Alex Nascimento, 35 anos de literatura

Mais

…Substituo o café por uma garrafa de whisky, sem gelo, e saio pronto para enfrentar o mundo. Como é belo enfrentar o mundo! O carro não pega e eu convoco o pessoal da rua para empurrar. Como a galera é grande, aproveito e faço um comício.
Alex Nascimento

Para o ensaísta e crítico literário Afrânio Coutinho, em “Notas de teoria literária”, a Literatura, como toda arte, é uma transfiguração do real, é a realidade recriada através do espírito do artista e retransmitida através da língua para as formas, que são os gêneros, e com os quais ela toma corpo e nova realidade. Passa, então, a viver autônoma, independente do autor e da experiência de onde proveio. O artista literário cria e recria um mundo de verdades que não são mensuráveis pelos mesmos padrões das verdades factuais.

Abordamos o assunto tendo em vista, de modo especial, a obra literária de Alex Nascimento. Em 1981, há precisamente trinta e cinco anos, o autor começava a escrever o seu primeiro livro, “Recomendações a Todos”, publicado no ano seguinte. Alex Nascimento é um dos maiores talentos que a nossa literatura revelou ao Brasil. “Recomendações a Todos” foi suficiente para colocar imediatamente o escritor, nascido no bairro do Alecrim, entre nossos melhores prosadores.

Espécie de romance em forma de crônicas (ou seria ao contrário?), o livro teve sucesso instantâneo, na verdade, um fenômeno local, como anotou o jornalista Woden Madruga em sua coluna na Tribuna do Norte, do mesmo ano.

Conforme nos relata o escritor e pesquisador Tarcísio Gurgel, em sua obra “Informação da Literatura Potiguar” (2001), “Recomendações a Todos” foi o maior acontecimento editorial da cidade, superando, na noite de autógrafos, lançamentos como o de Jorge Amado, que tinha vindo a Natal para lançar “Tieta do Agreste” e o de Henfil, com “Cartas da Mãe”. Cerca de quinhentos exemplares vendidos na noite de autógrafos, o que fez imediatamente o editor Francisco Alves preparar uma segunda edição.

O escritor e pesquisador Manoel Onofre Jr relata na obra “Ficcionistas Potiguares” (2010), que os capítulos do “Recomendações a Todos” podem ser lidos fora da ordem em que se apresentam, sem que com isto o leitor perca a compreensão. Na opinião dele, o livro de Alex Nascimento seria um romance desmontável, sob outros aspectos muito mais próximo da crônica do que do romance. Mas , ressalta que pouco importa a definição do gênero, o que importa é constatar a qualidade do texto literário de Alex Nascimento. E ainda afirma que poucos no Brasil atual sabem colocar humor em função da crítica social, com tanta irreverência.

Repassado de muito humor e ironia, “Recomendações a Todos” tornou-se um clássico da nossa literatura; em seguida, o escritor continuou escrevendo, sobretudo crônicas em jornais, inclusive no Pasquim, espécie de jornal “contra-cultura”, que fez grande sucesso de meados dos anos 60 até inicio dos 90.

Passados dois anos da sua estreia, Alex Nascimento surge com “Quarta Feira de um País de Cinzas” (1984). O escritor continua com a mesma qualidade da obra inicial. O livro não teve, na mídia, o mesmo impacto do primeiro, mas, acreditamos que a qualidade seja tão boa ou quiçá melhor, num texto que se aproxima muito do gênero crônica.

Firmado na prosa, Alex Nascimento publica no início da década de noventa, “Alma Minha Gentil” (1992), esse que talvez seja o livro de sonetos mais bonito e bem trabalhado, nascido em solo potiguar.

Não deixa nada a desejar, se comparado, por exemplo, a “Rosa de Pedra” de Zila Mamede. Caso duvide, caro leitor, o desafio a ler a obra, que é rica em figuras de linguagem, intertextualidades e outros recursos linguísticos. “Alma Minha Gentil” é um daqueles livros de que nos orgulhamos por ser da nossa terra, obra máxima do autor, que se quisesse não precisaria publicar mais nada.

Como bem afirma o poeta, critico e pesquisador Assis Brasil, em “A Poesia Norte-rio-grandense no Sec. XX” (1998), o autor tem “um forte domínio técnico do chamado soneto inglês”:

Abaixo um soneto do livro “Alma Minha Gentil”

O amor é uma cura sem doença,
É um landau vermelho sem pneu,
É uma face oculta em camafeu,
É um rezar de tanto não ter crença.
É nunca perceber a diferença,
É ser cristão contra um leão orfeu,
É não cair diante da sentença,
É não lembrar de quem nunca esqueceu.
É tanger os limites da conduta,
É confundir plateia e direção,
É coquetel de vinho com cicuta,
É ser original e imitação.
Patogênico amor que bem disputa
Pau a pau com o enfarte o coração.

Para Constância Lima Duarte e Diva Cunha, em “Literatura do Rio Grande do Norte, antologia” (2001), Alex Nascimento possui uma prosa fragmentária e pós-moderna, e o seu livro de sonetos, atesta a sua cuidadosa leitura de Camões. Além disto, destacam as pesquisadoras, a ironia ágil e desconstrutora dos textos do autor que segundo elas introduz uma nota originalíssima no conjunto da literatura potiguar.

Alex Nascimento, que cursou Engenharia Civil e trabalhou durante vários anos como servidor público estadual, publicou, também, “A Última Estação” (1998), “Almas de Rapina” (2001), “O Amor e Outras Mentiras” (2005) e mais recentemente “Um Beijo e Tchau” (2015), obras igualmente notáveis, as quais voltaremos oportunamente a enfocar.

A nova geração precisa conhecer e ler o trabalho literário de Alex Nascimento.

Share:

Comentários

1 comment

  1. François Silvestre 19 outubro, 2016 at 03:58

    Excelente resenha. Alex Nascimento, esse prisiaca confesso, poeta completo, prosador do caralho, chato de galocha, adorável fela da puta, é tudo isso e muito mais. Seu texto mata de inveja os outros textos. Valeu o boi, Thiago. Com a permissão da boca de tabaco de Gilmar Mendes!

Leave a reply