POETA DA SEMANA: Murilo Zatú

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Murilo Zatú nasceu em Natal e conta 19 anos de vida. Escreve crônicas ao blog zatu rabisca ao acaso (zaturabisca.wordpress.com) e poemas para o m2silva.tumblr.com. Entre os poemas selecionados abaixo constam alguns publicados na antologia produzida pela poeta Regina Azevedo para o Iapois Poesia, em 2015. Também tem o poema “Ideia”, inédito, que fará parte de um projeto experimental composto por poesias eróticas. Seus poemas passeiam entre os sentimentos e o erotismo. Zatú esteve presente, junto com outros poetas da cidade, no recital Pipocando, realizado no SESC Cidade Alta, em março deste ano, durante a Semana da Poesia. No momento, ele trabalha em um projeto de forma independente, que virá à tona no início do ano que vem. 

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sophia

sem chance
sem mais
sem chão

sem sundae
nem sushi
nem hot dogs

sem jung
nem nietzsche
sem a forma das formas
sem o cálculo do vazio
sem a angustia da incerteza
sem a pujança da loucura

sem mais delongas
sem conversa fiada
sem a língua minguante
nem a noite
nem a ausência

sem o gatilho
nem a adaga afiada
sem o corpo
chocho
na maresia álgida

sem flores
sem cactos
sem manjericões
sem pêras
tangerinas
ou melões
cebolas
ou tomates
ou salsa, uma valsa
um bolero

a meia noite é para os ermos
como o crepúsculo é para os cépticos

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Não conta para minha mãe

Seu quarto.
Templo de rezas heroicas
E planos devaneados para o futuro.
A cabeça – um desabrochar.
Germinar em ideologias
Hipóteses, curiosidades.
Na estante, miniatura e gibis
Perdiam o apego.
Heróis; aleivosias.
Certo dia, ao acordar ao dilúculo
De um marasmo
Aquele vácuo breu lhe despertou os sentidos.
Ouvia com a mais perfeita limpidez
Seus nervos que também lhe faziam sentir
De forma intensa e suada.
Seus olhos enxergavam além de um fulgor,
Cordato brilho da lua pela vidraça.
Era violento o olor de suas fantasias,
Ao tatear, tremendo
Os polos ternos de sua atmosfera anatômica.
Sua virilha; os dedos na virilha; um pundonor ingênuo.
Sufocou – respiração caustica e arrebatadora.
Suor, olhos flamejantes,
Breve fluxo aloucado de sentidos
Correndo junto ao sangue por entre suas veias
Afloradas. Desfloradas.
O silêncio pôs sua mantilha pelo cômodo.
Pai nosso que estas no céu.
Sua mãe o olhava da cozinha
Tentando desvendar enigmas.
O garoto tomava invisibilidade da visão panorâmica.

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Talvez seja isso: ele vem
Mas vem sem desejos.
Todavia, eu o desejo.
Gravei na memória o seu olhar; o seu jeito de olhar; que percebo desde o nosso primeiro encontro
Quando ele descobrira minha farsa.
Ele vem.
Mas vem sem desejos.

Leva consigo um pedaço do meu coração
Que essa ânsia arranca sem rodeios…

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o menininho
pávido; o menininho
indefenso: na calada da noite
o menininho, rúptil.

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No mais tardar das tardes
Descubro
Que no Vazio dos dias
Há aquilo que banalizam dizer ser
Felicidade.
Porque há o pôr do sol
E a chegada da Noite
Há a brisa
E os restolhos das estrelas
Há a nostalgia que advém disso
Os cantares dos grilos quando sobreleva a penumbra
A pequenez da solidão
Quando estar só se volve uma descoberta.

Cravei uma flâmula
Na Terra
Onde descobri a filantropia.

No mais cedo dos albores
Descubro
Que no cântico dos canários
Há aquilo que os bardos chamam ser
Inconformismo.

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no meu coração arde um peso
peso forte
peso inteiro
no meu coração
canta um peso
um nó
um laço lírico
que conduzem tão harmoniosos os solistas
o meu coração declama um peso
um soneto
um elegia uma aventura épica
o meu coração…

o meu coração não entende bem de libras
a mímica do eufemismo
mais entende grego (ou sânscrito)
a palavra
o som
os meus olhos e o meu coração
aquele vê o que está perto
o outro vê o que está longe tornando até palpável
a saudade nos travesseiros
quem dera fosse amor e afeto
café com leite
pão e manteiga
a e b
0 e -1
piu-piu e frajola
adão e eva
toi et moi

quando eu era menino
me disseram que príncipe encantado
era fábula
ao menos, a mim.

na última noite conheci um príncipe.
etéreo.
lunático.

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Ideia

Não venhamos com conversas
Não vamos perder tempo
Deixai nosso tempo suceder debaixo das cobertas.
Quero poder dizer sem rodeios
Que arreganhada sou mais vulnerável.
Você sabe
Sempre soube…
Teu falo é alegórico
Meus lábios são eremíticos
Isso que chamam de… sexo?
É místico.

Hoje Vênus entrou em conjunção com Leão
Acho que sei falar de astrologia…
Mas, sabe,
Eu pensei que pudéssemos ter uma gozada daquelas.

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Fazíamos bruxarias.
Nosso romance era uma magia negra.
Minhas petúnias eram regadas pelos seus prantos.
Um pôr do sol era algo fictício.
Só haviam paredes.
De que vale este beijo se amanhã
Haverá partida.
Minha boca por dias ainda teria a marca do teu batom.
Turquesa.
Por que mesmo eu cortei meus pulsos?
Se tu nem quis beber deste cálix.

Não digas: meu neném, estou indo embora.
Deixai comigo regalos deste encontro.
Chocolates, sorvetes, tortas de maçã.
Eu me sinto caótico por ser criança.
Mas a lascívia daquele corpo
Me fez ver que sou de fogo, chamas
Labaredas no deserto dos meus lençóis.
Se eu contar para a Miranda, ela nem acredita
Mas minha primeira vez foi com um estrangeiro
Cujos pais lhe conceberam em Woodstock.

Comigo ele deixou um jaspe.
De mim ele levou a alvura.
O que será andar com esse all star despojado com cadarços sarapintados?
Eu quero mesmo é fumar um Camel
Enquanto
Nu
Deduzo que é sexta.

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