Superbacana poesia bahiana

Carlos Gurgel
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Carla e Carlos Gurgel nos anos 1970, época em que o poeta potiguar explorou a incrível teia de desejos e tentações que é Salvador (BA)

Salvador nos anos 70 emblematicamente personificava uma cidade que permanentemente dialogava com a poesia espalhada pelos seus quintais, e pela reinante pobreza que se estendia pela rua do território do teatro Castro Alves, até outras suburbanas áreas da cidade.

era cristalinamente uma terra onde quem lá fosse, se apaixonaria rapidamente pela atmosfera que a cidade espalhava, como uma incrível teia louca de tentações e desejos. quem por aqui morou mais de quinze anos, foi o poeta elementos do caos, Miguel Cirilo.

pois bem, a cidade de Salvador resguarda a loucura das pessoas, e ela por si só, também, propaga uma série de predicados que estimulam os seus visitantes.

pelas suas subidas e descidas uma série interminável de crenças desfilam, como a testemunhar pelo seu povo, a indisfarçável satisfação e admiração pelos seus orixás e pela extensa fila dos seus trios elétricos e foliões, sedentos do suor que escorre pelos seus casebres, enormes mansões e pela cristalina casinha das suas pessoas simples e preciosas. o bahiano por natureza não tem nada de preguiçoso, ele é por demais esperto.

pois a possibilidade da alegria dos anos 70 pulsava como um relógio doido de tanto suar. era assim que os nichos grilos se revelavam aproximando a linguagem cênica com o rodopio das praças soteropolitanas repletas de poetas. onde essas rodas de poesia se espalhavam pela praça do Relógio, em frente ao Castro Alves, próximo ao mercado Modelo.

eu estava nesse grupo de poetas, vários soteropolitanos, com suas respectivas namoradas. eu nessa época estava começando a me interessar pelo vegetarianismo.

imagine Salvador me recebendo de braços abertos, e eu recém chegando indo em direção a praça Castro Alves, onde lá, me encontrei com uma genuína bahiana e fomos por um bom tempo atrás do trio elétrico.

sem cansaço numa esquina, paramos em um boteco e pedimos 2 cervejas, e qual espanto meu ao por a mão no bolso, me deparei com ele vazio. toda minha grana naquele momento tinha ido para uma outra pessoa, vilã, desconhecida e anônima. passei o carnaval me valendo de 2 caixas de Murim mirim que tinha levado.

nessas alturas estava hospedado no apartamento de Guida uma soteropolitana superbacana namorada que foi de João Gualberto. estava lá também hospedados Julinho Resende e Malu Aguiar, Piru e Cristina, Sérgio Dieb, Gilson Zero dois e não lembro se mais alguém.

Salvador

fiquei matutando sobre a ausência do vil metal, e conclui que só voltaria para Natal se pudesse recuperar parte do meu prejuízo.

logo após o carnaval saí a procura de emprego e depois de uma semana estava trabalhando em um loja de discos no corredor da Vitória, em uma dessas galerias comerciais, que abrigava lá o melhor sebo da cidade o Ex Tudo do amigo Getúlio.

e confesso que vivi na soleira de uma costa de estampa fina bahiana, cruzando seus rios e barcaças. abrindo meus olhos como fã das suas esquinas, ladeiras, estátuas e monumentos.

subi o elevador Lacerda pela primeira vez ao lado de Carla, uma gaúcha que acabara de conhecer. eu, frequentemente ia ao “baba” de Itapoã, assim é com aqui é conhecida a pelada na praia, nesse litoral soteropolitano.

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“imagine Salvador me recebendo de braços abertos, e eu recém chegando indo em direção a praça Castro Alves, onde lá, me encontrei com uma genuína bahiana e fomos por um bom tempo atrás do trio elétrico […] paramos em um boteco e pedimos 2 cervejas”

depois, fui hóspede em uma coletiva casa de artistas estendida pela beira mar de Itapoã. umas quinze a vinte pessoas, na sua maioria, poetas, bailarinas, publicitários e uma legião de agregados que aos sábados se juntavam, onde fazíamos um escritório do rito por mais uma passagem de semana. era uma permanente esquadra de completas novidades quando se juntavam de 4 à 5 conhecidos e começávamos a alinhavar os eventos da cidade.

próximo a nós, pela mesma rua morava Luiz Melodia, que invariavelmente nos fins de semana não conseguia ultrapassar a soleira da sua casa, dominado que estava pela bebida em desenfreada franquia. cansamos de ver ele estendido na frente da sua casa, vencido pelo pileque, ressaca do mar da delícia de morar em Salvador.

eu morava em Salvador já fazia mais de um ano. trabalhava agora como gerente de uma loja de disco no porto da Barra, centro irradiador soteropolitano de cultura e arte. os clientes da loja na sua grande maioria eram músicos, poetas, dentre eles o genial poeta Geraldo Maia Santos, o Gerald California, o músico Jorge Pá Pá Pá, atores, cineastas.

aos sábados a concentração na loja era bem maior, e foi em um desses sábados que eu conheci o músico Zelito Miranda, o qual já conhecia Natal, e que durante o papo, ele me falou que estava dirigindo uma peça teatral, e sabendo que eu já tinha feito parte de vários elencos de atores em Natal, me fez o convite para que eu fosse assistir o ensaio do espetáculo.

então, depois de alguns dias, eu lá estava em umas das inúmeras salas do subsolo do teatro Castro Alves, quando ao final do ensaio, Zelito me faz o convite para integrar o elenco, que de pronto aceitei. estreamos depois de uns dois meses, e logo após a estreia, o grupo recebeu convite para se apresentar em cidades do interior bahiano.

como eu trabalhava como gerente da loja de discos no porto da Barra, acabei ficando em Salvador na companhia da Carla, integrante também do grupo de teatro, uma guria gaúcha, além de ser também uma refinada artesã de uma lista exuberante de babilaques, anéis, e demais elementos que compõem a beleza do corpo feminino, e que por outros compromissos também permaneceu em Salvador. eu e ela nesse período, já morávamos no porto da Barra em apartamento próximo a loja.

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“[…] pela mesma rua morava Luiz Melodia, que invariavelmente nos fins de semana não conseguia ultrapassar a soleira da sua casa, dominado que estava pela bebida em desenfreada franquia”

foi daí que um dia recebi telefonema de Luiz Santos Lima,Lola, me convidando para me integrar ao grupo de artistas natalenses para a realização de um festival.

como o namoro com a Carla estava cada vez mais bacana fiz o convite para que pudéssemos vir para Natal e ela de pronto atendeu.

essa minha decisão de voltar para Natal, foi construída a partir da conversa com Lola, onde ele me detalhou da concepção do Festival, que me despertou um interesse medonho, por tudo que ele representava. o resto é pura e rara história que a galera dos anos 70 viveu e curtiu aquarianamente.

a foto que ilustra esse texto, foi tirada quando pernoitamos no Recife, no apartamento da minha prima Dadá e seu esposo Wilson, quando do regresso para Natal. faz tempo que não sei da Carla, se você ler esse texto guria me dê um alô. vivencias soteropolitanas para sempre !

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Carlos Gurgel

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