A flora do muçambê entre seus lábios

Carlos Gurgel
Colunistas

ele desfolha o verso como se fosse a tinta do sangue de uma rima do coração. João Neto, um menino de sete anos, se abre, com sua voz de sonhos e enormes estrebarias poéticas. vai como um infante, escolhendo palavras e salvando nossos dias. desfolha uma colheita de tantos anéis dos inúmeros cordéis, e todo mundo presente, emudece. ele carrega com seu rosto e rastro, uma vontade enorme de revelar seu mundo de imensa e fértil saliva. soube dele, numa manhã, onde procurando pelos sites, encontrei um vídeo, ele declamando. sua beleza quando fala descrevendo o que sente, é como um projétil que nos acerta de afetos. seus olhos respingam uma força expressiva. sua poesia pessoa, toda ela se estrebucha, como se seu corpo fosse a palavra que acorda, pronta para ver o mundo e suas galáxias urbanas e rurais. sei que ele daqui a pouco, vai pegar um aéreo móvel e descrever por um bom tempo, sua poesia, para outros públicos, outras plateias.

unnamed2esse menino tem como se fosse um festim de balas na sua língua cabeça. ele rodopia pelo espaço como um amigo bicho, um animal sem igual, rápida ave, como uma lenda cachoeira que banha nossos pés e corações. com sua voz, como algodão do seu verbo, ele abre espaços, florindo como sorriso dos seus serrados. ele não se cansa de reviravoltas, como uma inesquecível roda gigante das palavras. e, com todo mundo presente, faz uma enorme ciranda de agradecimento. parece que quando ele passa, a vida se enche de celebrações e desembaraços. um dia pedirei a ele um perfeito abraço apertado. porque a luz dele, reconstrói o olho do tempo, ofertando para quem abraçado for, uma penca de bicas de buscas de setas abertas, certas de tantas janelas para a rua, celebrando a lua e seus casais.

tenho certeza que um dia terei o maior prazer de assistir ele. pois ele representa uma fortuna lírica de uma cidadezinha do interior com o nome de Equador, região do Seridó; por onde as pessoas passam, e pasmem, param nas confluências das esquinas olhando para as outras pessoas, e esperando pelo aparecimento da sua voz rasgando o feitio do tempo, como uma plantação bela e inigualável. João tem tudo para ser nosso mais expressivo porta voz, de um tempo esquecido e inqualificavelmente precioso. essa sua maneira de recitar, me faz lembrar aqueles enormes casarios do interior com suas acolhedoras varandas, sendo visitadas pelo sabor das frutas frescas, do adubo do gado, do leite quente, vespertino.

a posição da poesia que ele revela, é como uma labareda que se espalha noite à dentro. ele, através da sua língua e do seu verbo, vai rapidamente criando crescidas raízes e a semente de um outro vento matriz. ele se lança como um mensageiro, alma, espírito, tesouro, de uma aventura gramatical, prenhe de fórceps, gargantas, miolos, pés escarafunchados de tanta enxada usada, rolo de fumo, e do pastel quente das tantas horas da esquina. a face dele é como se fosse uma carta guardada. recheada de palavras esquecidas, e depois, aquecidas, reino de uma época por onde dávamos as mãos e corríamos em direção ao açude belo, fluído de ventura, porvir de cocadas brilhosas e de tudo que desperta nossos passos e pulmões.

sabe-se lá como essas coisas se dão. simplesmente elas aparecem e mudam nossas enormes cancelas de fardos engalfinhados de poeira e inconclusos passos. essa voz desse menino destrava a porteira secular, como um antídoto do tédio, e de tudo que navega na direção da escuridão. essa voz dessa poesia, escultor do transe hipnótico e sertanejo, repercute no mundo, como um labirinto infestado da saudade, sacudida por uma força incalculável de festejos. porteira das fazendas, sítios, mansões seculares. alazão, como cantil, alforje de tanta polegada de rima sem descanso.

então ele, com sua poesia, existem. então, que ele abra clareiras, enormes flancos, por onde nossos corpos se lambuzarão na clemência dos seus riachos, enormes recados e de tudo que urge, ruge e surge. o céu da rua em silêncio, sorri. revelando que ele, é como um convite ao interior de nós mesmos. o céu da rua em silêncio, também revela, sua gratidão, nessa sua sagração de procurar por ele. resta a nós, soletrar entre o chão nosso de cada dia, o convicto convívio que tivemos com João. pois sua voz libertará tantas rochas e serras e montanhas. crença, criança, cria, criada no inabalável mundo dos seus versos.

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Carlos Gurgel

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