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Do banditismo que chegou

Não ofende perguntar: algum tempo já teve mais banditismo que a era atual? Se teve, foi bem longe dos registros de agora. Mesmo com o cangaço e seus bandos o tempo não era tão perturbado com a delinquência, como é atualmente.

Toda era tem seu pacote de males, pragas e adjutórios. Cada tempo tem suas próprias malacrias, mas nenhum com tanta carga de perversidade como o atual. Antes, mesmo no mundo da delinquência, alguns princípios freavam o ímpeto do mal que toma corpo na ação humana. Virgulino Ferreira da Silva (1898/1938), o temido Lampião, fez saber que temia – por respeito – um ou outro do tempo dele e não contrariava, se soubesse, uma ordem do Padre Cícero Romão Batista (1844/1934), sacerdote católico que liderava o povo nordestino a partir do interior do Ceará. Antonio Silvino (1875/1944), antes de Lampião, também – por relatos já ouvidos – tinha alguns freios e pesos. Poucos, bem verdade, mas, ao modo do banditismo antigo, algum sentimento de respeito ainda podia ser suscitado para contê-los.

Sinceramente, sem achar que a verdade é somente minha, penso que a descarga de muita coisa ruim, que se juntou ao longo de vários anos, está ocorrendo agora. A educação, antes criticada pela severidade, correu de um lado a outro e, ao que parece, não achou ainda o ponto certo. Os costumes, então, penderam para o lado pior quase de uma vez, entortando a sociedade, sobretudo, pela epidemia da droga em todos os níveis. As músicas, reflexo de uma mensagem que diminui a grandeza das mulheres e torpedeia a família, fazem sucesso danado com expressões que, até bem pouco tempo, ninguém tinha coragem em dizer dentro de casa… Não precisa mais ter preocupação. As rádios tocam abertamente o que antes era considerado “ilegal, imoral ou engorda”.

Até a religião, com o devido respeito a quem pensa o contrário, mudou um pouco o discurso. De um lado, uma turma que fala somente em milagres e reparações imediatas; de outro, uma outra com uma explicação muito relativizada em relação a fatos e circunstâncias. Neste meio termo parece que muita gente perdeu o medo de ir queimar no inferno, depois de um julgamento, sem apelação, no horizonte que a fé nos faz enxergar. O mau, até onde recordo as lições da catequese, é contrário ao bem e o sujeito deve fazer logo uma opção por um dos lados, afinal a qualquer momento pode ser chamado para uma conversa derradeira sobre o paraíso de cima ou o pesadelo de baixo. Aliás, não sei exatamente quais as lições de fé que estão chegando às novas gerações. Leio, pela imprensa, que a invocação do nome de Deus está presente até em alguns manifestos de facções criminosas, o que, certamente, com Ele não foi combinado.

O certo é que a violência já chegou em todos os recantos, horários e hábitos. Antes um ou outro local era evitado, sobretudo, em horários da noite. Hoje, cedo ou tarde, o risco é praticamente o mesmo. Até nas terras antes tranquilas do Seridó que a gente ama a torcida do cidadão comum é ser assaltado por um bandido profissional, do tipo que não atira sem perguntar o nome e somente deseja levar o suor da renda do trabalho. O sangue, dada a boa técnica profissional, ele deixa em paz.

E nos sítios, recantos bucólicos de um sertão bonito, mesmo no castigo da seca, a ação criminosa bateu com força! De homens velhos humilhados pela covardia de mais jovens e fortes até o frequente furto de animas. Crimes e desordens que batem à porta dos pacatos que, diante da violência, se sentem fragilizados e, constatando a impunidade, entram em profundo desânimo.

De todo modo, quem é de paz, também cultua a esperança. As mesmas lições de fé que demonstram que o mau é contrário ao bem demonstram que, dias a mais ou a menos, o que é bom e justo vencerá. A torcida, agora, é que não demore tanto.

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Fernando Antonio Bezerra

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