ENTREVISTA – Poeta Marize Castro

Tácito Costa
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Nesta quinta-feira, 08, das 19 às 22 horas, a poeta Marize Castro lança no Café Salão Nalva Melo, na Ribeira, o seu sétimo livro de poemas, “A Mesma Fome”.

Jornalista, editora (editou o prestigioso jornal O Galo), ela também se destaca na edição de livros e produz — com esmero — as próprias obras, que saem pela Editora Una. Estreou em 1984 com “Marrons Crepons Marfins”. Depois vieram “Rito”, “poço. festim. mosaico”, “Esperado Ouro”, “Lábios-Espelhos” e “Habitar Teu Nome”.

Na entrevista abaixo, Marize fala sobre a nova obra, sua trajetória literária, influências, Nobel para Dylan, lugar da poesia no mundo, entre outros temas, e diz que “A poesia sempre dirá não ao que é prisão e sim a tudo que é flor e risco”.

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Que “mesma fome” é esta que dá título ao seu novo livro?

Trata-se da necessidade que eu tenho de me relacionar com a palavra, minha tentativa de levá-las além de si mesmas. Se não consigo que o poema vá além das palavras, eu o abandono. É desse desejo intenso que surge “A Mesma Fome”. O mais importante é que eu preciso estar plenamente viva para sentir essa avidez. Enfim, trata-se da minha relação com a vida, comigo mesma, com o que sou, o que fui e o que serei. Esta fome é sentida desde “Marrons Crepons Marfins”, o primeiro livro. E nunca passou! Por isso escrevo e me mantenho viva, vigilante, entregue. É paradoxal? Para mim, é fundamental que seja.

Sua poesia vem mudando (tudo e todos mudam!) desde “Marrons Crepons Marfins”, de 1984, seu primeiro livro. Que mudanças importantes você identifica nesse seu percurso literário?

Sim, nunca se é semelhante a si mesmo. Mas, na verdade, o que sinto é que desde “Marrons Crepons Marfins” venho me aproximando de mim mesma, do que sempre quis ser. Isso se reflete em minha experiência poética. Se já não há o frescor de “Marrons Crepons Marfins”, há a síntese de “Rito”, a verdade de “poço. festim. mosaico”, “Esperado Ouro” e de “Lábios-espelhos”, a liberdade de “Habitar Teu Nome” e deste “A Mesma Fome”.

É admirável seu rigor com a palavra. Como conjuga a emoção de fazer o poema e ele comover ao mesmo tempo?

Respondi antes que se não consigo que o poema vá além das palavras, eu o abandono. Talvez o leitor sinta o quanto me entreguei para não abandonar o poema, não abandonar a vida. Se o poema não me comove, ele inexiste para mim. Ele pode estar até bem escrito, mas isso não me interessa. Interesso-me pela vida. Um poema sem vida não é poesia.

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Temas relacionados à mulher, ao amor e ao desejo são muito presentes em sua obra. Existem temas que são mais poéticos ou mais líricos que outros? Ou a poesia pode servir “a todas as fomes”?

A poesia é a própria fome. Um ser com fome é, para mim, muito mais poético do que um ser saciado. É mais humano, mais dionisíaco, mais profano, mais sublime, mais contraditório. Sobre os temas, eles vão se mostrando e eu os reconheço. Não escrevo procurando temas. A vida é o meu único tema.

“Cássia, Janis, Nina” (título de um dos poemas de “A mesma fome”)… que outras vozes estão presentes neste seu novo livro?

O livro é dedicado à memória de Dora Ferreira da Silva, Yona Wollach e Zila Mamede. Mulheres bem diferentes, de diferentes lugares, todas poetas, todas absurdamente livres. Também evoco alguns nomes que me alimentam, como Kazuo Ohno, Hilda Hilst (sempre), Marina Abramovic, Safo, Oswaldo Lamartine de Faria, Marianne Moore.

Seus poemas lembram a poesia clássica. Quais são suas influências e referências?  Como funciona seu processo de escrita? 

Penso que minha poesia traz, naturalmente, ressonâncias da poesia clássica. O que será um poeta ocidental sem ter lido Homero, Safo, Dante, Virgílio? Escrevi certa vez um poema chamado Néctar, no qual faço referências a Ana Cristina Cesar, Silvia Plath e Virginia Woolf, digo que não sou nenhuma delas e sou todas elas. É isso, quem escreve tem que ler e depois esquecer tudo que leu para vibrar com frequência própria, somente assim se é digno dessas vozes, dessas afinidades.

Que tipo de sensação ou vontade vem primeiro no momento da construção de seus poemas?

Quando escrevo, a única sensação é a de estar viva, a única vontade é de viver mais e mais.

Você acha que a poesia perdeu sua capacidade de influir no mundo contemporâneo?

A meu ver, não é função da poesia influir em nada, a poesia revela o que somos. E isso basta! O que fazemos com essa descoberta, dependerá das culpas que carregamos.  Paz diz que amamos Maiakovski não por, mas a despeito de suas ortodoxias, pelo que sua palavra tem de solidão indomável, irredutível. A poesia quase sempre esteve isolada, em ruptura com a sociedade. Isso não é ruim. Para mim, isso é maravilhoso! Somente a poesia diz não ao que está estabelecido, ao mercado. Somente a poesia escolhe a contramão, a contracorrente. O que chamo de poesia não está restrito a literatura! Para mim, a poesia é tudo aquilo que nos leva além de nós mesmos. Não acredito na poesia engajada a uma causa, nem acredito na poesia acuada, acovardada, ou naquela que sobrevive circulando o próprio umbigo. Acredito na poesia que não é prisão.

Você é uma escritora de referência no RN. Que conselhos daria para quem já iniciou ou está começando na vida literária, sobretudo poética?

Responderei com um verso que escrevi em “Habitar Teu Nome”: Não acredite, escolha sozinho/sozinha sua dor.

Que achou do Nobel para Dylan?

Sempre me senti pertencendo mais a tribo de Lou Reed do que a de Bob Dylan. Digo isso porque sempre houve certa rivalidade entre os dois. Adorei quando soube, há muitos anos, que o Dylan dele vinha do Dylan Thomas, que eu amo. Na verdade, nunca ouvi muito Bob Dylan, mas posso dizer, sim, ele é um poeta. Sobre o Nobel, ressalto que o prêmio era de literatura, não de poesia. Talvez se fosse de poesia, ele houvesse aceitado. A sensibilidade de Bob Dylan disse não a mais uma manobra política da academia sueca e não receberá o prêmio. Essa atitude é a atitude de um poeta. A poesia sempre dirá não ao que é prisão e sim a tudo que é flor e risco.

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Tácito Costa

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