Nostalgia da luz

Marcos Aurélio Felipe
AudiovisualDestaque

I
Astrônomos chilenos analisam o universo, as estrelas e as galáxias e concluem sobre a impossibilidade de dominar o presente, pois, se pensarmos que a luz do sol e da lua quando nos chega já foi emitida há pelo menos alguns minutos, é o passado o que acaba existindo no centro de um vórtice, que, por sua vez, não para de gerar perguntas cada vez que dele os cientistas se aproximam. Arqueólogos do Deserto do Atacama analisam o terreno seco em todas as suas camadas em busca de restos petrificados ou mumificados do passado e concluem sobre a coincidência de conviverem, lado a lado, com os astrônomos em um território fértil – em dados galácticos e terrenos – para as investigações sobre as origens. Mulheres, mães, irmãs e parentes de mortos e desaparecidos políticos da Ditadura Militar de Augusto Pinochet, no Chile, com sacolas e pequenas escavadeiras, prospectam, identificam e analisam indícios dos corpos dos seus entes no extenso território desértico do Atacama e concluem que os fragmentos achados são partes dos rostos, do fêmur, das mãos, das arcadas e dos outros membros dos seus esposos, filhos, netos e parentes assassinados. Em um documentário, que olha para o presente para, ao mesmo tempo e sobretudo, olhar para o passado, o incansável documentarista Patricio Guzman conclui que o cálcio dos corpos celestes que os cientistas observam dos seus gigantescos e sofisticados telescópios é o mesmo dos fragmentos de ossos que os familiares com suas mãos e pequenas pás colhem e desenterram dos seus mortos como arqueólogos cuja busca da verdade não cessa.

II
Se a memória é lacunar, descontinuada e, por natureza, cheia de furos e imprecisões; a reconstituição do passado e o estabelecimento de qualquer temporalidade são artifícios que os sujeitos lançam mão contra o esquecimento, o que também constitui e significa, na esteira do pensamento de Bachelard (citado pela pesquisadora Roberta Veiga em um estudo sobre o cinema de Andrea Tonacci), uma luta contra a morte. Em Nostalgia da Luz, o diretor Patricio Guzmán persevera contra a impossibilidade de estabelecer uma memória, reconstituir o passado e a temporalidade histórica. Faz, assim, um documentário onde imperam o fragmento, conjecturas e a procura incessante pela verdade, com um trabalho dominado por duas linhas de força. Se, de um lado, descortina o universo da ciência – dos astrônomos e arqueólogos – com todas as suas certezas e especulações; de outro, desvela a memória e a história dos mortos e desaparecidos políticos do Chile decorrentes da mais sanguinolenta e brutal das ditaduras militares da América Latina. Quando, em pleno Atacama, uma jovem mulher coloca na palma de uma das suas mãos fragmentos de ossos, como se estes tivessem sido triturados e espalhados pelo deserto, entra em cena um conjunto de suposições, com todas as suas lacunas, suas conjecturas e sua esperança, sobre de qual parte do corpo humano pertence cada fragmento. Esse segmento narrativo, que se completa com a tentativa de reconstituir o corpo e o modo como possivelmente o mataram – com ela descrevendo em palavras e gestos o que do corpo do seu familiar já tinha sido encontrado, é um dos mais violentos do documentário – sobretudo, vindo de um diretor que realizou A Batalha do Chile (1975-1979): partes I, II e III.

III
Parece ser na incompletude da memória, cuja fragmentação domina a impossibilidade de reconstituir os corpos e a história, que o diretor chileno Patricio Guzmán nos coloca no centro do campo de concentração, localizado no interior do Deserto do Atacama e ao lado do Parque Astronômico, onde foram encarcerados centenas de presos e ativistas políticos – seja no segmento que, a partir de um plano em movimento sobre nomes de prisioneiros escritos na parede, incompletos e apagados por rachaduras, aparentemente, propositais, um dos depoimentos tenta lembrar de cada uma das pessoas vinculadas a esses nomes, seja no segmento em que o arquiteto – preso nesse mesmo campo de concentração – tenta reconstituir a planta de cada unidade carcerária, com suas divisões, distâncias e especificidades, a partir da memória materializada em desenhos esquemáticos e precisos que impressionaram, inclusive, seus algozes quando se depararam no futuro com o alcance e acuidade das reconstituições. Do início ao fim, em Nostalgia da Luz, Patricio Guzmán, ao mesmo tempo, que investiga o universo da astronomia e da arqueologia, prospecta as dores e o bafo de enxofre do horror do período militar: a convivência e impunidade dos torturadores, a dor da ausência dos desaparecidos, a busca incessante pelos corpos e restos dos mortos, o tratamento de ex-torturados, o sequestro de crianças. No final, nesse documentário fundado no paralelismo, Guzmán nos coloca frente ao espaço desigual de quem busca a memória e a verdade sobre o desaparecimento de familiares em relação a quem procura as origens e o passado dos corpos celestes e primitivos.

IV
Com todas as estruturas e tecnologias disponíveis, como parques gigantescos com seus telescópios e cientistas de toda parte do mundo; e com os espaços e práticas museológicas para preservação arqueológica e paleontológica dos achados de outra natureza e tempo, o que dispõe os cientistas não é o mesmo que, em mãos, carregam as famílias dos desaparecidos políticos à procura dos seus mortos. Talvez a imagem mais forte de todo o documentário de Guzmán seja a das mulheres no meio do nada do Atacama, escavando e prospectando o terreno a procura de algum indício que lhes deem algum traço das pessoas que amavam. Coladas a essa imagem, impressionam o paralelismo alcançado por Nostalgia da Luz, ao colocar, lado a lado no âmbito da montagem, corpos mumificados, que vemos nas dependências de um museu, aos corpos de desaparecidos encontrados em uma vala comum descoberta no ano de 1990, que nos chegam por meio de imagens de arquivo; e, depois, da câmera de Guzmán que, no decorrer das filmagens, registrou um desses cemitérios clandestinos que foi localizado no Atacama. Corpos que, empilhados uns sobre os outros, Guzmán filmou, quando paralelizava astrônomos, arqueólogos e os sujeitos em luto sem fim. Corpos jogados em valas, com as mãos entrecruzadas, como se tivessem sido amarradas, como o corpo de um jovem destroçado e decomposto (como se fosse uma múmia das civilizações nativas destroçada pelo tempo e pela terra) que confronta nosso comodismo com a violência da frontalidade do visível exumado de uma cova coletiva.

V
Com Nostalgia da Luz, Patricio Guzmán faz um documentário que não pode ser acusado de usar a ciência como pretexto – como se forçasse paralelismos absurdos – para denunciar o Regime Ditatorial de Augusto Pinochet, que teve início com o Presidente Salvador Allende, em 1973, sendo assassinado em pleno Palácio La Moneda, que se desdobrou, ao longo de duas décadas, com seus 30 mil mortos e milhares de torturados que ainda silenciam como ouvimos de uma das vítimas que se dedica, pós-exílio na Alemanha, ao tratamento de ex-prisioneiros e torturados. Principalmente, porque, de certo modo, é a ciência que apresenta os métodos que jogam luz (e também incertezas) sobre as buscas dos desaparecidos políticos. Por outro lado, Guzmán não pode ser acusado de fracasso por não ter superado as lacunas da memória, incompletude da investigação e aparente impotência dos arqueólogos de corpos políticos desaparecidos frente ao desconhecido e desesperança. A relevância de Nostalgia da Luz ganha espaço por colocar do horror do fascismo, de regimes de força e antidemocráticos, a partir de uma espécie de constante narrativa que domina a sua filmografia. Se existe pouca ou nenhuma luz sobre o Chile do Século XIX, como se a História Oficial sempre se esquivasse de uma memória, potencialmente, acusatória, como diz um dos entrevistados sobre o que fizeram com os “remanescentes dos povos nativos”, mais uma vez, Patricio Guzmán transforma o seu filme em um telescópio de longo alcance que confronta cada vez mais um passado hediondo, cuja solução, se não pode ser a certeza, nem muito menos o esquecimento, apresenta-se como problemática que nos fazem avançar nesse processo de prospecção permanente e necessário ato de lembrar, que também é uma alternativa a natureza lacunar da memória, ao esquecimento e à morte.

NOTAS:
[1] O filme Nostalgia da Luz foi lançado no Brasil em DVD pelo Instituto Moreira Salles – IMS.
[2] O estudo da pesquisadora Roberta Veigam – cidato no texto – sobre o cinema de Andrea Tonacci, especificamente sobre o filme Já Visto Jamais Visto (2013), pode ser lido no link: <http://linguagem.unisul.br/paginas/ensino/pos/linguagem/critica-cultural/1001/100106.pdf >

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Marcos Aurélio Felipe

Comentários

1 comment

  1. Edilberto C.
    Edilberto C. 28 outubro, 2017 at 13:51

    Que texto poderoso! Penetrei as nuances do pensamento que vai lançando luzes sobre as sombras, mas luzes mortas como as das estrelas…

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