O olho mágico da Cidade do Sol

Carlos Gurgel
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o que Carito faz com a câmera. como ele a manipula. o que Carito cria a partir de um não qualquer modelo, dedicando à câmera uma enorme dose de amor e silhuetas, devoção e suor. o que Carito solicita da sua gênese como se um peregrino de paisagens assim fosse, sonhando com seus ensaios e enredos.

como a câmera sente Carito, como um rito poeta /escritor, prestes à fluir com toda sua inesgotável verdade e criatividade, sussurrando para ela mesma ( seu móvel instrumento ) tal qual persona de brisa própria.

a câmera pulsante e companheira, jamais larga da ideia do cineasta, ainda mais se o cineasta, também poeta for. assim, são como dias, meses, anos de total cumplicidade. a pessoa possui uma câmera, onde a câmera se torna a melhor cúmplice/confidente da pessoa. a câmera sente os passos dos infinitos passeios, feito uma preciosangular na frente dos seus imponentes e certeiros roteiros. os lagos passos em direção ao que a câmera do coração do cineasta deve fisgar e focar. do surgimento de uma pessoa, e de uma câmera que persegue a respiração dessa pessoa. o pensamento da pessoa, nascendo como um novo e irrequieto roteiro.

acompanho o que Carito faz como criação de imagens, desde praticamente seu início. me dá completa satisfação, a expressiva sensibilidade, a maneira como ele se dispõe a formular ideias e roteiros. nunca conversamos sobre isso. é mais uma intuição minha. imagino que esse seu suor, esse desprendimento que todo poeta dedica ao que faz, transforma suas horas em um incontrolável vendaval, redemoinho de pulsações de uma imaginação a ponto de explodir em mil mega tons de caras, faces de uma imensa constelação de letras, paisagens e conquistas.

um homem com uma câmera tem um poder indescritível. ele sabe que pode criar histórias, reescrever histórias, salvar histórias, abdicar de histórias, promover histórias, sacar histórias, alçar histórias. tudo que o homem pensa é história. pode ser uma história hidráulica, por onde todos os corpos humanos são tragados por uma enorme correnteza da vida líquida, engalfinhando como uma temerosa sensação de um dilúvio d’alma. determinados homens vem à terra com o propósito de tornar memória os sopros, as nuances, de tantas e tontas unidades que compõe o varal por onde a vida é estendida, esticada de honras, recatos, esquecimentos e amores.

a câmera de Carito sobe e desce íngremes pautas. escuta a voz da noite, o giz dos mistérios dos seus habitantes, recupera o sorriso de quem já não queria mais a inquietude do cérebro, que a cada instante, levianamente absorve a loquaz parafernália dos objetos displicentes.

Carito faz da sua câmera, um estopim poético, profético, porque devassa a interioridade dos seus escolhidos. eles dois, a câmera e o poeta, estão sempre inabalavelmente incontidos. eles sabem que a listra por onde respira a novidade, ela se esconde pelas peles dos alpendres de travessas menos óbvias. eles assim, são imbatíveis. redigem seus rastros como se fossem exímias e esplêndidas experimentações. todo esse arsenal, rasga o véu do tempo e se instala entre a febre de uma gente sofrida e sem descanso, e o esconde esconderijo de tantos enredos difíceis e onomatopaicamente costurados, servidos, sorvidos, engolidos como uma maçã que pede seu segredo e enredo noturno.

veja, lá vem o trem, apinhado de luzes, obstáculos cênicos, máscaras de dormência, lustres do século passado, andaimes pontiagudos e a insistente fábrica dos sonhos. toda essa constelação de elenco, certamente perpassa a criativa mente de um homem imagem. toda essa interminável constelação, fornece a respiração de uma transa, tramenredo, cortejo cênico, invadido pela poesia imbatível.

assim, somos como se fôssemos nós. como um punhado de dobras de sobras das sombras. como à mirar um novo mundo. como a fazer parte de expedições e fronteiras.

pois então que Carito sobreviva, como um periscópio vasculhando sua cidade e sua gente, noite e dia. durante o verão. durante as outras estações. pois que sua lente, é o reduto da poesia viva. uma fortaleza titânica, blindada de couro e de um pacato pacto único do jardim desse capeta, tapete, relva potiguar. como um belo protagonista de filmes e de tantos e belos palcos de inúmeros talcos do mar que nos banha. tudo tão mais paisagem do que nossos sentimentos em espécie, exclamam. uma balaustrada de embarcações dessa cidade. enormes vastidões de castelos. todos tão íntimos e esquecidos.

que a liberdade da luneta de Carito nos ponha no altíssimo e passional farol. como ícone dos nossos sonhos e clarões. como a profecia por onde suas mãos passeiam por essas inúmeras e tantas evoluções, criações da nossa terra chão. pólvora. um muito de tão bela poesia e paixão.

FOTO: Rafael Telles

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Carlos Gurgel

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