A Carta

21 de junho de 2010 às 22:20 - 3 Comentários
Por Cláudia Magalhães

www.teatroclaudiamagalhaes.blogspot.com

O relógio da parede marca as primeiras horas do anoitecer de uma sexta-feira. O silêncio escuta com paciência as batidas descompassadas do coração de Dona Alma, que sentada à pequena mesinha redonda do terraço fracamente iluminado, observa atentamente a rua comprida que segue ladeira abaixo. São fortes, as lembranças do passado. Sente uma saudade tão assustadora e, ao mesmo tempo, tão infinitamente sedutora, que é impossível rejeitá-la. Há um ano, um amor que era tudo na sua vida, foi embora, deixando o seu coração cheio de agonia. Desde então, dorme e faz as refeições na pequena varanda. Ele pode voltar a qualquer momento, pensa. Abre o bloco grande de papel e começa a escrever:

Meu querido, porque sumir por tanto tempo? Se te magoei por algum motivo, peço-te novamente perdão e milhões de vezes te pedirei se assim necessário for. Volta, amor… A saudade já roubou os meus sonhos e insiste em me deixar com uma aparência doentia… Tenho na garganta uma pedra deixando os meus olhos cobertos de areia, o que justifica tantas lágrimas… tanta chuva… Ela desceu até o meu sexo e matou a minha flor. O peso é insuportável, por isso são poucos os meus movimentos. O meu coração continua acordado. A dor ajudou a mostrar o seu valor . Ele continua forte, embora apresente sinais de loucura… Volta, que o meu Deus está triste porque dia e noite eu jogo a minha ira sobre ele… É grande a espera, mas vale a pena, pois espero a coisa mais linda do mundo… Volta, meu arco-íris…Volta, que tenho algo a te dizer, algo que, talvez, já tenha dito antes, mas que, agora, é de vital importância pra mim, pois só assim, darei um fim a minha dor…

Escuta o barulho do arrastar das sandálias de Pretinha, sua empregada. Dobra a carta com cuidado, a coloca dentro de um envelope, e em seguida, cola uma fitinha cor-de-rosa. No verso, escreve com letra miúda o nome do marido. Pretinha chega com as sobras do almoço.

- Está na hora do seu jantar.
- Pegue essa carta Pretinha, coloque-a no correio. De hoje, não passa.
- Pelo amor de Deus, Dona Alma! Aceite a realidade, o seu Manoel morreu! Morreu, entende? – esbravejou Pretinha – Há um ano, que a senhora, todos os dias, escreve essas malditas cartas e todos os dias eu as jogo no lixo!

Neste instante, Dona Alma vê o seu marido subindo a velha rua estreita com sua camisa branca de linho, sua calça de micro-fibra, a preferida em tempos de calor, e o seu eterno chapéu Panamá. Corre até o portão, e com as mãos na cabeça, grita:

- Manoel! Manoel!

Ele voltou, e seria loucura duvidar. Cai de joelhos agradecendo ao céu, agradecendo a vida dedicada ao amor fiel e nobre, as tristezas e alegrias compartilhadas, agradecendo a rua, bendita rua, que com a ajuda de pisadas retas ou tortas guarda em suas frestas a sua linda história de amor… Dona Alma vê Manoel se aproximar sorrindo. Ele atravessa o portão, estende-lhe com serenidade a mão, e diz:

- Vamos, querida! Você precisa descansar…

Deixa-se abraçar feliz. Observa Pretinha olhando-a apreensiva, curiosa.

- Pretinha, obrigada por tudo – sussurrou, aproximando-se da amiga.
- Está tudo bem com a senhora? Eu não queria…
- Pode ir em paz, minha querida. Eu vou deitar no meu quarto, na minha cama… Preciso dormir… – Segue o marido em direção ao interior da casa.

Pretinha sorri. Finalmente, Dona Alma havia compreendido a situação. Pega a sua bolsa, fecha a porta com a sua chave e, pela primeira vez, nesse último ano, vai para casa aliviada. Quem sabe, encarando a realidade, ela recomeça a sua vida, uma vida nova!, pensa com carinho.

Dona Alma deita-se feliz ao lado de Manoel, o seu amor. Deita procurando a vida desejada. Deita para nunca mais acordar

3 Comentários

  1. Jarbas Martins
    22 de junho de 2010

    Próximo do folhetim, querida Cláudia.Delícia. Beijos.

  2. 22 de junho de 2010

    Maravilha, querido Jarbas! Querido, estou com aquela foto sensacional em que você foi clicado devorando um livro, lembra? Jarbas, um leitor voraz! rsrsrs Vou te enviar por e-mail! E vamos marcar nosso encontro cinematográfico!

    Beijos e beijos.

  3. Jarbas Martins
    23 de junho de 2010

    Cláudia, minha querida, gosto muito dessa foto. Envia-me, por favor. Adoro tua dramaturgia e teus folhetins. Você chama textos como A Carta de contos ? Prefiro chamá-lo de folhetim, que nasceu da crônica antiga. Mas isso é só uma convenção, não é ? Beijos do seu leitor e amigo.

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    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

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POESIA

    No bar
    08-02-2012 às 22:17 - 7 Comentários
    Por Jairo Lima

    Chegaste a mim não como lume
    Mas como Pergunta exposta na toalha sobre a mesa
    E com olhos irônicos fitaste o Vazio dos meus olhos
    E nos meus olhos te atiraste como um predador na rota de sua presa

    Na boca um sorriso zombava de futuros e certezas

    E eu te vi.
    Te vi como se vê mares e dunas
    Como coisas que são sem oráculos nem seitas
    Que não se anunciam, nem aguardam, nem ficam, nem se vão:
    Ali estavas de pé em frente aos panos da noite
    E parecia que contigo aquela noite estava feita

    Te vi coxas, riso, ombros e mãos
    Perdidos entre afago e maldição

    Enquanto o sol ainda se esconde tua mão me marca a pele e impõe fronteiras de posse
    Num corpo que já não é mais o meu e se entrelaça no teu e se contorce

    Os lábios se encontram e vão em busca dos vapores quentes da alma
    Se colam, se penetram, se invadem;
    Não são asas de pássaros, são patas de cavalo
    Destruindo colheitas

    Aquela noite só prometia suores
    Conquistados a cada beijo
    Os latifúndios do desejo
    Eram cada vez maiores

    (———–)

    Vim de longe
    Em hora incerta
    Vim de lunas
    Vim de céus perfurados de estrelas
    Vim de amores submersos em dores e desfeitas
    Para que celebrasses a consagração bizarra
    Que faz a carne virar pão
    O sangue virar vinho
    E a cama virar mesa
    Onde a fome dispõe as suas facas
    Para cortar as carnes e sugar a seiva

    (—————–)

    ******

    Tácito, aqui vai um pequeno FAQ para explicar porque voltei a enviar poemas:
    1. Porque JL parou de mandar poemas para o SP?
    Não sei
    2. E porque voltou a envia-los agora.
    Sei lá.

    COMENTÁRIOS

    • Marcos Silva: Anchieta: Obrigado, lerei e comentarei depois. - Ai Hay Hai
    • Fernando: Nossa, nunca li um artigo tão fraco como esse, nunca vi tantas falácias coligidas em um artigo de um abortista (não nos parece um jornalista, já que demonstra nada ter lido efetivamente sobre o aborto). Vejamo-las: 1) Aborto não é questão de controle populacional: mentira. Basta ver a origem da defesa do aborto nos EUA e basta ver quem financia o aborto ainda hoje. Para quem nada sabe do assunto, estudar a história das fundações Rockefeller, MacArthur e Ford pode ajudar. 2) Aborto é "direito reprodutivo". Direito??? Que absurdo! Além do absurdo, o termo maldosamente forjado para induzir a erro é incoerente: como pode um "direito reprodutivo" tirar uma vida? Ah, tem dúvida se é vida humana? Por favor, dá uma olhadinha aqui: abort67.com.uk 3) Ó loucura... "atendimento de qualidade" e "sem preconceito" do Estado para ajudar uma mulher a matar o próprio filho. Quanto amor, quanta bondade! Quer saber? Chega de ironia, falemos a verdade: que nojo, quanta hipocrisia! Por que não propor educação sexual para valorização da mulher, do corpo, do próprio sexo, ao invés de louvar o sexo irresponsável que gera vida e que deve terminar em assassinato "de qualidade" e "sem preconceito"? Repito, gritando: QUANTA HIPOCRISIA, QUANTA HIPOCRISIA ASSASSINA MENTIROSA travestida de luz. Típico de quem quer fazer o mal. 4) Ah, o velho conceito da luta de classes para transformar o assassinato de bebês em "questão de saúde pública": mulher rica aborta com segurança, mulher pobre aborta e morre. MENTIRA HORROROSA!! Uma simples consulta ao SUS desmistifica essa mentira. O aborto como causa de morte de mulheres está LONGE, MUITO LOOOOOOOOOOONGE de ser questão de saúde pública. Mas é claro que este abortista (jornalista? Não... já não resta dúvida) está mal informado, lendo pesquisas financiadas pelas ONGs abortistas que sabidamente MENTEM para jornalistas divulgando números falsos que eles irresponsavelmente repassam para pressionar a opinião pública. Deem uma olhadinha aqui (é só uma das evidências...): http://boletimfedf.blogspot.com/2011/03/os-controversos-numeros-do-aborto-e.html 5) Como é fácil ter opinião diferente sobre o feto quando você não foi abortado, né japonesinho? Que lindo que soa aos ouvidos menos instruídos "direito sobre o próprio corpo". Que sorte a sua que sua mamãe (e seu papai, coitado! Não o reduza a nada! Ele também quis que você viesse ao mundo... Como você pode tirar dele o direito de amar você?) - que sorte que ela não pensou como você!! Afinal, seu corpinho não era nada, não é? Era uma unha encravada da mamãe, não é? Se você tem dúvida sobre "que corpo" é mutilado, se o da mamãe ou o do bebê, recomendo novamente este videozinho instrutivo: abort67.com.uk 6) Ave, e o que dizer da tese - histérica - de que "religiosos estão se intrometendo na questão!!! O Estado é laico!!" Será que não existe um ateuzinho que não concorde com a matança de bebês? Acho que existem sim. Muitos. Mas é mais fácil ser ignorante (ou maldoso) e criar uma guerra religiosa. Abjeta, como aliás têm sido todos os supostos "argumentos" até aqui para defender a matança de bebês gerados irresponsavelmente. 7) E o autor - que por sinal demonstra ter um elevadíssimo autoconceito, um amor-próprio no mínimo... doentio, para usar um eufemismo - ainda tem o fingimento de se apresentar aos leitores como alguém que está preocupado com a dignidade alheia, quando se acha no direito de decidir quais dos mais novos membros da espécie humana devem ou não viver. Como é triste a cegueira humana! É surpreendente até que ponto alguém ensimesmado consegue perder a noção da realidade! - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: É, Alex de Souza... "seus corpos" - abort67.com.uk - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • chico m guedes: coisas de Jairo eu sempre me pego lendo em voz alta; é quase táctil (quase?) - No bar
    • Daniel Menezes: Ótima reflexão. - Yoani Sánchez, a direita e a esquerda
    • Jairo Lima: Brigado, Nina, sou leitor atento e empolgado de tua poesia. - No bar
    • Anchieta Rolim: Marcos Silva, caso tenha interesse dê uma olhada nesse blog: araguaiahistoriaemovimento.blogspot.com Um abraço! - Ai Hay Hai
    • Marcos Silva: Aprendi a sentir Anne como mais que irmã, pedaço de mim, essas coisas que uns e outros consideram sentimentais mas são apenas sentimentos que nos diferenciam dos computadores. Grande beijo. - Ai Hay Hai
    • Anchieta Rolim: Gostei muito da matéria. E pra quem interessar, segue o blog do meu amigo João Carlos Wisnesky que foi um dos guerrilheiros do Araguaia e que ainda continua sua luta para esclarecer esse fato histórico. araguaiahistoriaemovimento.blogspot.com - À sombra da ditadura
    • Nina Rizzi: Gosto muito. E o meu gostar tem a pretensão dos desejos mais pungentes. Um beijo :) - No bar