DestaqueLiteratura

O jogo metaficcional de Silviano Santiago na narrativa “Em liberdade”

silviano2

A obra “Em liberdade”, de Silviano Santiago, publicada em 1981, traz como narrador-personagem um importante escritor da literatura brasileira, Graciliano Ramos. Apenas esse aspecto já seria suficiente para despertar a atenção do leitor, porém há algo mais que torna o texto um tanto interessante: o momento histórico no qual se desenvolve a ação narrativa.

O enredo de “Em liberdade” transcorre nos primeiros meses de 1937, período no qual Graciliano Ramos acabara de sair da prisão política imposta pelo governo de Getúlio Vargas. Nesse momento, de acordo com narrativa de Santiago, Graciliano estava desempregado, arruinado financeiramente e sem um projeto existencial. E por isso passou a escrever um diário como uma forma de evasão à dura realidade presente e às lembranças da triste realidade vivida na prisão.

silviano

Ao utilizar um “personagem real” e um momento histórico não ficcional, Santiago convergiu para uma prática literária pós-moderna, classificada pela estudiosa canadense Linda Hutcheon, na obra Poética do pós-modernismo (1988), como metaficção historiográfica. Segundo Hutcheon, a metaficção é sempre um retorno a um determinado momento histórico, mas “é sempre uma reelaboração crítica, nunca um retorno nostálgico”. Dessa maneira, o histórico e o fictício passam a apresentar delicados limites, a linha entre o real e o imaginário torna-se muito tênue. No entanto, as narrativas pós-modernas não estão preocupadas com a veracidade histórica e sim com a problematização da história oficial: não se questiona a ocorrência do fato histórico, mas se a maneira como ele foi transmitido é tendenciosa, se tem a intenção de beneficiar alguém ou algum ponto de vista.

Na narrativa “Em liberdade”, o tempo passado, além de problematizado, é utilizado como uma forma de crítica ao tempo no qual a narrativa foi escrita e publicada, pois retoma um momento de autoritarismo (Estado Novo) e foi escrita durante o período da Ditadura Militar. Assim, tece críticas que servem para as duas ditaduras e traça um paralelo entre ambas, conforme se pode observar na citação a seguir: “O passado não é apenas um lugar de reflexão que o homem presente pode escolher (ou não) para melhor direcionar a sua posição no hoje ou no amanhã. Sendo lugar da reflexão, o passado não tem um valor em si que deve ser preservado a todo custo, mas pode e deve ter um valor que lhe é dado pelo horizonte de expectativas do presente”. Ao valorizar o passado a partir da perspectiva de que ele pode influir no presente, Santiago, através do narrador-personagem, alerta o leitor para a possibilidade de uma “atualização” da narrativa. Assim, o narrador-personagem encaminha o leitor a um posicionamento crítico diante de sua própria realidade. Tal procedimento literário foi estudado pelos teóricos da estética da recepção. A expressão “horizonte de expectativas” utilizada por Santiago na citação anterior remete à referida teoria, foi bastante empregada nos estudos de Hans Robert Jauss, considerado um dos fundadores da estética da recepção.

Fato inegável na produção literária recente é a influência do mercado editorial. Para ser escritor não basta escrever, é necessário vender, participar de eventos literários, cativar o público. Essa condição atua diretamente na maneira de se fazer literatura, como confirmam as palavras da professora Therezina Barbieri, no ensaio Ficção impura – prosa brasileira dos anos 70, 80 e 90: “Nesse mundo, escrever se tornou uma profissão, e a profissionalização da escrita alterou, não só externamente como intimamente, a maneira de conceber, pensar, produzir, perceber e consumir a literatura”. Nas narrativas contemporâneas, o mercado literário e artístico é abordado na ficção, como em Bufo & Spallanzani (1986), de Rubem Fonseca, e A tragédia brasileira (1987), de Sérgio Sant’Anna. Em liberdade também problematiza a referida relação, pois o narrador-personagem da obra de Santiago assinala que: “Literatura, no Brasil, não enche barriga de ninguém. Só quem ganha dinheiro com livros, entre nós, é editor e livreiro, e mesmo assim com a ajuda do governo. Sucesso só cumula proventos para a vaidade do escritor”; e também apresenta preocupação com o futuro do intelectual num país capitalista sob uma ditadura: “A saída para o intelectual no país é ser funcionário público, vivendo a realidade em duas metades, só podendo enxergar a verdade se fechar um olho. Essa condição é das mais castradoras e trágicas, porque o leva a ser mais e mais conivente com os poderosos do dia. Escreverão livros nas horas de folga”.

Dessa forma, o intelectual, em meio a um regime autoritário, ou se torna conivente com o sistema ou sofre as consequências por assumir uma postura independente, como aconteceu ao narrador-personagem: “O que estou chamando de adversidade nada mais é que uma resposta do governo e das instituições repressoras (os poderosos, como dizem no jargão político) ao pleno exercício das minhas possibilidades intelectuais e políticas dentro da minha região. A minha atuação desagrada. Dão-me o troco. Tenho respostas. Respostas bem pouco civilizadas. Elas utilizam a linguagem mais convincente por aquelas bandas e talvez por todo o Brasil: a da violência do Estado”.
Além das reflexões sobre a relação do intelectual com o poder há nas linhas de Em liberdade espaço para a metalinguagem. Discute-se o processo criativo e a própria arte literária: “A produção das frases está aqui, na cabeça, e difícil é passá-las para o papel. O problema não está tanto na dificuldade em transcrevê-las. Basta fechar os olhos e entregar-se ao automatismo surrealista da escrita. Encontrar uma razão para a necessidade de deixá-las no papel e no livro: eis a questão”. Em outra passagem, o narrador-personagem afirma: “Ficção só existe quando há conflito, quando forças diferentes digladiam-se no interior do livro e no processo da sua circulação pela sociedade. Encontrar no romance o que já se espera encontrar, o que já se sabe, é o triste caminho de uma arte fascista, onde até mesmo os meandros e os labirintos da imaginação são programados para que não haja a dissidência de pensamento. A arte fascista é ‘realista’ no mau sentido da palavra. Não percebe que o seu ‘real’ é apenas a forma consentida para representar a complexidade do cotidiano”.

Nessas citações, percebe-se o narrador-personagem teorizando sobre a razão para a existência da literatura, sobre o dialogismo da narrativa literária e sobre a arte fascista. Ao abordar tais questões, a narrativa de Santiago, além de ser uma ficção, torna-se um texto ensaístico. A manifestação de um texto entre a prática e a teoria literária é uma das características das narrativas pós-modernas, pois, de acordo com Hutcheon, “o empreendimento pós-moderno ultrapassa as fronteiras da teoria e da prática, muitas vezes envolvendo uma na outra e uma pela outra, e muitas vezes a história é o cenário dessa problematização”.

As considerações que o narrador-personagem apresenta sobre a arte realista coincidem com a visão da estudiosa Flora Süssekind, no ensaio Tal Brasil, qual romance? (1984), a respeito da estética naturalista que funcionaria representando uma identidade única, sem divisões e dúvidas, ocultando a complexidade do cotidiano. Süssekind destaca Graciliano Ramos como um dos autores brasileiros que vai além dessa visão reducionista realista.

Wander Melo Miranda assinala uma importante faceta de Em liberdade: a tentativa de desconstrução do sujeito autoral. Pois, segundo Miranda, um texto literário é composto por vários outros textos que com ele se relacionam direta ou indiretamente. Em liberdade apresenta traços biográficos e literários de Graciliano Ramos, além de tarços autobiográficos e leituras de Santiago. A partir desse ponto de vista, utilizar a terminologia autor para evidenciar o responsável absoluto para a realização de uma obra literária seria uma atitude incompleta, porque não daria conta do universo de relações intertextuais existentes na literatura.

Transposta para o seu contexto literário (os decênios de 70 e 80 do século XX), Em liberdade se diferencia das demais obras do momento por usar uma linguagem alegórica. Nesse período predominaram narrativas altamente referenciais (estética naturalista), como a obra/documento O que é isso companheiro? (1979), de Fernando Gabeira. A linguagem de O que é isso companheiro? e de outras narrativas do período assemelha-se à de uma reportagem com enredo linear surgido de uma experiência vivenciada pelo autor, características opostas às de Em liberdade, que possui linguagem informal, enredo não linear e experiências pessoais mescladas às “experiências” do narrador-personagem. Assim, “traindo” a tendência literária dos anos 70/80 do século passado, a obra Em liberdade transforma-se em um texto que, além de possuir o cuidado com o conteúdo, elabora uma nova forma para veicular sua mensagem. Uma mensagem que alerta para a assimilação pelo sistema de textos contra o próprio sistema e para a recusa de conceitos fechados, como os de autor e arte realista.

 

* Professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira do IFRN – Campus Natal Cidade Alta

Share:

Comentários

Leave a reply