A grande lembrancinha do hoje

Carlos Gurgel
Artes VisuaisColunistas

é sabido que o inabalável curso da História se personifica, dentre inúmeras e múltiplas impressionantes escaladas, também, como uma grande lembrancinha do hoje. ornado como um inefável tapete voador, a belíssima viagem pictórica de Cristiana Coeli Goldie, transpõe o círculo da preciosa e ululante semente fácil, e se instala como um fogaréu, ao redor dos nossos escombros e pulmões.

unnamed2instada como um raro farol de tanta magnitude plástica pelos senhores canadenses e ladys de lá, nossa grande amiga carioca/natalense, praticante das cores implacavelmente contemporâneas ( a cada círculo dos dias ) se espalha pelo mundo ocidental, como um cata-vento moderno repleto de um enorme gás.

filha de Celso da Silveira e Myrian Coeli, irmã de Eli Celso, Cristiana vem se emoldurando, se firmando como uma irrepreensível moça das cores novas e desenhos que remetem a uma época revestida por um terraço onde as constelações formuladas pelo seu traço, transpõem a ampulheta do certinho, e se instala, como uma vertiginosa carreira que a cada dia, banha-se do universo fantasmagórico e surreal, para presentear nossos olhos e corações com sua incontrolável arte.

seus desenhos saem de um mundo, por onde pelas suas abandonadas retas, somos tomados o tempo todo, por uma corrente cooldramática de personagens noturnos/notívagos, trafegando diabolicamente como se fossem criados pelos nossos próprios alter egos.

sim, a cidade por onde os personagens pictóricos criados por Cris, transitam, ela não valida o nosso senso comum. eles beiram e beijam o tempo todo, uma tormenta formidável, lusco fusco que a cada respiração, flora como uma torre surrealista, composta de permanentes sustos e inigualáveis sonhos.

somos o tempo inteiro arremessados como se fôssemos pedras de uma caverna desconhecida e cáustica. essa aventura é incorrigivelmente inadiável e única. assim, nossos espíritos se confundem e se deformam, parecidos com suculentas escaladas, cria do nosso interior íntimo. desintegrados, nossos vultos chicoteados e modernamente sem prumo, tal qual víboras de uma história mal contada da nossa irrepreensível contemporaneidade, saem pelos ares, vomitando refluxos e súplicas.

unnamed3assim sendo, o quintal por onde pisamos e passamos, molda-se como marca de uma maçã repleta de cactus, um comovente diadema solar; ora como fingimento da cor de um devir do vermelho fogo, ou, por outra hora; como que se tripticos fermentasse o covil que se alastra tipo um pônei indefeso e repleto de uma razão esquecida; faz do mundo, absolutamente todo o mundo, uma tensão incorrigível da sensação do depois.

gostaria de demonstrar através dessa formulação surreal, cortejo construído por Cristiana, como isso tremula no nosso inconsciente contaminado de ócios. todas as cores e faces formuladas pela pirâmide Cristiniânica, nascem como se fossem cúmplices de um parto urgentemente repleto de magníficas torres do abismo que nós mesmos criamos quando crescemos. movimento por onde se revela a lâmpada taciturna das nossas mentiras e falsos perdões. essa construção dos personagens da artista, somos nós mesmos, seus protagonistas, abobalhados e efêmeros, repletos de cuspes e da custódia de muito querer e nada puder.

a vida, por um instante, e, para sempre, escolhe como doidivana que é, o calor e o calibre, abrasivos, como seus cúmplices, tatuando nosso impensado e cego ego , o tempo todo de nóias e da inqualificável releitura dos nossos medos, apontando para um infinito universo, repleto de costumes de cifrões e chulos clichês urbanos.

temos assim, ao nosso lado, perenemente e permanentemente a presença cronológica de fanáticos módulos sonâmbulos, e do incorruptível cerco aos nossos desvarios e desmaios. acredito firmemente que a pictórica viagem de Cristiana é nosso bálsamo. é com ela que conseguiremos transpor o umbral da ignorância e solidão. porque é justo nesse umbral surreal e alquímico, que nossa contemporânea conterrânea, nos oferece todas as intrincadas peças, por onde haveremos de escapar dessa cilada, escala criada por nossos pés e pós. que sejamos, nem que seja por um átomo e átimo, a lembrança gostosa da nossa fraticida e inefável infância.

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Carlos Gurgel

Comentários

6 comments

  1. Trudy Veitch 28 dezembro, 2016 at 22:34

    Beautifully written about a wonderfully talented, progressive artist who is not afraid of colour!

  2. Carlos Gurgel
    Carlos Gurgel 29 dezembro, 2016 at 04:15

    Obrigadissimo querido amigo Novenil, Cristiana é como uma embarcação que cabe nós e todo tipo da preciosa loucura e lucidez. Eva evoé !!!!!!

    Cgurgel

  3. Carlos Gurgel
    Carlos Gurgel 31 dezembro, 2016 at 02:30

    obrigado Trudy com alta sinceridade Cristiana vai bem longe, pois seus traços se assemelham a um ar oposto a esse que respiramos, filho do mar, onde os segredos dos seres flanam. ótimo que estejamos celebrando Cristiana, meu abraço.

    Cgurgel

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