A cidade não se entrega

Tácito Costa
Destaque

Foto/Destaque: Nanda Psoa (Veja álbum no final)

Sim, existe uma galera que não se curva ao medo e ao pânico e espalha música e poesia e empatia pela cidade. Meninos, eu vi! Foi sexta-feira e sábado últimos. A cidade resiste. Apesar de tudo. Na praça, no bar, locais democráticos por excelência.

“Sim, eu digo sim”.

Sim ao “Primeiro Juntêro na Praça”, que ocorreu sexta-feira na Praça Padre João Maria, na Cidade Alta, quando a área foi ocupada com música, poesia, artesanato, artes plásticas, sebos e muita “gente jovem reunida”.

Foto publicada no Facebook do poeta Thiago Medeiros.

“Na força e na raça”, como definiu o poeta Thiago Medeiros. Sem apoio oficial nenhum. Eu diria até, enfrentando indiferença e desprezo desses órgãos. Alguém emprestou o som, músicos e cantores se revezaram nas canjas. Quem podia deixava algum trocado na caixinha no chão em frente ao palco improvisado.

Abandonada, depredada, mais parecendo um cortiço com aqueles boxes caindo aos pedaços, a praça como que ressuscitou por algumas horas. Não ouvi ninguém falar em violência, mortes ou insegurança.

Eu disse “sims”, na sexta, no Bardallos, no centro, ao show fantástico de Yrahn Barreto e Letto que extasiou o público que lotou o bar. E no sábado, no Moinho Batata, em Ponta Negra, quando Carlos Zens, acompanhado por Ricardo Menezes (violão) e Kleiber Viana (pandeiro /percussão) fez uma apresentação de categoria.

Foto copiada do Facebook de Yrahn Barreto.

Fiz referência acima a três eventos culturais que presenciei e posso testemunhar. Mas, muitas outras coisas bacanas estão acontecendo na cidade, como o Sarau Quinta das Artes e os do pessoal do “Insurgências Poéticas”, lançamentos de CDs e shows lindos como o de Valéria Oliveira, de livros, estréia de novas peças como “A invenção do Nordeste”, do Carmin, Bazares, Som da Mata, festival de dança, de música, “Sábado de Ramos”, exposições de artes plásticas e de fotografia… A lista é enorme.

Entendam, não é que a violência não exista ou que devemos ignorá-la. Não. Ela existe, preocupa e já atingiu muitos de nós. O debate, portanto, deve existir. Não as gritaria e o terror que querem nos impor. Não as falsas ilusões e soluções que só na aparência poderão melhorar a situação.

Mas, gente, a cidade não pode girar em torno de um único assunto, de um único tema. Até quando vamos ficar reféns disso?

Nesse exato momento em que escrevo este texto, um colega de redação narra um assalto à mão armada a uma moça. Mais cedo, um irmão postou no grupo da família no WhatsApp (a ferramenta se transformou em correntes de boatos, besteirol, medo e propagação do terror) esse texto:

“Polícia militar avisa que bandidos estão indo a locais com muita gente como igrejas, bares, festas, etc. Perguntando de quem é o carro tal, placa tal quando o dono aparece o bandido diz que o carro está atrapalhando o dele sair, quando o proprietário chega ao local onde o carro tá estacionado os bandidos anunciam o assalto. A polícia pede para compartilhar essa informação. Repasse para a família e amigos no Brasil”.

Fui almoçar hoje no restaurante popular que fica bem atrás do meu trabalho. A Tv estava ligada no programa policial. Sempre está. As notícias mais os comentários dos clientes fazem qualquer pessoa menos brutalizada perder a fome ou ter uma indigestão. Vou poupar vocês do que ouvi em uns 10 minutos que fiquei lá.

Eu tenho buscado não dar cartaz e nem audiência aos arautos do medo. Não queria, inclusive, escrever sobre violência. Já tem gente demais falando sobre isso. Mas, resolvi escrever a partir de um ponto de vista que não vi ninguém tratar, de que a cidade pulsa e resiste ao terror, sobretudo, pela via da cultura independente, o que é ainda mais bacana. Evoé, artistas!

PS

Comentário do cantor e compositor Romildo Soares, no Facebook:

Em Natal tudo vira folclore

Lendo a matéria do querido Tacito Costa, por quem tenho o máximo respeito, deparo com informações ausentes: o “juntero” é um desdobramento do projeto A VOZ DA NOSSA ALDEIA, idealizado por mim e realizado em parceria com Thiago Medeiros, Raquel Lucena, Paulo Lima, Bar e Pastelaria Bom Jesus e Estação do Cordel. A VOZ DA NOSSA ALDEIA acontece todas as segundas feiras, as 16 horas, na Praça Padre João Maria, onde o foco principal é a musica produzida por artistas Potiguares em áudio e vídeo. Dia 21/08 iremos para a VIII edição.
Outrossim, idealizei e realizo A MOSTRA DE MÚSICA SETE E MEIA, nos jardins da pinacoteca, sendo uma edição por mês, com dois artistas locais. Em setembro iremos para a III edição. É também um projeto feito em parceria, sem dinheiro público. Então, antes de mais equivocos, fica o esclarecimento!
E tenho dito: +criatividade – sadismo

Confira fotos do “Juntero”, pela fotógrafa Nanda Psoa. Clique em cima e veja ampliada.

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Tácito Costa

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