Geral

Do Seridó de José Augusto

caico_anos-1920_manoel-ezelino

Centro de Caicó nos anos 1920. Fotografia: José Ezelino

Albimar Furtado, seridoense de Currais Novos, corrido no trecho do jornalismo e da vida, me presenteou com a primeira edição do livro Seridó, escrito por José Augusto Bezerra de Medeiros.

Não escondo a estima por Albimar e a atenção a tudo que José Augusto pesquisou e escreveu. Foi um regalo dos mais preciosos o presente recebido!

José Augusto Bezerra de Medeiros, caicoense nascido no dia 22 de outubro de 1884, filho de Manuel Augusto Bezerra de Araújo e de Cândida Olindina de Medeiros, advogado, Juiz de Direito, professor, político, dentre outras funções exercidas, foi um dos maiores seridoenses de todos os tempos.

jose-augusto-1

José Augusto Bezerra de Medeiros (1884-1971) foi juiz da comarca de Caicó, deputado federal, senador da República e Governador do Estado; um dos homens mais importantes na história potiguar, ele tinha vasto conhecimento sobre vários assuntos e deixou vários livros de legado, dentre eles o clássico Seridó

Escreveu e publicou alguns livros, dentre os quais, Liga de ensino (1911), Pela educação nacional (1918), Eduquemo-nos (1922), Aos homens de bem (1926), Por que sou parlamentarista (1936), Famílias seridoenses (1940), O sal e o algodão na economia potiguar (1946), Seridó (1954), Amaro Cavalcanti (1956), O Conselho Nacional de Economia (1956), Presidencialismo versus parlamentarismo (1962) e O Rio Grande do Norte no Senado da República (1968)”.

No livro Seridó, cuja leitura deveria ser obrigatória para todos os que militam na vida pública, trata de muitos aspectos da Região.

Entretanto, a exemplo de outros escritos e discursos, evidencia a importância da educação como um dos fundamentos mais importantes para o desenvolvimento do Seridó.

A educação, além dos princípios transmitidos em cada família da época, foi substancialmente apoiada pela presença da Igreja Católica no processo de povoamento do Seridó.

Inclusive, José Augusto lembra um mestre esquecido que antecedeu o conhecido Padre Brito Guerra.

Ele lembra que o Padre Joaquim Álvares da Costa foi, durante muitos anos, professor da gramática latina da Vila do Príncipe, para quem os historiadores deveriam envidar esforços de pesquisa.

caico_enchente-1924

Apesar do eterno problema hídrico, Caicó viveu a enchente do rio Seridó em 1924 como uma catastrofe

Mas, da lavra do próprio José Augusto, a história é melhor contada:

“O Padre Brito Guerra, deputado pelo Rio Grande do Norte, justificando, no Parlamento Nacional, na sessão de 30 de junho de 1832, o projeto de resolução de sua autoria, afirmava que na Vila Nova do Príncipe, até certo tempo houve um mestre que pelo espaço de 30 anos ensinava a matéria gratuitamente e cuja idade não lhe permitiu continuar neste exercício.”

É devido lembrar que o Padre Francisco de Brito Guerra já tinha também lecionado a gramática latina em Caicó.

Havia, em sua iniciativa, o propósito de criar oficialmente a cadeira de gramática latina, ato que se consolidou com um Decreto, de 07 de agosto de 1832, cujo artigo único tinha a seguinte redação:

latin

Pioneirismo caicoense ao instituir curso de latin no século XIX

“Fica criada uma cadeira de gramática latina com o ordenado de 300$000 na Vila do Príncipe, da Província do Rio Grande do Norte.”

José Augusto arremata o assunto considerando:

“Quando se quiser apreciar com segurança e verdade o acervo de serviços que a cadeira de latim, criada legislativamente pelo Padre Guerra, prestou à vida mental dos seridoenses, chegar-se-á sem exagero a conclusão de que foi ela um dos fatores apreciáveis na determinação da evidente, real, e muitas vezes decisiva influência que os homens do Seridó tiveram sempre na direção da vida potiguar.”

O pesquisador Luiz Gonzaga de Medeiros, colega de muitos caicoenses no Colégio Diocesano Seridoense e no Banco do Brasil, acrescentou informações sobre a cadeira da gramática latina ao escrever o artigo O padre Guerra e outros Mestres, lembrando alguns nomes que por lá passaram, dentre os quais:

jose-augusto_caico

Livro importante para a compreensão do Rio Grande do Norte, “Seridó”, de José Augusto, espera por edições modernas e de fácil acesso ao público. Fac-símile da 2ª edição (1980)

“Amaro Cavalcanti e seu irmão Padre João Maria, venerado pelos norte-riograndenses; Dr. João Valentim Dantas Pinagé (1º. juiz de Caicó), Luiz Gonzaga de Brito Guerra, os Padres Tomaz de Araújo, Joaquim Félix de Medeiros, Crispiniano Galvão, Justino, José Modesto, Gil Braz Fernandes e Manoel Fernandes. Sobressaíram-se também seus sobrinhos Joaquim Apolinar, grande Professor e seu sucessor, e Manoel Alexandre”.

De certo, a cadeira da gramática latina foi uma semente boa em terra fértil. Gerou muitos frutos. Não pode ser esquecida.

Ainda bem que livros como Seridó e outras muitas pesquisas que foram e continuam sendo feitas na Região ajudam a compreendermos o presente pela leitura do passado.

Ao desconhecermos o passado, não raro, erramos no planejamento para o futuro e os estragos são muitos, alguns, inclusive, de sabor amargo na atualidade.

Share:
Fernando Antonio Bezerra

Comentários

Leave a reply