse tinha com relação às mulheres, ao ponto de recomendar “prevenção” a elas.

E Borges discorda:

“Bom, eu não posso concordar com Quevedo sobre isso… para mim, há algo tão grato numa mulher, em qualquer mulher, algo evidentemente não pode ser definido, mas existe um agrado no simples fato de estar com uma mulher. Não tem nada a ver com o amor, nem com a sensualidade; é o fato, bem, de algo que é levemente diferente, mas não muito diferente, suficientemente diferente para ser percebido e, ao mesmo tempo, suficientemente próximo para que essa diferença não nos separe. Agora, eu penso que isso acontece em todo relacionamento de amizade, mas eu diria que há algo na amizade de uma mulher, ou simplesmente na presença de uma mulher, que não existe na presença de um homem”.

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“Triste a figura feminina ainda ter de ser medida pelos gomos malhados de seu abdômen ou na firmeza de sua bunda. Por isso, quando eu vejo mulheres resolvidas, livres e trabalhadoras, construindo algo que é delas mas que é ao mesmo tempo algo compartilhado, eu tenho vontade de ficar perto […] Estarei sempre atenta ao direito de sermos quem somos”.

Eu pensava a mesma coisa intuitivamente.

Nunca conseguiria transmitir dessa maneira genial e simples do Borges, mas, quando eu li, foi como se estivesse a tomar um copo de água gelada no meio do deserto.

As mulheres têm um quê de acolhedor em sua existência como quando você pisa com os pés descalços em grama verde.

Em reuniões com homens e mulheres, por exemplo, eu sinto facilmente essa diferença.

Não quero alimentar nenhum tipo de estereótipo com isso, claro, nem fazer guerrinha de gênero.

Mas, às vezes, a intuição e sensibilidade precisam tomar a frente à dialética, esse pilar construído à luz da argamassa masculina.

Lamento que algumas mulheres ainda olhem umas para as outras como concorrentes; que disputem espaços de poder como se fossem cavaleiros armados.

Meninas, lembrem-se: armaduras ferem a carne!

Conheci algumas mulheres que conquistaram espaços de poder fazendo piadinhas sexistas e se identificando principalmente com o pensamento dos cuecas, para se sentirem “aceitas”.

Morrerei (de cólicas) defendendo o direito de sentirmos TPM; defendendo o direito de sentirmos diferente dos homens; de chorarmos ao invés de colocar o “pau na mesa”.

Uma amiga me confessou que esse ano, ouviu de um homem, que ela pensava ser amigo, que tinha lhe dado espaço na empresa para ela se “empoderar”.

Mas havia um detalhe nessa benevolência toda.

Embora no papel eles tivessem as mesmas atribuições, deveres e direitos, suas opiniões não eram respeitadas em igual peso que as dele e, enquanto ele desfrutava dos louros de ser um homem de negócios, ela fazia a faxina e lavava o banheiro do local de trabalho.

E nunca sobrava dinheiro para ela receber algum “salário” pelas suas horas trabalhadas, porque o poder que ele lhe conferiu, sustentava-a num fio de humilhação e subserviência.

Ela quebrou o fio, claro!

Triste esse tipo de poder.

Triste a figura feminina ainda ter de ser medida pelos gomos malhados de seu abdômen ou na firmeza de sua bunda.

Por isso, quando eu vejo mulheres resolvidas, livres e trabalhadoras, construindo algo que é delas mas que é ao mesmo tempo algo compartilhado, eu tenho vontade de ficar perto.

Tenho essa sensação de agrado da qual Borges fala.

Estarei sempre atenta ao direito de sermos quem somos.

Homens e mulheres podem chorar de vez em quando. Podem até mesmo gritar, espernear e se descabelar. É feminino isso. É humano.

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Sheyla Azevedo

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