A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
7 de fevereiro de 2012 às 15:43 - 36 ComentáriosPor Leonardo Sakamoto
BLOG DO SAKAMOTO
É com esperança que recebi a notícia de que a professora Eleonora Menicucci assume como ministra-chefe da Secretaria de Políticas para as Mulheres, não apenas por conta de sua trajetória como militante política durante os anos de chumbo e como respeitada acadêmica, mas também por sua forte atuação no movimento feminista.
Ao noticiar a posição pessoal da nova ministra de “defesa do direito ao aborto”, parte da imprensa falou simplesmente em “defesa do aborto”. Bem, só quem é jornalista e esteve em um fechamento sabe o que é ter um chefe bufando no seu cangote, exigindo a página fechada, enquanto procura fazer caber uma ideia inteira em um espaço tão exíguo quanto aquele reservado ao título ou à manchete. Mas, caros colegas, temos que tomar cuidado. Defesa do direito ao aborto é diferente de defesa do aborto.
Não há defensora ou defensor do direito ao aborto que ache a interrupção da gravidez uma coisa fácil e divertida de ser feita, equiparada a ir à padaria para comprar um Chicabon. Também não seriam formadas filas quilométricas na porta do SUS feito um drive thru de fast food de pessoas que foram vítimas de camisinhas estouradas. Também não há pessoa em sã consciência que defenda o aborto como método contraceptivo. Aliás, essa ideia de jerico aparece muito mais entre as justificativas daqueles que se opõem à ampliação dos direitos reprodutivos e sexuais do que entre os que são a favor. A interrupção de uma gravidez é um ato traumático para o corpo e a cabeça da mulher, tomada após uma reflexão sobre uma gravidez indesejada ou de risco.
Defender o direito ao aborto não é defender que toda gestação deva ser interrompida (nem sei porque estou gastando pixels explicando algo que deveria ser óbvio, mas vá lá). E sim que as mulheres tenham a garantia de atendimento de qualidade e sem preconceito por parte do Estado se fizerem essa opção.
Hoje, o “direito” ao aborto depende de quanto você tem na conta bancária. Afinal de contas, mulher rica vai à clínica, paga R$ 4 mil e pronto. Mulher pobre se vale de objetos pontiagudos ou remedinhos vendidos a torto e direito sem controle e que podem levar a danos permanentes. A discussão não é quando começa a vida, sobre isso dificilmente chegaremos ao um consenso, mas as mulheres que estão morrendo nesse processo. Negar o “direito ao aborto” não vai o diminuir o número de intervenções irregulares, eles vão acontecer legal ou ilegalmente. Abortos mal feitos causam 9% das mortes de mulheres grávidas, 25% dos casos de esterilidade e são a quinta causa de internação hospitalar de mulheres, e acordo com dados da própria Secretaria de Políticas para as Mulheres.
Mas aborto é mais do que um problema de saúde pública. Negar a uma mulher o direito a realizá-lo é equivalente a dizer que ela não tem autonomia sobre seu corpo, que não é dona de si. “Ah, e o corpo do embrião/feto que está dentro dela, seu japonês endemoniado do capeta?” Na minha opinião – e na de vários outros países que reconheceram esse direito, ela tem sim prevalência a ele.
Defendo incondicionalmente o direito da mulher sobre seu corpo (e o dever do Estado de garantir esse direito). É uma vergonha ainda considerarmos que a mulher não deve ter poder de decisão sobre a sua vida, que a sua autodeterminação e seu livre-arbítrio devem passar primeiro pelo crivo do poder público e ou de iluminados guardiões dos celeiros de almas, que decidirão quais os limites dessa liberdade dentro de parâmetros. Parâmetros estipulados historicamente por…homens, veja só.
É extremamente salutar que todos os credos tenham liberdade de expressão e possam defender este ou aquele ponto de vista. Mas o Estado brasileiro, laico, não pode se basear em argumentos religiosos para tomar decisões de saúde pública ou que não garantam direitos individuais. A justificativa de que o embrião tem os mesmos direitos de uma cidadã nascida é, no mínimo, patético. Dá vontade de fazer cafuné em quem defende isso e explicar, pausadamente, que não se pode defender que minhas crenças, físicas ou metafísicas, se sobreponham à dignidade dos outros.
Nesse sentido, desejo boa sorte à Eleonora. Que ela lute o bom combate, mesmo considerando que, como ministra, terá atuação bem mais limitada do que como militante, tendo que buscar apoio no Legislativo, no Judiciário e em setores do próprio Executivo. Mas peço a ela que ignore as ladainhas partidárias (a ditadura do comportamento não é monopólio de determinado grupo político – se vocês soubessem a quantidade de homens que vomitam progressismo publicamente e são tiranos dentro de casa…) e os que criticam sem pensar. Perdoe-os, eles não sabem o que falam.







36 Comentários
Artigo equivocado… em todos os sentidos.
Argumentos fraquíssimos.
Uma vergonha estar online.
Ah, e o mais interessante é o autoritarismo do autor, que finge ser um amor de pessoa, um humanista!, tão preocupado com as mulheres, pobrezinhas… Mas que controla a exposição das opiniões dos outros em seu blog. Moderação de comentários… de que terá medo esse humanista? Decerto de que lhe revelem ou de que conheça sua verdadeira “humanidade”.
Todo direito às mulheres de decidirem sobre seus corpos.
É, Alex de Souza… “seus corpos” – abort67.com.uk
Nossa, nunca li um artigo tão fraco como esse, nunca vi tantas falácias coligidas em um artigo de um abortista (não nos parece um jornalista, já que demonstra nada ter lido efetivamente sobre o aborto). Vejamo-las:
1) Aborto não é questão de controle populacional: mentira. Basta ver a origem da defesa do aborto nos EUA e basta ver quem financia o aborto ainda hoje. Para quem nada sabe do assunto, estudar a história das fundações Rockefeller, MacArthur e Ford pode ajudar.
2) Aborto é “direito reprodutivo”. Direito??? Que absurdo! Além do absurdo, o termo maldosamente forjado para induzir a erro é incoerente: como pode um “direito reprodutivo” tirar uma vida? Ah, tem dúvida se é vida humana? Por favor, dá uma olhadinha aqui: abort67.com.uk
3) Ó loucura… “atendimento de qualidade” e “sem preconceito” do Estado para ajudar uma mulher a matar o próprio filho. Quanto amor, quanta bondade! Quer saber? Chega de ironia, falemos a verdade: que nojo, quanta hipocrisia! Por que não propor educação sexual para valorização da mulher, do corpo, do próprio sexo, ao invés de louvar o sexo irresponsável que gera vida e que deve terminar em assassinato “de qualidade” e “sem preconceito”? Repito, gritando: QUANTA HIPOCRISIA, QUANTA HIPOCRISIA ASSASSINA MENTIROSA travestida de luz. Típico de quem quer fazer o mal.
4) Ah, o velho conceito da luta de classes para transformar o assassinato de bebês em “questão de saúde pública”: mulher rica aborta com segurança, mulher pobre aborta e morre. MENTIRA HORROROSA!! Uma simples consulta ao SUS desmistifica essa mentira. O aborto como causa de morte de mulheres está LONGE, MUITO LOOOOOOOOOOONGE de ser questão de saúde pública. Mas é claro que este abortista (jornalista? Não… já não resta dúvida) está mal informado, lendo pesquisas financiadas pelas ONGs abortistas que sabidamente MENTEM para jornalistas divulgando números falsos que eles irresponsavelmente repassam para pressionar a opinião pública. Deem uma olhadinha aqui (é só uma das evidências…): http://boletimfedf.blogspot.com/2011/03/os-controversos-numeros-do-aborto-e.html
5) Como é fácil ter opinião diferente sobre o feto quando você não foi abortado, né japonesinho? Que lindo que soa aos ouvidos menos instruídos “direito sobre o próprio corpo”. Que sorte a sua que sua mamãe (e seu papai, coitado! Não o reduza a nada! Ele também quis que você viesse ao mundo… Como você pode tirar dele o direito de amar você?) – que sorte que ela não pensou como você!! Afinal, seu corpinho não era nada, não é? Era uma unha encravada da mamãe, não é? Se você tem dúvida sobre “que corpo” é mutilado, se o da mamãe ou o do bebê, recomendo novamente este videozinho instrutivo: abort67.com.uk
6) Ave, e o que dizer da tese – histérica – de que “religiosos estão se intrometendo na questão!!! O Estado é laico!!” Será que não existe um ateuzinho que não concorde com a matança de bebês? Acho que existem sim. Muitos. Mas é mais fácil ser ignorante (ou maldoso) e criar uma guerra religiosa. Abjeta, como aliás têm sido todos os supostos “argumentos” até aqui para defender a matança de bebês gerados irresponsavelmente.
7) E o autor – que por sinal demonstra ter um elevadíssimo autoconceito, um amor-próprio no mínimo… doentio, para usar um eufemismo – ainda tem o fingimento de se apresentar aos leitores como alguém que está preocupado com a dignidade alheia, quando se acha no direito de decidir quais dos mais novos membros da espécie humana devem ou não viver. Como é triste a cegueira humana! É surpreendente até que ponto alguém ensimesmado consegue perder a noção da realidade!
pessoal, eu sou tão contra o aborto que nunca engravidei
O tema do aborto é importante, deve ser debatido com serenidade – meta difícil, todavia. Lembro de um diálogo muito bom que circulou neste SP em janeiro de 2010 sobre o assunto. Na época, mencionei os três corpos em cena: feto, mãe e pai. É bom que esse texto esteja suscitando nova discussão. O problema continua a existir.
Tô contigo, Alex.
Pelo visto dá para ver que o assunto é polêmico, cultural, um tabu histórico, e abordado com o lado emocional da racionalidade. Deixemos a cristandade de lado para um debate amadurecido.
Marcos silva, discordo. O tema do aborto é tão absurdo que nem sequer deve ser debatido. Você não percebe que isso é exatamente o que os abortistas desejam? Eles desejam pôr em discussão um assunto que até então é evidente: a vida humana ganhou um valor intrínseco com o Cristianismo (todos são filhos de Deus, todos são irmãos), mas agora os que querem erradicar Cristo da sociedade estão querendo justamente questionar esse valor, “discuti-lo”.
Seria o mesmo que você propor que o tema da pedofilia é muito sério e precisa ser debatido, ou então que como alguns seres humanos têm tendência homicida, deveríamos debater o homicídio.
A discussão em si já questiona o valor, e eu te asseguro que as pessoas que propõem isso sabem o que estão fazendo, porque eu estudei com essa gente que quer manipular a linguagem para mudar a sociedade. Elas nunca vão apresentar suas reais intenções, porque tais intenções não atrairiam ninguém, causariam repugnância.
A propósito, desculpem-me: nos comentários anteriores errei o endereço. Querem ver se o aborto é algo a ser discutido? Assistam a esse vídeo:
abort67.co.uk
Abs
No diálogo de 2010 sobre esse tema aqui, SP, considerei o direito do feto como especialmente frágil, uma vez que é uma vida ainda sem voz.
Prefiro que haja debate sobre esse e outros temas. Não procuro convencer ninguém. Apenas considero fundamental ocupar o espaço público com argumentos em confronto, evitar a política de cada macaco em seu galho.
Sou homem, não engravido. Mas posso engravidar uma mulher. Para evitar isso, tomo as providências necessárias (camisinha, em especial). Se engravidasse alguém, defenderia o feto, sim – parte de mim, parte do direito ao meu corpo.
Melhor conversar.
E quem disse que os valores cristãos é que devem predominar? Foi Cristo ou os cristãos?
Yuno, seu comentário rebaixando o cristianismo revela um preconceito fortíssimo. Nestes termos, é impossível realizar um
‘debate amadurecido” que você diz querer.
penso que quem acha que os valores em relação à vida introduzidos pelo cristianismo na civilização ocidental são só uma questão de crença pessoal, ou ignora brutalmente a história, ou, o que é pior, se auto-ignora enquanto fruto dessa civilização.
sugiro um passeio imaginário ao coliseu romano num dia de espetáculo pagão. (em joguinho cyber ou seriado de tv não vale).
claro que a sociedade ocidental moderna já abriu espaço para tornar o aborto uma questão de “foro íntimo das mulheres” (a mesma sociedade que vai em marcha batida pra nos transformar em mero ‘produto’, aliás).
apois, apesar de toda essa mudernage, desconfio que entre nós filhos do cristianismo, pelo menos por mais um milênio, matar um feto (não venham com eufemismos que é disso que se trata) ainda será sentido e vivido como uma mancha moral (o que é o ‘pecado’, afinal?). mesmo que ele venha a ser descriminalizado.
Cristo também nunca engravidou. Nem Maria Madalena (que eu saiba).
Alex:
Faltou acrescentar que Maria engravidou sem contato sexual com José por vontade de Deus, não é? Dessacralização do coito, embora Deus deva ter pênis e bolsa escrotal pois Adão foi feito a sua imagem e semelhança, e Eva tenha recebido vagina por obra e graça de Quem a fez.
Jesus não engravidou porque não quis. Nem precisaria ser inseminado por outro homem, Ele poderia inseminar-Se, se o quisesse, ou Deus poderia usar o mesmo procedimento ocorrido em relação a Maria. Nada disso se deu, pelo que se sabe e que vc, gentilmente, nos trouxe à lembrança.
Quanto a Maria Madalena, nada sei. O conhecimento histórico sobre o tempo dela e de Jesus é muito limitado (alguma coisa a partir de Arqueologia), os Evangelhos são escritos de devoção, não propriamente fontes literais de informação (ou são informação sobre eles mesmos).
De qualquer maneira, muito obrigado pelas preciosas informações.
Aproveito para lembrar que uma coisa é o Cristianismo ideal (todos filhos de Deus etc.). Outra coisa é o Cristianismo histórico, como Cruzadas e Inquisição bem o demonstraram: ou os hereges não eram filhos de Deus (quer dizer: nem todos o são) ou, se o fossem, mereciam morrer por desagradarem aos representantes do Pai. Até Leonardo Boff, há poucos anos, foi punido pelo órgão que ocupou as funções da Inquisição na Igreja Católica, submetido a “Silêncio obsequioso”, não é? E durante o Nazismo, o Vaticano manteve um silêncio nada obsequioso diante do Holocausto… Mas diga-se a favor de alguns membros da Igreja Católica (não do Papado) que muitos deles apoiaram os perseguidos pelo Nazismo e até morreram em campos de concentração, como Claudio Galvão estudou, a partir de um caso específico, no livro “Campo da esperança” (EDUSC).
Mas Nietzsche já ensinou: a Morte de Deus não é papo para beira de piscina, é um acontecimento mais que gigantesco.
O inquisidor
Um dia ele organizou um livro e não selecionou
Outro dia ele foi o júri de concurso de poesia e não entrei nem na menção honrosa.
Outro dia eu quis abortar e ele disse não pode
mas foi taõ bom!.
Não pode!
Depois disse que e eu não sou
Outra vez disse conheço a lei
Sou procurador.
Como juiz ele errou
Como cristo acho que não voga
domingo é dia de fazer niente
nem tente!
eu faço do meu corpo o que quero foi conquista
a greve do ventres vem desde os gregos
quem possui o direito sobre o corpo feminino?
voce, o estado, o papa, Deus”!
todos falharam como inquisidores.
Vários senhores debatendo sobre o que deve se passar DENTRO do corpo de uma mulher. Todo esse debate acalorado de senhores encobre o único interesse que o véu dos argumentos expostos encobre: o desejo do homem de deter o direito de poder sobre o corpo feminino. Controlar uma mulher é controlar o seu corpo. Caros senhores, que vergonha, dizer que o sêmen que vocês despejam no vaso sanitário quando dentro do corpo de uma mulher é de vocês! Ora, façam-me o favor. Qualquer raciocínio menos simplista observa que não é sobre o sêmen ou sobre o feto que vocês querem com tanto ardor legislar. Quem dera a questão de menores abandonados, pensão alimentícia, violência, morte e estupro de menores fosse defendida com tamanho humanismo, cristianismo, e seja lá o ismo que seja apregoado como argumento de autoridade dos vossos discursos. O buraco é bem mais embaixo, não é, caros senhores?
Karen, sêmen no vaso sanitário?
Vamos manter o nível!
Karen, você está vendo o aborto só com o olhar do feminismo radical, aquele que considera TUDO como “disputa de poder”, como “guerra entre homem e mulher”.
Olha, isso não é verdade, essa visão é muito limitada, a vida é mais que isso. É um exagero dizer que as pessoas só querem “poder e controle” o tempo todo como te fizeram crer. Ainda que raras hoje em dia, existem sim pessoas que fazem atos desinteressados, atos de amor, sem esperar nada em troca (ao menos neste mundo!) mas eu sei que a você é quase impossível acreditar nisso porque o feminismo radical (a lente que te faz ver o mundo) é marxista, vê o mundo exclusivamente como LUTA DE CLASSES, e essa visão horrorosa de mundo está vigente, transformando as pessoas exatamente no que ela diz combater.
Veja só que incoerência: você diz que homens querem dominar mulheres, mas você está querendo dominar um bebê gerado LIVREMENTE em seu ventre a ponto de matá-lo sem sentir nenhum remorso.
Só para deixar claro alguns pontos importantes: (1) a mulher não é “dona” de seu corpo, porque o corpo não é mercadoria; o corpo É a própria mulher. (2) O corpo do bebê NÃO É o corpo da mulher. Se tem dúvida disso, assista a esse vídeo (horroroso) de um aborto real – abort67.co.uk (3) Ninguém é contra a mulher decidir se quer ou não ter filho; ela e o homem que participa disso são plenamente livres para isso. O ponto é que uma vez que AMBOS decidiram ter um filho, essa decisão (a) não é só dela, é de ambos; (b) envolve responsabilidade, envolve a geração de uma vida humana, e (c) deve ser muito bem pensada porque uma vez tomada não lhe dá direito de “arrepender-se” porque matar o bebê com ou sem a ajuda do Estado não é algo moralmente aceitável para quem valorize a vida humana (seja religioso, agnóstico ou ateu).
Agora, como disse o Marcos, por favor, elevemos o nível do debate.
PS.: olha só como agora fui eu quem caiu que nem patinho! Minhas palavras: “como disse o Marcos, elevemos o nível do debate” QUE NEM SEQUER DEVERIA SER DEBATIDO!, como argumentei antes.
E além disso, o próprio Sr. Marcos andou rebaixando o nível do debate, primeiro desviando-o do foco: de aborto, passou a desfiar velhos chavões contra a Igreja e a religião; e segundo, fazendo isso sem jamais considerar o que a própria Igreja diz dos fatos que ele mencionou. Ou seja, sua visão foi parcial, provavelmente advinda de livros de história escritos por iluministas / marxistas. (Saberá ele disso? É quase certo que não. Mas não vou contestá-lo aqui. Não é o lugar apropriado para a discussão).
“é o fundo do poço, é o fim do caminho” (Tom Jobim, “Águas de março” – antecipadas em um mês).
Também publiquei um post aqui há dois dias sobre o tema. Assunto delicado e difícil este. Mais fácil seria arvorar-me de minha condição cristã e sequer questionar a possibilidade do aborto, mas não consigo. Concordo plenamente com o Jairo Lima e o Chico Guedes quando falam que o aborto sempre implicará numa mancha moral e algo séria e eticamente questionável, mas continuar do jeito que está, repito, não dá (assim sequer o tema deve ser aventado, mesmo entendendo urgência, como opiniou Marcos Silva). As políticas públicas em saúde reprodutiva e educação sexual não trariam ao Brasil um cenário livre das práticas de aborto, contudo uma maior consciência educacional e humanista traria a todas nós (inclusive as “abortistas?”, “feministas?”) as condições para nunca necessitarmos abortar, visto os inúmeros métodos contraceptivos seguros existentes. Talvez por ser mulher não acredito em gravidez por acidente, mas por descuido. O mesmo raciocínio responsabilista estende-se para o aborto.
Senhores, não me intimidam com sua moderação. Não desejo elevar o nível do debate, pois ele é vil. Sou mãe, esclarecida, casada, teria mais filhos de pudesse e jamais faria um aborto pois tenho condições emocionais para receber qualquer vida humana. Desconheço movimentos feministas e não professo minha fé em ismos, apenas defendo o direito de uma jovem mulher que por descuido (a falta de educação para o controle reprodutivo é um fato e um problema do qual o Estado e a sociedade não pode se esquivar) ou acidente (sim, senhores, métodos contraceptivos falham!) engravida não morrer em abatedouros, pois foi o que presenciei inúmeras vezes em comunidades carentes. E, pasmem, fazendo trabalho social através da Igreja Católica… Não elevo o nível, pois o debate é vil, na medida em que IGNORA este problema absurdamente real e de saúde pública, deixando pessoas humanas morrerem em nome de embriões ou pequenos fetos (não estamos falando de bebês, correto! afinal, ninguém está pensando na descriminalização do aborto avançado). Convenhamos senhores, ninguém defende o aborto, mas sim o direito à vida dessas milhares de mulheres que enfrentam a clandestinidade porque a sociedade e os senhores com atitudes desinteressadas e elevadas decidiram fechar os olhos para o drama delas. Senhores, sejamos mais interessados!
“Acostuma-te à lama que te espera” (Augusto dos Anjos, Versos íntimos)
Ainda bem que Denise, também mulher, manifestou-se. Pronto, sinto-me contemplada, e olha que não nego a luta de classes! e poderia continuar um discurso interminável…
Aí virão uma ‘ruma’ de argumentos que eu poderia contra-argumentar, mas olha, sem paciência. Os ativistas sempre serão apaixonados românticos capazes de mentir e fraudar dados para nos convencerem. Mas eu já me convenci ao contrário.
Ah! e não tenho nenhuma crença!
Karen, concordo: o debate é vil, porque vilipendia uma vida humana; mas você não está correta num ponto importante: um feto é um humano sim. Você já foi um feto, e você se transformar no que é hoje foi apenas questão de tempo. Perdoe-me, mas quem está enganada (e muito!) é você, quando diz que aborto é questão de saúde pública porque aborto realmente NÃO É questão de saúde pública! (embora promotores do aborto desejem que creiamos que é e desejem que repitamos isso à exaustão, e embora eles pulem de alegria ao ouvirem pessoas repetindo esse falso chavão). Os “milhares” de mulheres que morrem a que você se refere são fruto de propaganda de feministas radicais que MENTEM sobre a “‘necessidade” de fazer “abortos seguros”. Olha, isso simplesmente NÃO É VERDADE!!! Consulte o DATASUS. Aborto é de longe uma causa mínima de morte de mulheres no Brasil. Eu repito e insisto: consulte o DataSUS!!! Mesmo mulheres pobres que SUPOSTAMENTE tentam abortos em casa, ao se ferirem, correm para a rede pública para obter assistência, e o número de mortes por aborto clandestino será de que ordem? 1 milhão? 3 milhões ou 5 milhões, como disse Dilma na última campanha presidencial? (Dilma disse esses 2 números em 2 momentos diferentes, só para você ter uma ideia da manipulação…) Bem, surpreenda-se: o número de mortes consistentemente medido há 14 anos é de cerca de 150 mortes por ano. Veja só como foram eficientes os propagandistas e advogados da morte de humanos para enganar as pessoas. Leia sobre essa manipulação estatística aqui: http://boletimfedf.blogspot.com/2011/03/os-controversos-numeros-do-aborto-e.html
Mas mais importante do que discutir isso, seria discutir o seguinte: o que fazer para valorizar mais as mulheres, tão desvalorizadas nessa sociedade materialista e hedonista em que vivemos? O que fazer para elas (e também os homens) não se verem como “corpos” que só servem para se obter prazer? Se essas perguntas fossem resolvidas, não precisaríamos discutir aborto…
Caro Sakamoto, aguardo seus comentários. Você é professor universitário da PUC-SP. Como um intelectual dessa instituição, ocupa um importantíssimo posto de formação de opinião de pessoas de nível superior que muito influenciarão na sociedade. Suponho que seja muito bem informado, bem mais do que eu. Será que ignorava tudo o que lhe ofereci para tentar mostrar que o aborto não é questão de saúde pública? Gostaria de ouvi-lo sobre as refutações de seu artigo que fiz.
Fernando:
Para garantir que sua mensagem seja lida pelo destinatário, sugiro dirigir-se diretamente a blogdosakamoto.uol.com.br
Valorizar mais as mulheres? Um bom passo inicial seria não desprezar suas vivências, desmentindo-as com torpor quando relatam uma experiência particularmente presenciada ou partilhada. Agora de fato só resta o silenciamento e a impaciência, como postou Nina. O infortúnio maior disto é que abortos continuarão existindo sempre, legalizados ou não. Ah, e só uma dica muito principiante: nunca acreditem em dados ofíciais ( foi o “velho conceito da luta de classes” que ensinou-me isto).
Risos… Denise… Como diria o FHC, “assim não dá!, assim não dá!” Nesses 16 anos de dados, em pelo menos 9 os dados foram gerados pelo PT!!!!!!, caramba… Logo os mais interessados em legalizar o aborto publicaram esses dados, e agora você vem me sugerir que estão mentindo??
Concordo com você noutro ponto: infelizmente, não importa se as mulheres forem valorizadas ou não, o aborto vai continuar existindo, assim como o assassinato, o roubo, a mentira, a prostituição, o alcoolismo, etc. etc. Mas aí já passaríamos a um outro nível de debate, filosófico, sobre a condição humana na Terra, a origem do mal, etc., o que não é o tópico. A pernidade do aborto e desses outros males não são motivo para não tentar fazer de tudo para que essas coisas não ocorram.
Marcos, obrigado pela dica.
don’t feed the troll.
Bem asseverou Fernando: “Como é triste a cegueira humana!”.
Salmos – 139.13-16
Pois tu formaste o meu interior, tu me teceste no seio da minha mãe. Graças te dou, visto que por modo assombrosamente maravilhoso me formaste; [...] os meus ossos não te foram encobertos, quando no oculto fui formado e entretecido como nas profundezas da terra. Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda.