PAPO RETO com Plínio Sanderson

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Plínio Sanderson vocifera no Dia da Poesia ou quando é provocado. Tem lastro para abordar assuntos da ordem no ceio cultural e becodalamense. Acompanhou de perto o “evoluir” da Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjacências (Samba), estudou os mecanismos da lei estadual de incentivo à cultura e, além de poeta, conhece a história da poesia e seus movimentos pendulares pela terrinha. Confere aí o papo que não saiu tão reto porque o poeta é ensandecido.

1. A Samba ainda dá samba?
A SAMBA passou muito tempo desafinando na mão de um grupo de mesmas pessoas, desde a saída (prevista por mim ainda durante o pleito) do presidente Bira Lemos. Ouve descumprimento de Estatuto e esse grupo deu “golpe” (palavra em uso bem constante nesse contexto obscuro) tirando da Civone o direito de assumir. Um tal grupo dos 13, ou traíras como eles mesmo se autoproclamaram. Mandato tampão que sacramentou-os no poder inocuamente. Mandato tampão medíocre em usufruto de produtores.

Campanha de Augustolula teve apoio além de gabinetes de políticos petistas até mesmo da governadoria, com táxis e transportes para buscar eleitores. Ganhou do Dunga. Administração do amigo Lula cumpriu alguns eventos e criou baile de carnaval etc, com aval da FJA e o escambal. No entanto, vi administração mais midiática e egolátrica, onde reuniões eram fechadas, caracterizando verticalização de poder que não se coaduna com espírito libertário do beco esplêndido. Na prática vimos a administração nas mãos dos mesmo produtores.

Eleição de Dorian contra Tia Biba, deu vitória à chapa continuísta. Padecendo do mesmo mal, pior, havendo uma mistura do público com ações privadas. Administração capenga, não cumpriu calendário de eventos.

Na última eleição, sem concorrentes, Tárcio foi aclamado e com boas ideias como difusora do beco, palcozinho em Ramos. Começou com a corda toda, mas perdeu gás, atrapalhado pelas vacas magras, caos econômico e nova realidade de política cultural de editais.

Esse é o grande problema da SAMBA, desde a administração Lula (de dez dedos) que se tentou de fato legalizar a instituição. O que de fato não ocorreu. Sem existir oficialmente a instituição não pode participar de certames de editais.

Vejo a entidade como deflagradora de Movimento de identidade do centro histórico. Em nossa administração, leia-se Eduardo Alexandre, conseguimos formatar eventos que tinham esse apelo de resgatar a história e o clima boêmio do centro. Conseguimos trazer ao epicentro da urbe sua verve irrequieta e desmitificamos o beco onírico. Falta isso, trazer de volta ações que suscitem nossa memória e pertencimento do sítio histórico em que eclodiu a cidade.

2. Quem, além de Plínio Sanderson, poderia ser o melhor presidente da Samba?
Eu não sou tão abnegado assim, tenho muito o que não fazer para me meter de cabeça nessa tarefa hercúlea. Instituições não devem ter uma pessoa à frente, deve ser um coletivo, movimento horizontal imbuído na missão acima relatada. Mesmo assim, vejo Marcelo Veni como grande aglutinador.

3. Leis de incentivo municipal e estadual ultrapassadas. Quais renovações são mais urgentes? Por que ninguém viabiliza essas urgências?
Putz, essa Lei foi meu TCC em Gestão pública: “A Lei de Incentivo Câmara Cascudo é um Instrumento Eficaz de Gestão de Política Cultural no RN?” Apresenta uma visão crítica da gestão pública da cultura apontando os principais problemas na utilização dessa Lei como fonte da produção cultural e o concomitante esvaziamento da dimensão social da cultura, que se traduz na ausência de uma política pública eficaz, que envolva a criação de sistemas de gestão, informação e promoção da cultura abrangente democrática. Amiga Danielle Brito também estudou assunto. A lei carece ser regulamentada e discutida de forma ampla. Fui eleito pela classe artística e passei quatro anos na Lei, donde arranjei alguns desafetos por minha postura intransigente na democratização da Lei. Fiz proposta de Normatização que iria mexer com muitos interesses já alicerçados no sistema.
Acredito que os pontos mais relevantes são:
a) Limitação de aprovação de projetos por ano para cada pessoa física e pessoa jurídica por exercício;
b) Inversão nos “tetos” dos valores “Incentivado” e “Investimento”, quando na marca fantasia do projeto esteja inserido o nome do patrocinador;
c) Inibir a perpetuação de projetos e coibir a reserva ou monopólio na captação dos recursos, contribuindo assim para a pulverização e democratização dos recursos da Lei;
d) Fixar percentual de verbas para serem utilizadas exclusivamente para financiamentos de projetos que não tenham fins lucrativos;
e) Exigir do proponente a declaração se o projeto está tramitando em outras Leis de incentivos (Djalma Maranhão ou com Lei Federal), caso esteja, explicitar quais gastos serão cobertos com cada uma das Leis;
f) Limitar concessão de incentivo previsto nesta Lei, para projetos oriundos de Órgãos ou Entidades da administração direta ou indireta do Estado do Rio Grande do Norte;
g) Evitar a similaridade e competências concernentes, analogia de projetos semelhantes apreciados pela Comissão, por exemplo: Festivais de Rock, Eventos Carnavalescos, Festivais gastronômicos;
h) Proibição de remuneração para administração, elaboração e captação de recursos para o proponente, quando este for o poder público da esfera Federal, Estadual ou Municipal;
i) Previsão de 10% da tiragem de livros, periódicos, vídeos, discos e similares para doação ao sistema de bibliotecas, através da Fundação José Augusto;
j) Buscar pulverizar projetos em todas as mesorregiões do RN;
l) Buscar mecanismos que façam uma distribuição por áreas de linguagens.
Enfim, há muito o que se discutir.

4. Recente artigo de Thiago Gonzaga critica uma falsa literatura potiguar. Você, poeta, me diga: quem são esses falsários e quem são os 10 ou 12 que ele absolve?
A poesia do RN durante séculos foi muito anacrônica. Até começo do século passado nossos poetas buscavam inspiração em movimentos estéticos demodè. Antônio Marinho foi um critico bastante importante, porque bateu de frente contra esses passadistas. Claro, exceção ao visionário Jorge Fernandes, como diz amigo Augusto lula: DNA/RNA da poesia potiguar. A partir dos anos 60 a ‘Coleção Jorge Fernandes’ vislumbra o cenário de mudança, trazendo à tona nomes mais antenados com uma poesia mais contemporânea: Myriam Coelí e Celso, Sanderson Negreiros, Newton Navarro, Dorian Gray e Luiz Carlos Guimarães, que deram prosseguimento ao que já faziam Antônio Pinto de Medeiros e Zila Mamede, renovando a poesia potiguar. Em 1979, Moacy Cirne, num livro radical “salva” 19 nomes que estariam salvaguardados dessa tentação do romântico. O Poema Processo foi também um Movimento que trouxe alvissareiras para poesia papa jerimum com Falves Silva, Dailor Varela, Jota Medeiros, Avelino Araújo, Anchieta Fernandes e o próprio Moacy Cirne. Nos anos 70, eclode a Poesia Marginal e Geração Mimeógrafo que trás em seu bojo novas temáticas e ressuscita a proliferação de poetas (sic) e o velho ditado: Rio Grande do Norte, capital Natal em toda esquina um poeta…
O problema é que a egolatria, as fogueiras de veleidades e política do compadrio impera na província que teima em pairar no meio intelectual. Digo desde os anos 80: antes a arte que o artista faz do que o artista que a arte produz! Não acredito em absolvição, todos são culpados até que a obra mostre ao contrário.

5. Quem você pensa que é?
Suspiro o alívio
de me conhecer na sombra
do meu próprio invisível!

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FOTO: GIILENO ESCÓSSIA

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