Imprensa e violência no RN

Tácito Costa
Destaque

Li o que pude sobre a polêmica gerada a partir da declaração do governador Robinson Faria acerca da questão da segurança no Estado. Gostei, sobretudo, da charge de Brum, na Tribuna do Norte desta quinta, 10. Acho que ela resume a situação. Vale mais que grande parte do que foi escrito de ontem para hoje. Que não foi pouco.

É fato, inquestionável, que o Governo Robinson vai muito mal e precisa melhorar. Sobretudo na segurança. Pra ontem. Feita essa ressalva, detenho-me no ponto que gerou a confusão. A de que “a mídia gosta de falar de segurança e isso provoca na população uma percepção de insegurança, porque a segurança também passa pela percepção das pessoas”.

Não é que a mídia goste de falar de segurança. A mídia gosta de fatos, de quaisquer naturezas. É uma das suas principais matérias-primas. Principalmente, policiais. Os números da audiência dos programas policiais na Tv falam por si.

A insegurança hoje no RN é um fato. Os números da violência, que na juventude do governador (tempos do famoso “Patrulha na Cidade”, da Rádio Cabugi) eram atualizados mensalmente, hoje precisam ser revistos diariamente.

Cobrir a violência rende audiência. Por isso, vemos veículos da nossa cidade que antes tratavam o tema de forma comedida, equilibrada, igualarem-se aos concorrentes para ver quem destina mais espaço ao terror urbano.

Isso aumenta a percepção de insegurança nas pessoas? Talvez a resposta categórica somente com um estudo aprofundado. No entanto, todos têm sua resposta sobre isso. Até o governador.

Pessoalmente, sinto-me incomodado com a maciça cobertura televisiva sobre a questão. Deixei, inclusive, de assistir alguns telejornais da cidade por conta disso. Acho que há exageros nessa cobertura. Considero que há falta de responsabilidade e, em alguns casos, apologia à violência por parte de alguns programas policiais na tv, de rádios e blogs.

É triste ver a cidade paralisada pelo pânico. Minha mãe, de 82 anos, que passa o dia vendo TV, agora se nega a sair de casa com medo de arrombamento e levarem seus “cacarecos”, como ela chama a tralha que acumulou ao longo dos anos. Outro dia, a minha amiga, poeta Nivaldete Ferrreira comentou comigo que não iria ao sarau de poesia no Bardallos, na Cidade Alta, que aconteceria no início da noite, com medo da violência.

Para ir a pé, cedo da noite, da Rua Princesa Isabel à Gonçalves Ledo, e chegar à casa da minha mãe, atravesso apenas a Av. Rio Branco. Levo a carteira, sem os cartões, mas com algum dinheiro e o celular. Não quero correr o risco de o bandido ficar irritado porque estou sem celular e dinheiro e levar um tiro por tão pouco. Esses são apenas alguns aspectos aleatórios que pincei do meu cotidiano. Cada um tem suas histórias. Algumas terríveis.

Não será fácil resolver esse gigantesco problema, que é nacional. Com isso, não estou diminuindo a responsabilidade do governador.

A imprensa pode contribuir para melhorar ou piorar o quadro. Infelizmente, o clima emocional e de comoção que tomou conta das redes sociais, com as declarações de Robinson, impediu o debate no que diz respeito ao papel da imprensa na questão levantada por ele, por vias tortas.

A unanimidade – merecida, diga-se de passagem – contra o governo, mais a radicalização política que permeia o debate público atual, bloqueou quaisquer possibilidades de uma discussão menos maniqueísta sobre a relação violência e imprensa. É uma pena.

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Tácito Costa

Comentários

1 comment

  1. Edmo Sinedino 11 agosto, 2017 at 10:38

    Perfeito Tácito. Me incomoda demais a espetaculazição da violência, principalmente ba tevê, concorrendo entre eles qual o mais chamativo, classifico de ridículo. E infelizmente, como a sua mãe, a minha, centenas de milhares de pessoas se sentem da mesma forma. Até eu e minha turma estamos com medo de ficar na nossa esquina, que vc conhece. Parabéns!!!

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