Literatura

No estacionamento

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Toda semana a cena se repetia no estacionamento daquele prédio. Ele parava com um sedan de luxo preto com vidros escuros. Pouco depois, ela chegava em um SUV branco; estacionava o veículo, entrava rapidamente no carro dele e os dois saíam juntos. Cerca de duas horas depois, estavam de volta. Ela entrava novamente no SUV e cada um seguia seu caminho.

Como era uma das últimas quadras residenciais antes da região de motéis — e convenientemente escondida dos olhares da avenida principal — , não era incomum os casais se encontrarem ali e deixarem um dos carros estacionado.

Mas aquele casal chamava a atenção pela regularidade. Todas as segundas-feiras, alguns minutos depois das 15 horas, eles apareciam e repetiam o mesmo ritual.

— Não tem erro. Toda semana é a mesma coisa, parece relógio — explicava a moradora a uma nova vizinha, enquanto as duas olhavam os filhos brincando na praça arborizada em frente ao prédio.

— Será que eles saem do trabalho e vêm se encontrar aqui? Com um carro desse, ele deve ser chefe dela. Talvez seja até mais velho.

Enquanto as duas conversavam, a mulher entrava mais uma vez no sedan preto. Ela aparentava ter um pouco mais que trinta anos, era uma morena bonita e bem-feita de corpo. Estava sempre bem arrumada, normalmente com óculos escuros, saia justa, salto alto e usando algumas joias.

— Não dá para saber a idade dele com esses vidros escuros. Ele nunca sai do carro, só ela… Mas eu acredito que não trabalhem juntos. O encontro é num dia certo da semana. Acho que ela deve inventar alguma desculpa para o marido, como ir ao psicólogo, à academia, ou algo do gênero.

— Pode ser que eles trabalhem juntos e nesse dia tenham algum compromisso de trabalho que permite dar uma fugida…

— Você notou que ela estava com o cabelo molhado? Assim, ninguém vai saber se tomou banho ou não.

— Mas será que é ela quem que está traindo o marido? Será que ele não é casado?

— Quem esconde o carro é ela.

Embora não se soubesse qual era a verdadeira relação do casal, e para onde iam depois que saiam dali, o destino imaginado era um dos motéis da região, até pelo costume de outros casais, não menos suspeitos, de também usarem o estacionamento como ponto de encontro.

É bom que se diga que não se tratava de uma vizinhança reconhecidamente fofoqueira, até porque era um bairro de classe média, com muita gente trabalhando ou ocupada com seus afazeres — embora isso não evitasse que alguns encontrassem tempo para dar uma atenção maior à vida do próximo.

O sinal que algo não ia bem surgiu com um grupo de meninos que jogava voleibol na quadra da praça. Eles ficaram curiosos com o fato da mulher estar demorando bem mais do que o normal para chegar. Já fazia mais de 20 minutos que o sedan preto estava lá sem nem um sinal dela.

— Vai ver o marido descobriu e não deixou ela vir, opinou um dos meninos.

— Talvez seja só o trânsito. Ela deve estar chegando.

— Sei não… Algo me diz que ela não vem. Sou capaz até de apostar.

— Eu aposto que vem… tá vendo… ela chegou.

A mulher estacionou o carro e entrou correndo no sedan, que logo depois saiu apressado, como se quisesse compensar o tempo perdido. Com ela de volta, os meninos retornaram com o jogo de vôlei, sem que o assunto tivesse tido maiores consequências.

Isso até a outra segunda-feira, quando ela, embora tenha chegado na hora habitual, saiu do carro com uma expressão muito séria, até agressiva, e passou bem mais tempo dentro do sedan, antes deles saírem.

Mas a surpresa foi maior quando os dois chegaram quase que ao mesmo tempo dois dias depois, na quarta-feira.

Nesse dia, ela estava bem menos arrumada, de vestido solto e sandália baixa, e visivelmente abatida. Ficou mais de meia hora no sedã e, ao contrário das outras vezes, não saiu dali com ele. Pegou o SUV e foi embora apressada. O homem ainda ficou alguns minutos parado, para só depois deixar o local.

— O negócio esquentou. Será que eles acabaram? — Perguntou o homem que passeava com o cachorrinho para a mulher.

— Pode ser, tenho quase certeza que ela saiu chorando.

Passaram-se duas semanas sem os dois aparecerem, o que aumentou a especulação de que o casal realmente tinha rompido e não voltaria mais. Até que na terceira semana, na mesma segunda-feira, e praticamente no mesmo horário, chegou o sedan preto. Como de costume, quem estava na praça ficou esperando ela aparecer logo depois.

Qual não foi a surpresa quando chegou um carro diferente e desceu uma mulher totalmente desconhecida. Ela entrou rapidamente no sedan, antes que o veículo partisse do estacionamento, deixando todos perplexos, tentando assimilar o que acabara de ocorrer. De certa forma, todos se sentiram tão traídos quanto imaginavam ter se sentido a mulher do SUV.

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