Audiovisual

A 13ª Emenda

marcos1

“Eu tenho um sonho”
(Martin Luther King)

“Eu poderia ter sido Trayvon Martin”
(Barack Obama)

“Esse é um país livre”
(Senso comum)

Em uma das sequências localizada no final do documentário “A 13ª Emenda” (2016), de Ava DuVernay, uma imagem de arquivo entra em campo como dado central da tese que se desenvolve aos nossos olhos. Um negro esquálido, bem vestido e tentando colocar o chapéu que cai com o desequilíbrio do seu corpo sendo empurrado, chutado e vilipendiado por uma massa ignóbil e fascista de homens brancos. Provavelmente, essa cena se passa em alguma cidade do Sul dos Estados Unidos da América por volta dos anos 50-60. A cena é forte! A situação a qual vemos imerso aquele homem negro não passa incólume à visão, tamanha a degradação e subjugação, rejeição e expurgo social que seu corpo, mente e memória enfrentam. A sequência dura o suficiente para testemunharmos a resistência e altivez moral e a dignidade daquele homem, pacificamente à enfrentar um bando que o esmurra, chuta e empurra rua adentro pelas calçadas. É uma imagem, ao mesmo tempo, de resistência pacífica e de solidão sem fim. Imagem símbolo de um período em que, na América, os afro-americanos não podiam entrar em toda e qualquer escola, bar, praia e em outros estabelecimentos que só deveriam ser frequentados por brancos. Mesmo ao lado de outras imagens que registram a subjugação e resistência dos negros americanos, em um momento em que a segregação era combatida pelos movimentos pelos direitos civis, essa sequência se sobressai.

“Basta olhar!”

Como brasileiros, resultantes de um processo de miscigenação, sempre é muito forte e concreta a sensação de alteridade fora do país quando temos a oportunidade de viajarmos. Todas as vezes que o racismo entra em debate, lembro de imediato de dois eventos que são sempre presentes e marcantes na minha memória. Um deles ocorreu em Paris, quando por lá passamos o inverno de 2012. Estávamos na linha 1 do metrô e, do vagão da frente, uma voz de um homem aos berros eclodiu com a força de sua ancestralidade, dos seus medos, da desigualdade que o diferenciava. Ele gritava que “não era africano”, mas “francês”! Ele – pelo tom da voz – estava descontrolado talvez atrás da sua verdade (ou de uma verdade que imaginava haver). Dava para sentir a sensação de alguém querendo reconhecimento: se certamente tinha a nacionalidade política, a busca era por cidadania mais completa e, quem sabe, por uma aproximação – pelo menos – cultural com aqueles que, predominantemente, de pigmentação bem mais clara, deviam se sentir distantes daquele francês de cor escura, africano de raiz e, portanto, distante do seu mundo, mesmo que tivesse nascido no mesmo país de formato hexagonal. À nossa frente, aos cochichos, duas mulheres negras rebatiam: “Não tem jeito! É africano! Mesmo que não queira, é africano! Basta olhar”. Olhamo-nos e, ao mesmo tempo, comentamos quando fomos a Salvador, Bahia, em 2007. Em todos os lugares que estivemos, numa cidade cuja população negra chega a percentuais muito altos, sempre percebíamos que os cargos e funções subalternas eram sempre – visivelmente – ocupados por negros, quando as funções e cargos de gerencia tinham à frente sempre pessoas de cor mais clara.

Terra da Liberdade

O documentário A 13ª Emenda, de Ava DuVernay, uma produção especial do Netflix que, ultimamente, vem produzindo séries e filmes muito interessantes, não apenas trata de racismo nos Estados Unidos da América – a Terra da Liberdade, o lugar onde nasceu e governou Abraham Lincoln e que elegeu Barack Obama como demonstração de que entre suas fronteiras todas as portas estão abertas. Sob as lentes de Duvernay, temos um racismo programado e legislado – institucionalmente, aceito ao longo das décadas, mesmo depois que, em 1865, os afro-americanos foram libertados do julgo branco, viram-se livres do trabalho degradante e desumano que os reduzia a quase nada. Se anterior à abolição da escravatura na América o regime da escravidão era tratado como resultante de um processo histórico quase natural, com o término da Guerra Civil, que impulsionou a liberdade dos negros americanos, foi necessário aperfeiçoar novas formas de subjugá-los mesmo que, aparentemente, mantivessem a liberdade como fachada sem que isso impedisse o trabalho compulsório em fábricas e fazendas do Sul dos Estados Unidos…. como mão-de-obra de aluguel. Dessa forma, a exploração do povos afro-americanos foi sendo lapidada à perfeição no decorrer do Século XX, com o encarceramento em massa de milhares de negros que, hoje, compreendem 40% da população carcerária mesmo que só cheguem a 6% dos habitantes da América.

Da Lei Jim Crow, que deu o tom do segregacionismo na primeira metade do século passado, à ALEC (American Legislative Exchange Council), cuja lógica é produzir leis que favoreçam as corporações, somos colocados diante de políticas com a mesma finalidade, ainda que com tonalidades diferentes.

O que explica a população carcerária americana corresponder a 25% da população carcerária do mundo, mesmo que os Estados Unidos da América só tenha 5% dos habitantes da Terra, como ouvimos de um discurso de Barack Obama logo na abertura do documentário? Nessa direção, em A 13ª Emenda, Ava DuVernay responde a questão com um documentário de tese … e dos mais contundentes que vi nos últimos tempos. É forte a imagem de um dos especialistas em depoimento à câmera, com os punhos como se estivessem segurando uma grade invisível, lembrar que esse percentual significa que, a cada quatro presidiários no mundo, um está em solo americano. Ainda mais forte porque é o depoimento de um afro-americano potencializado, sobretudo, como nos informa o próprio documentário, pelo enorme percentual de negros por trás das grades. O que temos, portanto, como linha narrativa? Um conjunto de análises de acadêmicos, jornalistas, políticos, ex-presidiários, ativistas e militantes que, sob o formato tradicional de documentário de entrevista sem a pergunta audível na banda sonora, vai costurando no tempo a subjugação do povo negro americano. Principalmente ao analisar a criminalização programada – muitas vezes apenas por vagabundagem, pasmem – que provocou o encarceramento em massa para gerar mão-de-obra e dar conta do vácuo que, no Sul dos EUA, ficou a produção econômica com a abolição da escravatura.

Ao longo de cem minutos de filme, ouvimos estupefatos figuras como Angela Davis, Cory Booker, Henry Louis Gates Jr., Michelle Alexander e Van Jones que viveram e pensaram a problemática em questão.

Nesse documentário, que não é condescendente nem mesmo com os democratas, Ava DuVernay persegue à risca o postulado – mas sobretudo a brecha – da 13ª Emenda à Constituição Americana aprovada em 6 de dezembro de 1865: “Não haverá, nos Estados Unidos ou em qualquer lugar sujeito à sua jurisdição, nem escravidão, nem trabalhos forçados, salvo como punição por um crime pelo qual o réu tenha sido devidamente condenado”. Com dados históricos do censo carcerário dos EUA, sobretudo de 1970 à 2016; com imagens de arquivo e fotografias, que registram a opressão e resistência dos negros e dos movimentos que os apoiavam na luta pelos direitos civis; com depoimentos de especialistas sobre as politicas e legislação americana referente a criminalização e sistema carcerário; e com análises de filmes clássicos, especialmente d’O Nascimento de uma Nação (1915, David W. Griffith); o documentário prova que, ao se tornar inaplicável por uma questão moral ou pela força da lei, o uso compulsório do trabalho dos negros foi, diretamente, vinculada à uma política de encarceramento em massa nos governos de Richard Nixon e, principalmente, Ronald Reagan nas décadas de 70 e 80, respectivamente. Nesse ponto, o aumento nos índices de encarceramento resulta de uma política de criminalização de práticas sociais – desde a detenção de usuários de drogas aos participantes de movimentos que para além de palavras de ordem foram para o enfrentamento direto com o Estado. (Qualquer semelhança com outro país das américas não é mera coincidência).

marcos2

Nesse processo histórico, abordado pelo documentário A 13ª Emenda, em grande escala vemos um gráfico partir, em 1970, de 357.292 presidiários para 513.900, em 1980; e chegar a 1.179.200, em 1990, até alcançar, em 2010, a marca de 2,3 milhões de americanos por trás das grades nas casas de detenção nos Estados Unidos da América. Estruturado de forma capitular, sequência à sequência, uma cartela nos apresenta qual a população carcerária da década anterior e qual a população carcerária da década seguinte a entrar em campo. Ao partir do clássico O Nascimento de uma Nação, onde apresenta como David W. Griffith tratou a imagem dos afro-americanos – como criminosos e bestiais -, a diretora Ava DuVernay já pontua o poder da imagem na construção de uma pedagogia política e segregacionista. Enaltecendo a Ku Klux Klan, como marco civilizatório, como lembram os depoimentos, esse filme precisa ser visto muito mais como um propulsor de políticas e comportamentos de uma população na subjugação de outra, do que simplesmente apenas como um marco da História do Cinema. É poderosa a imagem da cruz sendo queimada, tomada como elemento de cenana por um filme que inaugura em termos imagéticos uma simbologia e que passa a ser seguida e adotada como prática social pela KKK. Essa convergência do mundo das imagens com o mundo da História, em A 13ª Emenda, aparece de forma comparativa no final do documentário, quando em um evento de Donald Trump vemos afro-americanos ali presentes sendo chutados, empurrados e retirados dos locais mesmo que estejamos diante de um filme com o universo temático de um país comumente associado à terra da liberdade em uma narrativa cíclica cuja problemática racial parece não ter fim.

Share:
Marcos Aurélio Felipe

Comentários

Leave a reply