Stranger Things: política e escapismo cultural

Gustavo Bittencourt
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Todos os lances que consagram os anos 1980 estão lá. Na estética da imagem que parece decalcar um filme dessa década, a série cuida desde os créditos de abertura com tipografia característica e música de sintetizadores reconhecida como de uma época nem tão distante.

A cultura pop sempre fez uso de conceitos caros ao domínio científico e filosófico, embora sorrateiramente usados para fins elementares no ato de contar uma história.

Assim, despertam interesse, sugerem camadas de leituras e aguçam a curiosidade do público em todas as apropriações narrativas com variações no cinema, tevê e literatura.

O universo criado pelos produtores da série Stranger Things é determinante para seu público.  Adultos que cresceram como excêntricos nerds na geração anos 1980, e o jovem atual da cultura Geek, expressão que abarca o fascínio por tecnologia, narrativas e jogos, porém, com postura mais confiante no meio social em comparação aos tímidos nerds de antes. A empatia do público para com os adolescentes desajeitados na série não é à toa.

A série original da Netflix, Stranger Things, ganhou status cult em comunidades interpretativas espalhadas em fóruns e redes sociais – nem sempre de forma elogiosa, com a mistura saudosista de clichês do imaginário pop oitentista embalados numa trama de gênero fantástico.

Todos os lances que consagram os anos 1980 estão lá. Na trilha sonora e estética da imagem que parece decalcar um filme dessa década, a série cuida desde os créditos de abertura com tipografia característica e música de sintetizadores reconhecida como de uma época nem tão distante.

Distantes da irreverência nas artes plásticas de Marcel Duchamp com os mestres do passado, hoje vivemos na era do mash-up, com sinais de um Dadaísmo tardio – quase sempre sem a preocupação política deste movimento do começo do século XX que confrontava valores morais e estéticos das instituições.

Hoje, se não desrespeitar direitos autorais, tudo que é dado cultural pode ser misturado e bem aceito na busca por criatividade.

Gêneros situados e formas narrativas

Essa categoria de ficção popular situada em séries televisivas, parte do melodrama clássico e se estabelece num contexto histórico com diversidade constituída, com a literatura do século XIX como matriz.

São narrativas de romances sentimentais, aventuras, terror, horror, comédias, sitcoms, ficção científica e policial investigativo e seus subgêneros. Séries que mantêm a proposta de inovação e questionar todo um panorama evolutivo.

Neste caso, o gênero fantástico é contumaz na facilidade de capturar anseios de uma época. Mais do que sua verossimilhança, o que importa é a sensibilidade para descrever o despercebido. Em épocas conturbadas, as obras de ficção científica, horror e terror exploram melhor as ansiedades psicossociais.

Stranger Things restaura um apanhado de teorias conspiratórias e aspectos narrativos de subgêneros da ficção científica: dimensões paralelas (o tão comentado Mundo Invertido), experiências humanas pelo governo com o uso de LSD e expansão da mente.

São tantos elementos do gênero fantástico e policial investigativo, somados ao melodrama típico de uma sessão da tarde, mas com pegada sombria, que a mistura pode soar indigesta. Entretanto, a coisa estranha funciona.

Stranger Things_6Imaginário político e a ameaça em questão

Na discussão clássica da filosofia política, Hobbes e Maquiavel, medo e terror fundamentam o Estado moderno. Do pacto que funda a igualdade de direitos, na ofensa e defesa, surge a desconfiança geral. A violência é intrínseca ao estado de natureza, com elementos da lei o corpo político surge e a reciprocidade do medo também.

A sombra da atualidade é matéria-prima para explorar com criatividade, direta ou indiretamente, os debates da sociedade. A inquietação contemporânea está na origem dos projetos de muitas produções culturais.

Na luta contra o mal vemos distintas representações narrativas. Maniqueísmo e culpa de ambos os lados, vilões e ameaças diversas. A ameaça latente ou manifesta é instrumento essencial para exprimir ideias nas artes, independente de ideologias e, muitas vezes, sem concessões.

TWITTER_LossSe filmes da franquia Bourne, lançados entre 2002 e 2016, abusam da inverossimilhança, com pinceladas de realidade, formatada para o entretenimento adulto, com discussões sobre o poder desmedido e implacável do governo, a série Stranger Things, em seu disparate fictício e desprendido do real, sugere paranoia e algo assustador de outrora para ecoar na atualidade.

De forma enviesada, a série Stranger Things em seu disparate completamente fictício e desprendido do real sugere o clima paranoico e assustador de outrora para fazer eco na atualidade. A tendência para fugir da realidade no entretenimento escapista pode soar mais política do que muitos discursos panfletários.

A franquia Bourne situa-se no verniz da suposta realidade para criticar a força impiedosa dos serviços secretos em sua luta contra o terrorismo de células autônomas, o próprio estado fabricando suas armas contra o inimigo, seres condicionados por experiências científicas e destinados para a guerra, destacando consequências dessa relação de suspeitas generalizadas. Apesar de abordagens distintas, a essência é a mesma.

Quando o terror emana da governança abusiva e produz seus próprios monstros, o mal persiste. Fobias e violência assumem formas monstruosas.

Crise de consciência e esquizofrenia social

A crise de consciência instaurada e personificada em Bourne, vivido no cinema por Matt Damon, se encontra de forma parecida na personagem Eleven, vivida por Millie Bobby Brown, de Stranger Things.

As duas personagens são armas elaboradas pelo governo, rebeladas e fugitivas de seus destinos, de forma inglória ou incerta. Evoca traumas contemporâneos, implícitos, obscuros, manifestado na cultura.

Em Stranger Things o mote para o governo perpetrar abusos pode estar nos medos e excessos da Guerra Fria, embora pareça que nessa época pré-internet a ingenuidade prevalecia.

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“Quando o terror emana da governança abusiva e produz seus próprios monstros, o mal persiste. Fobias e violência assumem formas monstruosas”.

Por isso, a vilania do controle e segurança do Estado seja também mais inverossímil. Medos, traumas e paranoias do indivíduo subjugado no meio social por forças burocráticas aparecem com mais vigor no século passado, na obra de Kafka, por exemplo, e nas aflições com toques sobrenaturais do pós-guerra vistas em Além da Imaginação. A ameaça desconhecida retratada nas narrativas nem sempre é palpável.

O monstro de Stranger Things que vive na dimensão paralela e assombra o mundo dos personagens não é mera metáfora política, muito menos o pior em atividade.

Mas consequência da ameaça destacada nessa comparação, a mesma governança com sua equivalência em termos de truculência para discutir o atual estado das coisas, independente de sua forma em representação.

A rendição pelo carisma da série Stranger Things se dá em tempos cada vez mais esquisitos, quando a confabulação de teorias conspiratórias espalhadas pelas redes sociais e o poder autoritário que emana da governança de países ganha força.

Assombra à todos nessa turbulência midiática, política e social de nosso país, quando a realidade se torna difusa e parece suplantar a mais criativa e fantástica das invenções ficcionais.

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Gustavo Bittencourt

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