De Volta aos Clássicos – CIDADÃO KANE

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“Um homem é capaz de se lembrar de coisas que você não imaginaria”

“Talvez Rosebud fosse alguma coisa que não poderia ter. Algo que ele perdeu”

“Um brinde ao amor nos meus termos. São os únicos termos que uma pessoa conhece: os seus próprios”

No panteão da História do Cinema, Cidadão Kane (1941) desponta sempre como o melhor filme de todos os tempos. Com apenas 25 anos, Orson Welles, depois que levou os habitantes de New Jersey a pânico, com a dramatização pelas ondas sonoras da obra de H.G. Wells, legou uma das mais fascinantes obra da Sétima Arte, apenas uma década após o Período Silencioso ter se encerrado com O Cantor de Jazz (1927).

Lembrado como inovador em termos de linguagem, com o produtor, diretor e ator incorporados pela mesma persona, Cidadão Kane foi lançado em 1941, ganhou um Oscar de Melhor Roteiro Original e, à época, foi renegado pela Industria de Hollywood que temia a ira do magnata americano no qual Orson Welles se inspirou para o seu personagem, sobretudo que sua influência se alastrasse e contaminasse o cinema feito com uma linguagem, uma moral e um modelo mais classico do fazer cinematográfico.

Ao contrário de em Vive-se Uma Só Vez (1937, de Fritz Lang), onde também temos um filme de personagem, Welles desloca nosso olhar das estruturas sociais e culturais que encurralam os homens para a trajetória particular de indivíduos que são capazes – ainda que nem sempre – de moldarem o mundo à sua semelhança e propósitos.

cartaz

I.

Cidadão Kane começa com(o) um documentário, onde uma micro-reportagem (que depois sabemos ser uma espécie de cine-jornal) refaz a vida pública e privada de Charles Foster Kane: um verdadeiro americano – como o mesmo gostava de ser lembrado. Portanto, o filme já nos apresenta ao percurso do herói, sua ascensão e queda, o que já de início se torna bastante revelador para o painel biográfico que veremos, pois, a despeito da trajetória do personagem em uma estrutura narrativa bastante elaborada, não importa a história que deslizará sob os nossos olhos, a dramaturgia em seus aspectos de construção e desenvolvimento de enredo e personagens.

Cidadão Kane, antes de tudo, é um produto da imagem, do mundo do visível, com suas nuances de angulações, movimentos e posições de câmeras; com a fotografia e as transições fílmicas intricadas, justapostas, em constante transformação. Uma imagem do mundo fragmentada, sem coesão lógica e real. Ademais, não estamos diante da História, mas de um objeto construído, com claras e concretas interferências de um autor, que ao longo do filme nos coloca dentro da realidade do cinema.

Quase vinte anos depois, o diretor francês Alain Resnais repete a fórmula de abertura do filme seminal de Orson Welles, ao mesmo tempo que, em Vertigo – Um Corpo que Cai (1958), Alfred Hitchcok avançava no deslocamento das certezas do olhar e da verdade da imagem e, como sempre, lembrando-nos que nem tudo o que a imagem nos mostra é o que vemos.

Em Hiroshima, Mon Amour (1959), Resnais faz também o filme iniciar com(o) um documentário sobre o caos humanitário decorrente da hecatombe nuclear, antes que aqueles corpos entrelaçados aparecessem por completo na imagem e se mesclassem em paixão e desejos – é o cinema homenageando o próprio cinema, o filme refletindo a história das formas fílmicas, como nos situa Francis Vanoye, no livro Ensaio sobre Análise Fílmica (1996).

Entretanto, ao contrário de Resnais, Orson Welles não descola, se pensarmos numa perspectiva temática, o prólogo documental da ficção que se seguirá, mas, paradoxalmente, promove um descolamento mais radical entre estas duas instâncias irmanadas no tema, mas distantes em termos de materialidade.

cena1 - PARTE 2

II

Independente do personagem, com suas máximas que dariam uma antologia sobre o homem na complexidade e irracionalidade dos seus desejos – “Se eu não tivesse sido um homem muito rico teria sido um grande homem”; mesmo se não fosse aquele universo de segredo que nos prende no entorno da palavra “Rosebud”, que faz aquele jornalista sair a procura do seu significado e que não passa de uma muleta e estratégia de roteiro; e a despeito do tema edificante das origens e da verdade fincada na longínqua infância e que nos define desde a mais tenra idade; Cidadão Kane nos apresenta a um verdadeiro tratado sobre a temporalidade do cinema – como na sequência memorável de Charles Foster Kane sentado à mesa com sua primeira esposa, que, desenvolvida numa mesma situação dramática, permite-nos divisar a deterioração de uma relação afetiva, de corpos e do amor que, no final das contas, envelhecem e morrem; sem precisar de um olhar reto e fundado na evolução de fatos. Uma sequencia que inicia com Kane servindo Emilly e termina com os dois nas extremidades da mesa, depois que, em travelling, a câmera se desloca para vermos a imagem símbolo da separação dos corpos e dos afetos.

III

A partir do recurso do flashback calcado nas memórias das pessoas que conviveram com Charles Foster Kane e que vão se desvelando a medida que o jornalista Thompson busca o significado de Rosebud, Cidadão Kane vai desdobrando-se em temporalidades que formam um mosaico narrativo e complexo. Como todo mosaico, apresenta-nos a uma estrutura narrativa fragmentada, cuja ponta do novelo é difícil – ou quase impossível – de ser encontrada.

Um dos momentos mais marcantes, que funde tempos e espaços, passado e presente, que abole os marcantes elementos de transição (do corte, dafusão, da tela que escurece e abre em outro tempo/espaço), está na antológica sequência de Kane a olhar uma fotografia da equipe do jornal concorrente numa vitrine citadina. Em segundos, numa discreta e invisível fusão, cenas se fundem, a fotografia ganha vida e nos leva a outra foto feita seis anos depois com aquela mesma equipe de jornalistas que o magnata das comunicações acabou de “comprar”.

cena3 - PARTE 5

IV

É sempre marcante rever Cidadão Kane em uma semana em que fiz a revisão, paralela, de Ano Passado em Marienbad (1961, de Alain Resnais), que se funda na desestruturação total do olhar e da imagem. E mais uma vez essa experiência trouxe-me a sensação de que a experiência com o mundo da imagem é infinita, que multiplica-se em outros olhares que aprofundam, adentram significados e nuances que só a revisão nos permite percorrer e descobrir as portas que uma obra de arte pode permanentemente abrir. Revi Cidadão Kane – no intervalo de duas semanas – com duas turmas de graduação da UFRN – onde trabalhamos o modelo de análise fílmica proposto por Michel Marie, no livro Lendo as Imagens do Cinema (2009), que, basicamente, consiste na escolha de uma (ou mais) sequência(s) que seja reveladora da poética de um dado filme. Em um dos trabalhos, sobresaiu-se a leitura de Jocimara Câmara que analisou uma das sequências finais desenvolvidas por Orson Welles como síntese:

V

“A câmera enquadra Kane da cintura à cabeça, que vira as costas e entra no quarto (até o momento, estava observando a saída da sua mulher à porta). Após uns poucos passos, o personagem pega uma peça de roupa que sobrou em cima da cama, a guarda numa mala deixada para trás, fecha a mala com mãos trêmulas e a joga contra a parede. Joga também uma segunda mala, encontrada no chão ao lado da cama. Após arremessar uma terceira mala, tira com furor os lençóis e os joga no chão, arrancando também a cortina. Após isso, dirige-se a uma pequena mesinha com objetos caros de decoração e beleza: derruba os objetos e a mesa. Derruba quadros e arranca cortinas, mais uma mesa e empurra o guarda roupas e uma poltrona. Se dirige ao outro lado do quarto e arranca com as mãos uma prateleira colada à parede. De uma estante, derruba livros e arremessa uma garrafa de bebida. Derruba um criado mudo e arranca um espelho.

cena2 - Parte 2

Em todos esses momentos, anda com dificuldade entre os destroços ao chão; por muitas vezes ficando enroscado a eles e os levando com o pé. Após derrubar mais alguns objetos, segura em uma das mãos um globo de neve, dá alguns passos e fala a palavra “Rosebud”; e, em seguida, enche os olhos de lágrimas e, com o globo na mão e o olhar de lágrimas no horizonte, sai de cabeça erguida do quarto. Esse pequeno intervalo confundido facilmente com uma cena de ataque de fúria vista em tantos filmes revelam o segredo e ensinamento de Cidadão Kane. Isso porque os objetos quebrados, derrubados ou arremessados são essência e exemplos de tudo que Kane conseguiu e era: as malas revelam a facilidade de se viajar para todos os lugares, dependendo apenas de sua vontade. A cama, representa o amor de mulheres e o prazer carnal.

As cortinas, uma vida particular um pouco longe de olhares alheios, o que consegue em Xanadu, mas que se abrem para olhares curiosos em sua vida pública, para ser ovacionado pelo público. Objetos caros e de beleza revelam a riqueza que adquirira. Os livros e a bebida, o prazer. O espelho, seu egocentrismo. O fato desses destroços o impedir de andar com tranquilidade revelam o peso e a dificuldade de se livrar dessas “prisões” que a riqueza o trouxe.

Porém, uma pequena e simples bugiganga Kane não foi capaz de quebrar. O globo de neve, por mais ínfimo que pareça, o trazia a lembrança da única coisa que lhe foi tirada e que nenhuma das facilidades que seu dinheiro lhe traz é capaz de devolver. A sua infância brincando na neve, seus pais e seu esqui foram-lhe arrancados inesperadamente. Dentre tantos bens e caprichos, nada satisfaz o poderoso Charles Foster Kane, para o qual a única riqueza inalcançável e a maior perda era a vida simples quando criança”.

FIM

 

i. O título provisório de Cidadão Kane foi The American

ii. Orson Welles é contrato pela RKO para filmar em Hollywood depois que, em 1938, leva a população de New

Jersey por meio de uma transmissão radiofônica a acreditar numa invasão alienígena, quando só estava narrando passagens de A Guerra dos Mundos em dramáticos “Boletins de Notícias”.

iii. O personagem de Charles Foster Kane é baseado no magnata da imprensa americana William Randolph Hearst, marcado pela incursão na política e por uma frenética vida pessoal.

iv. Filmado às escondidas por quase dois meses, como se tivesse fazendo testes, o corte final de Cidadão Kane, praticamente, incorporou estas cenas iniciais que Welles realizou com sua equipe de teatro.

v. Cidadão Kane teve 9(nove) indicações na 14o Edição do Oscar, mas, em função do temor que a Industria Hollywoodiana tinha do magnata WRH, o filme só ganhou o Oscar de Melhor Roteiro Original.

vi. Em 1998, foi eleito pelo American Filme Institute como o melhor filme de todos os tempos.

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