Geral

“Secunda” formação

reor

Por Luiz Carlos Oliveira

Acabei o ensino médio no Anísio há dez anos. Nessa oração, o sujeito sou eu e o verbo “acabar” parece carregar um sentido melancólico, e é bem verdade que jazia no colégio no último ano. Na última vez em que pisei numa escola, não sabia quase nada sobre exercício democrático, não ouvia falar em secundaristas, muito menos gestava pensamentos sobre golpes e impeachments. Não sabia quem foi o professor que deu nome ao colégio, e não pensava fora da caixa.

Em 2006, a Escola Estadual Professor Anísio Teixeira sofria dos mesmos problemas que a maioria das escolas públicas sofre ainda hoje: estrutura precária, professores com emprego e sem função, e alunos afônicos. É certo que naquela época eu não sabia gritar, e nem sabia se queria falar mais alto que a comodidade.

Hoje, em 2016, a exatos dez anos da minha formatura no terceiro ano, aquele tom de marasmo ao pensar/falar da conclusão do ensino médio está dando lugar ao orgulho. Tenho orgulho de ser Anísio Teixeira só agora em 2016, e a “culpa” é dos secundaristas. Eu os conheci há uns dias na ocupação da escola. Até agora estou surpreso como esses jovens estão ocupando a mente com conscientização, como estão ocupando o centro das discussões sobre cidadania e direitos civis, como estão ocupando meu coração com tanta alegria diante de um cenário político que não me atormentaria em 2006.

A única ocupação de que tive notícia, que mobilizou os estudantes naquela escola, teve como pano de fundo uma gincana de biologia. Os secundaristas estão fazendo algo muito mais inesquecível que uma tarde de diversão. Não é fácil! Não está sendo fácil para eles! Mas assim como em muitas outras escolas ocupadas, eles aprendem e ensinam muito sobre cidadania.

Conversando com alguns dos que resistiram à pressão de diretores, supervisores, do INEP, e até mesmo de seus pares, percebi o quanto momentos ruins impulsionam o surgimento de pequenos grandes heróis. Heróis que limpam um banheiro que tinha marcas desde 2006, que improvisam a copa numa cozinha solidária, e que reabrem um outro banheiro, no segundo piso, nunca conhecido pela turma de 2006.

Ao longo dos dezessete dias de ocupação – que perdera força dias antes da aplicação do ENEM – os secundaristas aprenderam sobre política, economia, direito, e etc., e, para tanto, receberam visitas, assistiram palestras, organizaram aulas de 40 minutos, e receberam doações, muitas doações. E eles enchem o peito de alegria.

Ao visitá-los, não pude acompanhar as diversas tarefas que fazem da ocupação o que ela é, e não sei se teria tanto conhecimento para passar, assim como fizeram educadores de outras escolas e universidades, além de figuras públicas. A cada elogio dado àqueles jovens, ficava nítido o quanto eles estão na luta, mas também precisam de proteção. Eles serviram de exemplo para a ocupação da reitoria, na UFRN, mas precisam de mais exemplos caminhando lado a lado. A educação deve caminhar lado a lado, e eles estão tentando alcançá-la, como minha mãe queria que eu a alcançasse. Para meus pais, “concluir os estudos” não se tratava apenas de encerrar o ensino médio, era o primeiro exercício de cidadania.

Hoje, posso dizer que me formei mais uma vez…os secundaristas o fizeram por mim.

Share:

Comentários

Leave a reply