Lo sguardo di Michelangelo

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o homem só,
velho e cansado,
olha para a frente
e nada vê.
olha para os lados
e nada vê.
olha para o fim do mundo
e nada vê.
entre
o espanto dos suicidas
e
o silêncio dos desamados,
o homem cansado,
velho e só,
olha para o poema
e nada vê.
será
que os sinos
dobrarão por ele?
(Poema Final – de Moacy Cirne)

A Moacy Cirne

No último domingo, 30 de julho, há exatamente dez anos, morreu o diretor italiano Michelangelo Antonioni: responsável por uma das obras incontornáveis da História do Cinema. Antes de partir, Antonioni, – que, por sinal, morreu no mesmo dia e ano do diretor sueco Ingmar Bergman (também autor de uma obra não menos fundamental) –, realizou “Lo Sguardo di Michelangelo” (2004), o seu último filme. Na segunda-feira, a atriz francesa Jeanne Moreau nos deu adeus – a mesma que, em A Noite (1961), de Antonioni, interpretou Lidia.


Ao (re)ver “Lo Sguardio di Michelangelo”, resgato as palavras de anos atrás.

O primeiro impacto surge da possibilidade de poder (re)encontrar o diretor de filmes que são fundamentais e que, de alguma forma, balizaram o que muitos passaram a querer descobrir nesse universo caudaloso dos filmes, como A Aventura (1960) e Deserto Vermelho (1964). Tornou-se, nesse segundo contato, um (re)encontro que, a partir do seu último trabalho, quer apenas testemunhar.

Testemunhar os passos de Antonioni sob o templo, o seu corpo em movimento (mesmo que velho), e, sobretudo, a certeza de sua existência (ainda que naqueles instantes finais), mais do que verificar um trabalho que, a despeito de qualquer obstáculo, é mesmo assim monumental no diálogo que estabelece com a escultura de Moisés, que foi feita – literalmente – pelas mãos de outro Michelangelo (O Renascentista).


Ao entrarmos em “Lo Sguardo di Michelangelo”, habitamos cada quadro.

Entramos em cada movimento de câmera e silêncio. É impressionante como, do momento que ele entra na Igreja de San Pietro in Vincoli, Roma, a quando encontra a escultura Moisés, como nos livramos de qualquer outra preocupação com o filme que não seja ver o Cineasta de Ferrara se deslocar pelo espaço e a temporalidade que ainda existe. Em cada momento, o corpo de Antonioni irrompe com a força da memória de todos os seus filmes. É o que nos prende – a mim, pelo menos.

Como personagem e diretor desse pequeno filme, paradoxalmente, hoje, é como se estivéssemos frente a um fantasma, desenhado na entrada e na saída do templo que guarda a escultura de Moisés no túmulo do Papa Júlio II. Retomado por figuras tarimbadas do cinema contemporâneo (como Wim Wenders, Wong Kar-wai, Steven Soderbergh) nos seus últimos anos de vida, a imagem de Antonioni nos prende de imediato: à lentidão de cada passo, ao seu corpo vulnerável, ao seu rosto tomado pelas marcas do tempo, da velhice – ao seu olhar, ao seu ser sozinho.

Realizador de obras-primas, como “Passageiro: Profissão – Repórter” (1975) – com Jack Nicholson e Maria Schineider como personagens principais –, Michelangelo Antonioni afastou-se do mundo do cinema, quando, em 1985, teve um derrame cerebral, que paralisou parte do seu corpo e o impossibilitou de falar, de segurar a câmera e orientar a atuação de um ator – de compor uma cena e de criar o formalismo de cada quadro. Em um dos momentos mais dolorosos da História do Cinema, o seu afastamento parecia sugerir o confinamento na escuridão do tempo e, inevitavelmente, a um passado primoroso, caso não fosse a ação que outros diretores empreenderam para (re)colocá-lo atrás das câmeras.

Para retomar pensar mais uma vez a concepção de uma obra de cinema, como quando realizou A Noite (1961) e O Eclipse (1962), Antonioni dirige “Lo Sguardo di Michelangelo”. Nele, à medida que transcorre o tempo e a sua permanência diante da escultura de Moisés, o segundo impacto vem do silêncio que, a cada plano, preenche a sua solidão, que constitui toda a imagem e a nossa percepção. Paralisados frente às suas últimas imagens, aprendemos sobre a conjunção promovida por uma circunstância histórica, que vincula um homem preso ao silêncio e a imagem como possibilidade em si.

Nesse seu último pequeno filme, o silêncio de Antonioni impulsiona uma estrutura voltada para o olhar, o intervalo entre a visão e o objeto, a interiorização através do ato de ver pelos lugares mais recônditos da alma humana e a total absorção na contemplação. No campo que se forma entre a grandiosidade de uma escultura e a constatação da fragilidade do seu corpo, Antonioni desenvolve redes de olhar e, assim, sistematiza o diálogo desenvolvido com a força da oticidade.

Mas o que contempla o olhar de Antonioni?

Cada parte do complexo escultórico sobre o túmulo de Júlio II, o corpo de Moisés (perna, mãos, barba, olhos, nariz, a severidade e empáfia de um Rei). Consequentemente, a obra de outro italiano já eternizada na solidez do mármore.

Em silêncio, apenas com discretos desenvolvimentos sonoros ao fundo (unicamente, o abrir e fechar de portas), “Lo Sguardo di Michelangelo” é mais do que o aparente canto derradeiro de um pássaro sem eternidade. Fundado no ato de ver, o terceiro impacto promove todo um jogo de espelhamentos e desejos escondidos, visitados, mas não totalmente revelados. Em nenhum outro filme, tem-se a nítida sensação de que estamos diante do mais especial dos segredos.

Da constatação da existência de um cineasta cuja obra não desaparecerá quando o próximo inverno chegar, ao silêncio do seu corpo vulnerável e envelhecido; do silêncio de um homem, aparentemente, preso a uma fatalidade, passando pelo olhar contemplativo e de reverência, visitamos o interior de “Lo Sguardo di Michelangelo” da mesma forma como Antonioni visita San Pietro in Vincoli. Nesse derradeiro trabalho do realizador de O Grito (1957), que se transforma em “lugar de contemplação”, a cada sequência observa-se um conjunto de procedimentos discretos, mas ainda vitais para o controle e realização de uma imagem.

Em cada quadro, permanecemos no silêncio de um olhar que não desgruda um só instante da monumentalidade de uma obra que poderia ter ficado perdida no tempo. “Lo Sguardo di Michelangelo” impacta também porque é um espaço de impossibilidade, seja porque o nosso olhar não é capaz de reter toda a magia, seja porque não se tem como tocar a realidade da luz concretizada em imagem.

Diferentemente do avanço da visão em direção ao ato de sentir de forma táctil, quando a mão de Antonioni se desloca sobre o que o olho não consegue prender, ficamos impossibilitados de também sentir em nossas mãos o diretor italiano, de segurar seus passos sob o templo, o seu silêncio. Então, é-nos permitido apenas olhar, já que qualquer pergunta não é mais possível.

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