A Acrópole ameaçada
19 de janeiro de 2010 às 18:24 - Comentar
No verão grego do ano passado, o termômetro marcava quase quarenta graus à sombra (bem pouca, aliás), no caminho que sobe, tortuosamente, do bairro da Plaka para o cimo do conjunto portentoso da Acrópole.
Estava apenas no meio da manhã de 17 de junho último, e, por puro acaso, eu subia para rever uma das obras arquitetônicas mais impressionantes do mundo antigo, ao lado de um velho americano debaixo de uma sombrinha de papel lilás sobre a calva cabeça.
Eu também havia comprado uma, na mesma hora, dos jovens coreanos que oferecem o objeto frágil, em variadas cores – e, com a minha sombrinha amarela (vale qualquer coisa debaixo do sol grego de junho), passei a prestar atenção na conversa que ele iniciou, depois de perguntar se eu falava inglês. O velho disse que visitara aquelas grandiosas ruínas do século Quinto (o de Péricles), em 1949:
– Isso aqui era completamente diferente, em 1949. Eu tinha dezenove anos, e quase não havia ninguém subindo por este acesso que só tem a novidade do calçamento. No mais, continua tão escarpado como sempre…
Fiz as contas, e vi que estava avançando mais uma vez em demanda das gloriosas ruínas de mármore, na companhia de um oitentão ainda vigoroso o bastante para suportar o caminho íngreme e o calor. Continuou:
– Quando cheguei lá em cima, faz quase 60 anos, eu não creio que houvessem mais de 100 pessoas.
– Só?
– E parecia ter menos. Como a Acrópole abrange 4,5 hectares, me deu a impressão de que eu tinha essa glória toda somente para mim, com Atenas estendendo-se a meus pés, lá embaixo. Você respirava ar puro, a atmosfera ática bem clara, tonificante para a gente…
Bem, o velho – do Iowa, arquiteto aposentado há anos – e eu subíamos acompanhados, naquele momento, por uma pequena multidão, sem exagero, saída de ônibus e mais ônibus de turismo ou levados para o monte (que parece um grande navio de pedra esculpido contra o céu) por outros meios. Ou seja: gente, muita gente. E mais gente – muito mais – lá em cima, subindo em fila pelas escadarias do Propileus, uma espécie de pórtico para a grandeza inacreditável do conjunto de construções sagradas (para os gregos antigos), ainda hoje espetaculares na sua beleza arquitetural.
Lá em cima, vi que o americano estava bem mais cansado do que eu. E deixei-o com as lembranças da sua juventude, embora cercado daquele burburinho turístico de 2008.
Ali no platô, também, encontrei o Parthenon agora todo amparado, internamente, por altíssimos andaimes de ferro que fiquei sem saber desde quando estavam lá (em 1994, a estrutura do templo estava livre de tais “muletas”). E não há só o templo principal com sinais de socorro técnico: há mais dois templos menores, também construídos há 25 séculos, naquele momento especial – o século Quinto, chamado “de Péricles” – em que o gênio grego encontrou as linhas de uma beleza ainda não igualada. Fizeram mais: adornaram esses templos com frisos que restaram – em Londres, na maior parte – como tesouros da escultura ornamental. Ainda no lugar original, resta pouca coisa dos elaborados adornos artísticos: o que já foi um impetuoso cavaleiro de mármore pentélico, um cavalo finamente esculpido (parecendo relinchar como um animal de Guernica em formas clássicas) etc.
Mas, há tanta gente lá em cima, que nada, hoje, pode ser visto na paz desfrutada pelo velho americano, em 1949 (olhei à volta: não consegui descobrir os ombros encurvados debaixo da sombrinha arroxeada). Naquele ano – e até meados da década de 80 – ainda se podia entrar nos templos. Atualmente, claro que é proibido, e só podem ser admirados do exterior. O resto de friso que eu ainda pudera contemplar, há quatorze anos, hoje está bem mais disforme, como se uma lepra tivesse avançado, cruelmente, sobre a pedra mármore.
E foi isso mesmo o que aconteceu, não só nas “sobras” dos frisos saqueados por Lord Elgin. A Acrópole inteira está doente, na verdade. As construções antigamente magníficas, os portais propiciatórios, as Cariátides delicadas, tudo que ainda resta no monte mais orgulhoso da Grécia, está, talvez, com os dias contados – se o mundo não se mexer, muito rapidamente, para livrá-lo do mal que criamos para nós e para o resto: a poluição devastadora.
“S.O.S” AKROPOLIS
Chefe carismático de um mundo então ordenado entre o céu, os deuses e a terra, foi Péricles quem convenceu os atenienses a gastarem uma enorme soma na construção de novos templos, lá no alto, em substituição daqueles mais antigos, incendiados pelos persas.
Não há motivos para descrer disso que ainda hoje se conta na Grécia: a certa altura, os atenienses antigos se arrependeram da gastança que haviam autorizado, naquela primeira democracia do mundo, e quiseram retirar a permissão dada ao chefe. Péricles, então, teria respondido, altaneiro como o futuro santuário da deusa Athena: “Está bem, eu não vou continuar a gastar o vosso dinheiro, mas passarei a pagar eu próprio todas as despesas. Entretanto, uma inscrição dirá que estas maravilhas foram construídas não pelos atenienses, mas por Péricles”…
Os cidadãos se entreolharam – e retiraram as suas queixas, deixando Péricles continuar a gastar o dinheiro da cidade, sem limitações grosseiras.
Valeu a pena. O Parthenon repousa sobre uma base retangular do melhor mármore, com três degraus de 69,54m de comprimento por 130,89m de largura. Tinha 46 fortes colunas exteriores, com 10,5 de altura e 1,9 de diâmetro. E deve ser, provavelmente, o maior exemplo de ilusão ótica do mundo. Isso porque, apesar de todas as suas linhas parecerem retas, o templo é, na verdade, um conjunto de curvas muito ligeiras – um truque do construtor para resolver o seguinte problema: como uma coluna reta, de cerca de 10,5 de altura, pareceria delgada no meio, o arquiteto da Acrópole (a quem o velho arquiteto de Iowa talvez estivesse prestando a sua última homenagem) fez com que as engrossassem em 35mm, ou seja, o suficiente para fazer com que pareçam direitas – artifício que, em arquitetura, passou a se chamar êntase. Mais: embora os (milhares) de distraídos turistas não o notem, todas as colunas são ligeiramente inclinadas para dentro (pura matemática: se continuassem subindo, iriam se encontrar a mais ou menos 2,5km acima do templo).
Houve um dia terrível para toda essa perfeição envolta em beleza saída das mãos do escultor Fídias: o meio da manhã de 26 de setembro de 1687. Naquela época, uma guarnição turca usava o Parthenon como paiol de pólvora (literalmente)! Num ataque de tropas venezianas, o explosivo foi atingido pelos tiros inimigos, e o desastre – inevitável – fez ruir 14 das 46 grandes colunas já mencionadas. Milhares de estilhaços se dispersaram sob a base do monte e ainda hoje continua o trabalho de dispô-los em filas ordenadas por partes etc.
Houve outro desastre: a chegada de Thomas Bruce a Constantinopla, em 1802, com sua paixão predatória pela antiguidade helênica. Nomeado embaixador britânico junto ao Império Otomano, o escocês Bruce, sétimo conde de Elgin, convenceu o sultão turco (então, senhor de toda a Grécia) a lhe conceder permissão para retirar “alguns pedaços de pedra com velhas inscrições pagãs e figuras gravadas”. Resultado: o sujeito depenou as melhores partes do friso exterior, levando-as para o Museu Britânico, onde ainda se conservam em sala especial, debaixo das reivindicações gregas (as mais enfáticas, feitas por uma combativa ministra grega da Cultura, a falecida atriz Melina Mercouri). Em vão. Os astutos ingleses – que vendem milhares de ingressos, todos os anos, no célebre Museu, aos curiosos interessados em ver de perto os mármores de Fídias (hoje chamados “de Elgin”) – sustentam que o Lord embaixador os obteve sob autorização legal da autoridade turca etc.
Nada disso, no entanto, significou catástrofe maior do que a que vem preparando o tempo em associação com o dióxido de enxofre (SO2) resultante da combustão dos produtos petrolíferos. O dióxido é um gás que corrói a pedra, e vem sendo expelido, durante anos e anos, pelos veículos que rodam na Atenas superpovoada (cinco milhões de habitantes, atualmente). Por outro lado, novas fábricas também lançam mais fumaça na antigamente límpida atmosfera grega, e, tudo junto – segundo o Dr. Giorgio Torraca, especialista italiano na conservação de monumentos de pedra –, funciona como “um câncer” num organismo vivo. Nas suas palavras: “O mármore é altamente poroso e compõe-se de grandes cristais de carbonato de cálcio, unidos entre si por uma espécie de cimento da mesma substância, feito de grãos mais finos que os do açúcar. Então, o que acontece? Os produtos químicos poluidores, especialmente o SO2, combinam-se com a umidade do ar, formando uma espécie de ácido diluído. E esse ácido penetra nos poros do mármore, desintegrando primeiro aqueles finos cristais de ‘cimento’, e depois os cristais maiores, que também se desagregam. É isso que está acontecendo com a Acrópole, e seu efeito sobre ela não deixa de ser um grito contra o nosso modo de vida e contra o que estamos fazendo, de um modo geral, com o planeta.”
“UM MONTE DE PEDRAS DESMORONADAS”
Diante da impossibilidade de se reduzir, significativamente, a poluição oriunda do consumo dos produtos do petróleo, especialistas internacionais queimam as pestanas para encontrar soluções paliativas. Alguns pesquisam certos compostos químicos cuja aplicação poderia couraçar o mármore, detendo parte da ação dos ácidos que o atinge. Silicones, resinas sintéticas apresentam tanto vantagens quanto inconvenientes, na sua aplicação sobre esse tipo de pedra. E são, todos, bem caros – além de necessitarem de mão-de-obra especializada, nada barata. A Grécia é um país pobre, e, ainda por cima, se debate em dúvidas sobre a real eficácia de tais medidas (para muitos, a umidade que ficaria dentro da “pedra impermeabilizada” continuaria a atacá-la da mesma maneira).
Talvez a esperança esteja no caminho do aperfeiçoamento de uma técnica desenvolvida na Universidade de Nova York, pelo especialista Z. Lewin. Esse professor norte-americano inventou um “coquetel” de produtos químicos baratos (hidróxido de bário, uréia e glicerina) que atinge, no seu cerne, os poros do mármore – sem os tapar – e, ao mesmo tempo, se combina com os produtos químicos já desenvolvidos como “impermeabilizantes” da pedra. O resultado é uma película dura em torno dela, como ele já pôde comprovar primeiro em velhas pedras tumulares nos Estados Unidos e até mesmo em pedras de Veneza (outro tesouro arquitetônico, este ameaçado de afundar na lama do Adrático).
Já faz tempo, um diretor-geral da Unesco estimou em pelo menos 20 milhões de dólares o custo de uma operação de “salvamento” parcial da Acrópole. Mas, o dinheiro ainda não foi conseguido, mesmo com a participação dessa organização educacional, científica e cultural da enfraquecida ONU.
Lembrado disso, no dia 17 de junho passado, no meio da Acrópole cheia de gente, eu fui “caçar” o americano com o qual havia subido a ladeira de acesso ao mais importante dos monumentos gregos. Encontrei-o sob a sombra do inacabado pórtico que dá acesso à área do Parthenon, e lhe perguntei se, como arquiteto, sabia qualquer coisa a respeito do projeto/campanha da Unesco. Ele balançou a cabeça, negativamente: “Deve continuar na gaveta, à espera de recursos. Sabe, my friend, isso é porque os homens diminuíram de tamanho, desde que se levantou esta maravilha. Há quase 3.000 anos, Péricles se ofereceu para pagar do seu bolso a despesa toda. Devia ser muito rico. Mas não tão rico, certamente, quanto um Bill Gates, hoje. Então, onde estão os Gates, os Forbes, os homens que amealharam dinheiro a vida toda, quando esta maravilha (ele fez um gesto, abrangendo todo santuário) pede socorro? Se ele não vier, um dia poderão subir aqui apenas para ver um monte de pedras desmoronadas”…
Ele calou, e eu também. Depois, deixei-o com as recordações dos seus 19 anos, quando visitara uma Acrópole “bem diferente”. Tinha direito a estar em paz, na talvez última visita ao lugar, na sua já longa vida.


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