Farnel

Carlos Gurgel
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unnamed3esfomeados bailamos por horas. entre a estação do trem e o que nos espera na próxima parada. mãos trêmulas, corações vazios. lá, onde a curva do tempo espalha um novo frescor, indigentes passamos. é preciso estar atento e forte. pelas sombras das centenárias árvores, nossos corpos são como grãos que se entrechocam. parece que o vento que passa pelos nossos cérebros confidenciou ao horizonte, que as últimas noites serão purgatórios. infelizes purgatórios. e os vultos caminham como se absolutamente nada estivesse acontecendo, tomam banho de piscina e se alimentam de inúmeras iguarias contemporâneas. sim, a ilusão de que somos guerreiros e vitoriosos está estampada nos espelhos. a todo instante passa correndo os animais humanos. o círculo, o circuito, o ritmo, a idiossincrasia de tanta colagem. de tantos passos, mil, milhões, bilhões de passos. carregando pelos seus rastros, o esquecimento de tudo que foi. de tudo ou nada. por tudo que um dia o sonho passou por aqui. por nada, que o inventário do amor, pediu para se esconder por entre flores perfumadas e lágrimas acesas. pensar sempre foi o forte dessa sociedade de merda.

horas são como relógios horrendos e medrosos. elas se degladiam. como a lançar pelo universo o inverso da intuição reinante. na realidade, a verdade é um desconhecido campo gravitacional. é por esse campo que agora estamos personificando essa enorme torre, comprimida de tantas situações, episódios, dramas e permutas. sofrer é melhor que sonhar. mas as aventuras de se escalar o improvável monte, penduricalho de ofensas e feridas, faz da raça humana essa gosma, essa purulenta vontade de sorrir e de corar. como arremessando o suplício de uma maratona de verbos antigos e repletos do pó dos pés de nós. queiramos o abstracionismo da trilha da estrada, tanta coisa vasta sem ser vista. tanta. relíquia é não se esquecer de imaginar que a vida corre como uma oferenda bendita. pois que a morte inevitável se aproxime dos nossos juízos teleguiando ao cosmos, que nossa estadia aqui por esse chão foi concluída. como se pensar aliviasse a intuição do caos. como se a simples ou profunda reflexão nos levasse para um campo de relaxamento. um campo impróprio de glórias efêmeras e pontiagudas.

sim, ao que se passa, parece que a permanência chora, dilacera pela sua face, a carcomida catedral de tantos e infinitos erros. desconstrução é se armar de fogueiras e do holocausto da poeira que circula por entre os lagos, benfeitorias de uma célula urbana. vê-se ao longe, uma interminável e labirintesca fila de carros. uma indecifrável romaria de faces. sua a fisionomia do mar. brada a fisionomia da lua. vocifera a fisionomia dos ares. tudo tão líquido. se desmilinguindo. flutua a rua como um antepasto de frágeis barbatanas. quem disse que o perdão existe? quem gritou a favor da simplicidade da vida? quem se escondeu no centro do muro das lamentações, abrigando seus ossos e remendos? quem, na dúvida, ficou em silencio pelo resto da vida? pensar é tão bom, mas absolutamente, diz nada. não sejamos crianças. isso, impossível. a cada criatura, uma enormidade de monstruosidades. um calhamaço de papel amassado. um estratégico e insolúvel desvario. como se fôssemos feitos de prata e ouro. tenhamos contrição. tenhamos o recado da nossa alma. tenhamos o silêncio como deleite dos nossos aperreios e perdições. tenhamos pelo menos, aos outros. porque, entre nós, já nos perdemos para sempre.

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Carlos Gurgel

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