A Carta
21 de junho de 2010 às 22:20 - 3 Comentários
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O relógio da parede marca as primeiras horas do anoitecer de uma sexta-feira. O silêncio escuta com paciência as batidas descompassadas do coração de Dona Alma, que sentada à pequena mesinha redonda do terraço fracamente iluminado, observa atentamente a rua comprida que segue ladeira abaixo. São fortes, as lembranças do passado. Sente uma saudade tão assustadora e, ao mesmo tempo, tão infinitamente sedutora, que é impossível rejeitá-la. Há um ano, um amor que era tudo na sua vida, foi embora, deixando o seu coração cheio de agonia. Desde então, dorme e faz as refeições na pequena varanda. Ele pode voltar a qualquer momento, pensa. Abre o bloco grande de papel e começa a escrever:
Meu querido, porque sumir por tanto tempo? Se te magoei por algum motivo, peço-te novamente perdão e milhões de vezes te pedirei se assim necessário for. Volta, amor… A saudade já roubou os meus sonhos e insiste em me deixar com uma aparência doentia… Tenho na garganta uma pedra deixando os meus olhos cobertos de areia, o que justifica tantas lágrimas… tanta chuva… Ela desceu até o meu sexo e matou a minha flor. O peso é insuportável, por isso são poucos os meus movimentos. O meu coração continua acordado. A dor ajudou a mostrar o seu valor . Ele continua forte, embora apresente sinais de loucura… Volta, que o meu Deus está triste porque dia e noite eu jogo a minha ira sobre ele… É grande a espera, mas vale a pena, pois espero a coisa mais linda do mundo… Volta, meu arco-íris…Volta, que tenho algo a te dizer, algo que, talvez, já tenha dito antes, mas que, agora, é de vital importância pra mim, pois só assim, darei um fim a minha dor…
Escuta o barulho do arrastar das sandálias de Pretinha, sua empregada. Dobra a carta com cuidado, a coloca dentro de um envelope, e em seguida, cola uma fitinha cor-de-rosa. No verso, escreve com letra miúda o nome do marido. Pretinha chega com as sobras do almoço.
- Está na hora do seu jantar.
- Pegue essa carta Pretinha, coloque-a no correio. De hoje, não passa.
- Pelo amor de Deus, Dona Alma! Aceite a realidade, o seu Manoel morreu! Morreu, entende? – esbravejou Pretinha – Há um ano, que a senhora, todos os dias, escreve essas malditas cartas e todos os dias eu as jogo no lixo!
Neste instante, Dona Alma vê o seu marido subindo a velha rua estreita com sua camisa branca de linho, sua calça de micro-fibra, a preferida em tempos de calor, e o seu eterno chapéu Panamá. Corre até o portão, e com as mãos na cabeça, grita:
- Manoel! Manoel!
Ele voltou, e seria loucura duvidar. Cai de joelhos agradecendo ao céu, agradecendo a vida dedicada ao amor fiel e nobre, as tristezas e alegrias compartilhadas, agradecendo a rua, bendita rua, que com a ajuda de pisadas retas ou tortas guarda em suas frestas a sua linda história de amor… Dona Alma vê Manoel se aproximar sorrindo. Ele atravessa o portão, estende-lhe com serenidade a mão, e diz:
- Vamos, querida! Você precisa descansar…
Deixa-se abraçar feliz. Observa Pretinha olhando-a apreensiva, curiosa.
- Pretinha, obrigada por tudo – sussurrou, aproximando-se da amiga.
- Está tudo bem com a senhora? Eu não queria…
- Pode ir em paz, minha querida. Eu vou deitar no meu quarto, na minha cama… Preciso dormir… – Segue o marido em direção ao interior da casa.
Pretinha sorri. Finalmente, Dona Alma havia compreendido a situação. Pega a sua bolsa, fecha a porta com a sua chave e, pela primeira vez, nesse último ano, vai para casa aliviada. Quem sabe, encarando a realidade, ela recomeça a sua vida, uma vida nova!, pensa com carinho.
Dona Alma deita-se feliz ao lado de Manoel, o seu amor. Deita procurando a vida desejada. Deita para nunca mais acordar


3 Comentários
Próximo do folhetim, querida Cláudia.Delícia. Beijos.
Maravilha, querido Jarbas! Querido, estou com aquela foto sensacional em que você foi clicado devorando um livro, lembra? Jarbas, um leitor voraz! rsrsrs Vou te enviar por e-mail! E vamos marcar nosso encontro cinematográfico!
Beijos e beijos.
Cláudia, minha querida, gosto muito dessa foto. Envia-me, por favor. Adoro tua dramaturgia e teus folhetins. Você chama textos como A Carta de contos ? Prefiro chamá-lo de folhetim, que nasceu da crônica antiga. Mas isso é só uma convenção, não é ? Beijos do seu leitor e amigo.