Não apresse o esfíncter: a ascensão do cosplay de alta cultura

Daniel Liberalino
Colunistas

O bárbaro de ceroulas é a esperança das belas letras.

Contra a autoridade cabalística dos infográficos da Superinteressante, e apesar da tocante perseverança em entrevistar blogueiros, a internet apenas produziu fuleiragem em literatura.

Fato trivial se restrito às sobras de Sylvia Plath com jeu de mots Didi Mocó, que neste solo parodiam escrita e, sob a milícia da segunda pessoa do singular (tu te cativas etc.), super comunicam um lirismo Chico Buarque.

Mas há ainda a figura comovente do cosplay de alta cultura.

unnamedEx-metaleiro, ora convertido ao elevado brio do suspensório, e todo esse magnetismo animal, quando não está fazendo o Paulo Francis ou o Nelsão ou, veias retesadas no pescoço, suando em busca de algum maneirismo inglês meio Evelyn Waugh, emérito alcoviteiro de futon consagrado por gracinhas fáticas, até desabrolhar uma hemorróida, será visto escandindo diligente com a linguinha rósea no beiço suas redondilhas e ditirambos, Sísifo enternecedor à espera da estrelinha na testa que nunca virá.

Aqui um decassílabo alexandrino sobre o rocio da tulipa orvalheira, ali um flamante esplendor do arrebol, e demais reminiscências das saudosas malas-diretas motivacionais de Power Point, razão de ser dos tios no esquema cósmico até idos de 2011.

Num sebo, chega a tremer, como a pubescente à súbita visão do líder de turma; entre lençóis, o grave medievalista borboleteia onírico sobre austeras catedrais e simpáticos vilarejos, conjurando pradarias idílicas, onde, vestido em látex, seria ardentemente penetrado por Conan O Bárbaro.

Certificando-se de que as vírgulas foram distribuídas com didatismo, orações e subordinações anal-retentivamente frisadas numa prosódia Professor Tibúrcio, prenhe de um reumatismo naftalínico meio Gustavo Corção, só então finda o dia com o senso do dever cumprido. Falha em notar, é claro, que a literatura de ceroulas é como a buceta com regimento; que impera, enfim, certa etiqueta de bimbada nesse glamour geriátrico.

É um impaciente.

A esclerose pode esperar.

Tal como na maturação do chardonnay, não se deve apressar a flacidez do esfíncter. Para o tino refinado do connoisseur, a autêntica literatura de broxa sabe, antes, à decrepitude natural.

Só o plebeu ignora que a lira é essencialmente incivilizada; só ao blasfemo escapa que, sem uma sólida dieta de baixeza e corrupção, fenecem o sublime e a inocência.

Choldras de glutões da decrepitude reviram escombros de uma fueba Roma das letras. A barbárie veio de ceroulas.

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Daniel Liberalino

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