A música do RN em 360 graus

Anderson Foca
ColunistasMúsica

Semana passada meu amigo e parceiro cultural Marcílio Amorim cometeu dentro das suas elocubrações e sonhos o Festival Ribeira 360. Acompanhei tudo de perto porque além de tocar por duas vezes na atividade, ainda fiz uma espécie de consultoria na pré-produção. Vi o quanto Marcílio e sua equipe estavam engajados em realizar algo bonito e 100% RN. Estão de parabéns e estou orgulhoso por eles!

Falar da parte artística do festival é chover no molhado. Já não é nenhuma novidade para qualquer cidadão um pouco mais ligado (de verdade) em música que vamos muito bem, obrigado. E não é de hoje, não começou agora e não vai parar. Tivemos apresentações maravilhosas de todos os estilos, quase todos os show que vi foram de bons para ótimos e a plateia, bastante envolvida e conhecedora do repertório de todos os grupos (quase não se ouviu covers ou versões durante o festival inteiro).

Algumas coisas ficam bem claras para tirarmos como lição do Ribeira 360º. A primeira coisa que pude perceber (na verdade já sabia) é que música no geral, precisa ser embalada num bom produto para ser consumida em massa. Todo o discurso vago de que “Natal não valoriza seus artistas” parece cair por terra sempre que isso acontece. Pra exemplo básico do que eu estou falando digo que o ano mais bombado do Festival Dosol – quando fizemos dez anos – foram artistas potiguares que encerraram a programação, os tais headliners.

“Mas Foca, essas pessoas não vão no dia-a-dia dos shows locais”. Muitos não vão mesmo, mas será que elas não vão porque não gostam/não valorizam música local, ou o que tá sendo ofertado não é atrativo? Acho que é preciso fazer um exercício e perceber que shows pequenos existem e precisam ser feitos para se ter uma fanbase, para quando um show grande e mais bem produzido acontecer o resultado aparecer. EM TODOS OS LUGARES DO PLANETA FUNCIONA ASSIM! Pode melhorar? Pode e deve. Sou um otimista radical.

As rádios locais não tocam música local. É verdade. Mas rádio comercial não cumpre papel cultural em nenhum lugar do planeta. Outro exemplo? Quando o Plutão Já Foi Planeta estava na TV as rádios locais TODAS tocaram o grupo. Eles acompanham uma demanda de público que não gosta de música, gostam na verdade de serem entretidos e música cumpre bem esse papel. Por isso que é tão importante assumir rádios como a FM Universitária e lá sim, tentar que a música local protagonize. Quem ouve a FM Universitária é fã de música e falaríamos diretamente com um público capaz e replicar bons sons até chegar às rádios populares, inclusive – o caminho inverso do papel “de imposição” que o discurso “compre o que é daqui” pratica. Compre porque é bom e aqui tem muita coisa boa para ser comprada. Essa sim é uma filosofia mais realista e ao mesmo tempo menos humilhante para quem faz parte da cena cultural da cidade!

Por último, fica a análise final de o quanto avançamos como produtores. É inimaginável pensar o Festival Dosol (que começou para 500 pessoas dentro do Blackout) tendo a sua primeira edição com 1/10 da estrutura que teve o Ribeira 360º. Significa que quem veio antes de nós trabalhou muito, nossa geração de festivais como o MADA e o Dosol continuaram pavimentando caminhos e o Ribeira 360º, assim como outras iniciativas que tem se estabelecido na cidade, seguem esse fluxo e podem começar suas atividades sem precisar “perrengar” tanto, aproveitando as experiências anteriores e os erros e acertos dos que já estão estabelecidos.

É nesse fluxo natural das cosias que temos que nos apegar e saber que para ter resultados diferentes e menos frustrantes é preciso fazer coisas diferentes e ter coragem. Marcílio foi corajoso e arrojado e figuras como essa são muito bem vindas na nossa cena cultural hoje e sempre. Até a próxima.

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Anderson Foca

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