Crônicas e Artigos

As miríades de Míriam

Alfred Jarry

O Sonho é a possibilidade de muitos, mas somente os muito loucos ou muito lúcidos podem fazer desse sonho um espaço onde já se torna quase indizível a sua fronteira com a realidade. Esse é o mérito de Alfred Jarry (1873-1907) em sua obra “O AMOR ABSOLUTO”, lançado pela Imago e que compõe a coleção Lazuli.

O dramaturgo Alfred Jarry, precursor ou “surrealista antes do surrealismo”, não se desfaz da dramaticidade viva que está na base de toda obra de arte que se propõe a colocar o homem diante do mundo com todas as suas contradições e diante de si mesmo com tudo aquilo que escapa à lógica social pela lógica do espírito. “O AMOR ABSOLUTO” é o amor obscuro do homem que, frente à morte, recria os momentos em que estar preparado para morrer já é um caminho andado para estar vivo onde somente os olhos pagãos podem enxergar.

“O AMOR ABSOLUTO” é o sonho de Emanuel Deus ou o Outro, seu Duplo. Sendo Deus, somente ele pode conhecer a Verdade eterna e, consequentemente, “de maneira perfeitíssima e variada, mentir”, pois a quantidade de mentiras atuais e possíveis escreve-se o infinito menos um é igual ao infinito. O filho-homem, não o filho do homem, ama a sua mãe e, sendo Deus, o incesto é divino. Maria-Míriam, Maria-Medéia, amada-mãe, amada-amante que se divide entre a morte e a vida. Quando viva para o mundo aparente não pode ouvir seu Édipo, pois não passa da esposa virgem do carpinteiro José, mas – morta para as escrituras – assume todos os riscos do Amor Absoluto porque já pode se identificar com a vontade de Deus. Estava previsto. Os Magos haviam lhe trazido as três oblações: o outro simbolizando o Rei, o incenso significando Deus e a mirra trazendo o cheiro da Morte.

Por um lado, o filho-homem personifica o Cristo-Errante, o Ahasverus condenado a errar eternamente por não permitir a si mesmo o repouso em prol do suicídio. Por outro, Maria-Míriam faz-se de Sherazade deixando a cada noite um amor inacabado para não ser executada na manhã seguinte. Emanuel Deus, tal qual Aladim, vai ao centro da terra em busca de sua lâmpada mágica para conhecer o sofrimento de Deus no direito hereditário ao selo da Trindade. Na impossibilidade de ter piedade de Deus, para não lhe fragilizar a divindade, Emanuel atravessa o vitral e “quando suas bocas se mordem e separam-se momentaneamente para controlar em seus olhos a beatitude, os seios dela são a reprodução dos seis dele”.

Enfim, Cristo é onde ele não é, ou seja, o homem começa a viver aos doze anos e morre aos trinta, quando volta para cumprir sua profecia de condenação ou “o fim do filho segundo a Paixão”, porque para trás ficou a certeza de ser Deus na descoberta da virgem, mãe e pequena esposa. Jocasta-Maria-Míriam, ou apenas Mimi, aquela que estreitou bem as coxas em torno do pescoço dele atravessando o rio “nesta hora que é a hora da morte”. Amém!

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Wilson Coêlho

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