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Sobre “Francisca”, um romance de época

FRANCISCA

Uma grande injustiça, quando revelada nas primeiras linhas de um romance, desperta de modo especial o interesse do leitor. Será reparada tal injustiça? Porque às vezes “a injustiça não se resolve”, como proclama o cético Drummond no poema “Consolo na praia”, especialmente quando o melhor da vida, a juventude, está perdida, “mas a vida não se perdeu”. É que as circunstâncias da vida não hesitam, aqui e ali, em desmentir os poetas…

A que espécie pertence a injustiça apontada pela romancista natalense Ana Cláudia Trigueiro de Lucena, em seu livro “Francisca” (Coleção Mossoroense, 2015), o leitor só descobrirá ao final da sua leitura. Até lá, porém, desfrutará de uma narrativa fluente que, além de cobrir uma parte significativa da história da Natal moderna, reanimando alguns de seus episódios emblemáticos, como o Orfanato Padre João Maria, a luta pela adoção do sufrágio universal, a presença americana na cidade durante a Segunda Guerra Mundial, a passagem do Graf Zeppelin pelo bairro da Ribeira, em 1930, o levante comunista de 1935 e a ação quase ubíqua da Igreja Católica na vida da cidade, representada, no romance, pelo trabalho desenvolvido pelas irmãs à frente do Orfanato Padre João Maria, bem como pela ação pastoral do monsenhor João da Mata, em visitas àquela instituição filantrópica. Sem falar que personagens hoje incorporados ao folclore do pitoresco da cidade, como Maria Mula Manca e a viúva Machado, redivivos, além de incursões ao bar Cova da Onça, ao Café Maia e à Peixada Potengi, acrescentam colorido à narrativa.

Vale destacar que a recorrência desses e de outros temas na literatura norte-rio-grandense começa a dar corpo a uma espécie de memória afetiva da cidade, fenômeno mais ou menos comum às cidades históricas, formando em torno delas uma espécie de alma sensível compartilhada pelos seus habitantes e afins. Sob esse aspecto, “Francisca” se soma à linhagem de obras como “Antiqualha” (Natal: Arquitetura das Letras, 2013), de Elísio Augusto de Medeiros e Silva; “Cidade dos Reis” (Natal: Sebo Vermelho, 2010), de Carlos de Sousa; “Chão das Almas” (Natal: EDUFRN, 2005), de Moacyr de Góes; “Parnamirim Field: o último pouso” (Natal: edição do autor, 2009), de Lenilson Antunes; “As dunas vermelhas” (Natal: AS Livros, 2003), de Nei Leandro de Castro, dentre outros.

O caráter histórico de “Francisca” está bem delimitado: a narrativa percorre um ciclo iniciado em 1926 e fechado em 1941, totalizando 15 anos da história natalense e mesmo número de anos na vida de dona Joana e de suas filhas Clotilde e Francisca. Desprovida dos meios de sobrevivência mais elementares, após enviuvar, d. Joana busca abrigo para as filhas no orfanato fundado pelo Santo de Natal. Para dar mais substância à sua narrativa, Ana Cláudia T. de Lucena fez reproduzir nas folhas de rosto de “Francisca” fotos de alguns dos personagens que animam seu livro.

A evolução da narrativa, centrada em grande medida no dia a dia do orfanato, descreve em traços fortes a interação nem sempre fácil entre irmãs de caridade – algumas estrangeiras – com as internas que estão sob a sua guarda. É interessante notar como uma modesta instituição religiosa podia desempenhar plenamente suas atividades fins na Natal provinciana de então. E nem é preciso recorrer a teorias sociológicas pós-modernas para entender que as dimensões do Orfanato Padre João Maria correspondiam às demandas de uma sociedade ainda suficientemente bem-organizada, centrada no núcleo familiar estruturado e que só excepcionalmente produzia rachas em seu alicerce.

A mudança dos costumes também é observável no decorrer do romance. Nesse aspecto, o processo de educação sentimental das personagens, especialmente da protagonista, é digno de relevo. É verdade que o silêncio da autora sobre o destino de Clotilde – que se descola da história para viver outra experiência fora – é desses que não quer calar, considerando que se trata de uma personagem intimamente ligada à própria Francisca. Um narrador onipresente, como acontece em “Francisca”, poderia reservar se não um parágrafo, ao menos uma linha, sobre o paradeiro de Clotilde. Como disse o mestre Tchekhov, referindo-se ao seu ofício de escritor, se alguém põe em cena, num conto, um revólver, este tem de disparar. De outro modo, a narrativa fica carente de uma explicação.

A menos que a autora esteja preservando o segredo para um outro livro, protagonizado por esse personagem sem paradeiro conhecido, até agora.

Romance de época, “Francisca” tem seu núcleo narrativo revelado pela própria autora, em nota assinada no final do livro. Seria necessário? Confesso que simpatizo com o autor que se acautela sobre o destino dos seus personagens. No mínimo evitará ilações estapafúrdias em torno de sua gênese, como a dizer: “Sim, Francisca foi fulana de tal, Joana, foi fulana de qual”, e por aí afora.

A frequência com que a história vivida e/ou presenciada ocorre na literatura de hoje levou à criação de um subgênero equidistante da ficção e da história: a autoficção. “Francisca” é um bom exemplo desse novo estilo literário entre nós, produzido por uma autora que tem incursões também pelo gênero infantojuvenil, a crônica e outros gêneros literários.

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