A correspondência FELLINI-SIMENON
28 de março de 2010 às 12:05 - Comentar
Não poderiam ser mais diferentes – como pessoas e como artistas.
Amigos a partir de 1960 (quando George foi presidente do júri do Festival de Cannes que premiou “La dolce vita”), mantiveram assídua correspondência durante vinte anos, de 1969 a 1989 – apesar dos raros encontros pessoais. Nessas duas décadas (uma, de grande agitação cultural e, a outra, também
“perdida” na Europa), estiveram duas ou três vezes juntos, menos por culpa de Fellini do que do escritor belga – que não gostava de se afastar da refinada Lausanne.
Federico era 17 anos mais novo do que George – e era um italiano expansivo que amava a província com a paixão barroca dos sentimentais latinos. Simenon, por outro lado, era um
minimalista com obscuras paixões inconfessadas e certa sofisticação dos belgas francófonos, invectivando (com Baudelaire) a monotonia dos seus compatriotas.
George Simenon escrevia as cartas educadamente à mão – numa letra quase indecifrável, de tão miúda. O cineasta italiano respondia pontualmente à máquina, provinciano envergonhado de ter a letra feia e só saber fazer, “com o lápis e a caneta”, apenas “esses pequenos desenhos pornográficos que você admira sem razão”. Estava fazendo um tipo, é claro (Federico esteve sempre representando Fellini – como se fosse uma audição doméstica para algum palco da Rimini que nunca abandonou, espiritualmente).
De qualquer modo, havia – além da admiração mútua – algum coisa necessariamente em comum entre correspondentes tão assíduos e que se tratavam, carinhosamente, por “carissimo Simenon” e “mon cher Fellini”: ambos tinham grande capacidade de trabalho (talvez como uma forma de combater a tendência para a depressão) e o dois comungavam no ódio pelo mundo contemporâneo em contraposição aos universos idealizados das suas infâncias. E também apreciavam as mulheres desta época mais franca e permissiva (como exceção da perda de qualidade de tudo – ou quase tudo). Nas primeiras cartas, Simenon não hesita em oferecer sábios conselhos de mais velho ao “querido, gigantesco amigo Fellini”. Nas últimas, é o cineasta quem tenta animar o escritor deprimido com a arte incapaz de melhorar o mundo etc.
Mas o melhor é ir diretamente a alguns trechos das cartas de ambos, cheias de sabor nestes tempos de “e-mails” inodoros:
“Chinciano, agosto de 1976
Meu queridíssimo Simenon:
Quero lhe contar mais uma coisa que demonstra bem o quanto vem sendo enriquecedor o contato com a sua imaginação e sua criatividade. Um pequeno sonho que tive há dois
anos antes de começar o “Casanova”. Atravessava uma época negra. Inércia, desânimo, marasmo, ódio contra o filme… Me sentia prisioneiro, condenado a fazer uma película profundamente alheia ao meu temperamento, à minha imaginação, sobre um personagem que não me pertencia, não me era simpático… Então, uma noite eu sonhei que estou sendo despertado pelo matraquear enervante de uma máquina de escrever. Percebo que estive dormindo num enorme jardim úmido de orvalho, com grandes plantas carregadas de folhas de um verde intenso. Ao fundo, vejo uma construção em forma de torre. É dali que parece estar vindo o ruído antipático da máquina. Mas, à medida que me aproximo, não se ouve som nenhum. Distingo uma janela na ‘torre’ e me aproximo para dar uma espiada, erguendo-me na ponta dos pés. Lá dentro vislumbro uma espécie de monge, fazendo algo que não posso ver porque ele está sentado de costas para a janela circular. Aos seus pés, no chão, uma dezena de meninos e meninas riem, brincam com os cordões do seu hábito, tocam nas suas sandálias. Quando o ‘monge’ se volta, vejo que é você, com uma pequena barba branca – uma barba postiça, de disfarce. Assombrado, talvez mesmo decepcionado, nesse momento eu ouço uma vozinha que me diz: ‘É falsa’. Claro que é falsa, eu conheço barbas falsas… e vejo que você está até mais jovem, muito mais jovem do que da última vez que o vi. ‘E o que ele faz?’ – pergunto. E a vozinha me responde: ‘Pinta a sua novela. Está vendo? Já pintou mais da metade dela. É uma novela magnífica sobre Netuno (…)”
E a carta prossegue com uma incrível “decifração” do próprio sonho, que leva Fellini a perceber – segundo ele – que todo o seu lamentável estado de ânimo se devia, possivelmente, ao fato de ter completado 55 anos, estar rodando um filme em inglês (assim como Simenon, no sonho, tem que “pintar” as suas novelas e não está nem um pouco incomodado com isso) e que o personagem de Casanova na verdade habitava dentro dele, Fellini, do mesmo modo como Netuno habita, profundamente, no fundo dos oceanos. Bem, é o que Federico alegremente deduz, escrevendo para o falso “monge” (é sabido que Simenon contabilizava
“10.000 mulheres” possuídas por ele, desde os 13 anos – segundo informa no “Diário” que se dedicou a escrever quando, no fim da década de 70, se dizia já sem interesse para continuar criando personagens de ficção. Talvez ele próprio fosse um personagem ainda mais extraordinário, não?)…
A resposta à carta de Fellini não demora a vir de Lausanne – datada de 18 de agosto de 1976, pois Simenon é um metódico que, na sua letrinha regular, anota dia, mês e ano, sempre (ao contrário do cineasta de Amarcord, que nem sempre é preciso nas datas).
“Meu querido Fellini:
Senti uma grande emoção ao receber a sua carta. Por um momento, pareceu-me ouvi-lo aqui na Suiça – e compreendi bem todas as suas reações e fuga. Tudo que escreveu me comove profundamente, pois de algum modo você também me esclarece sobre uma parte de mim mesmo (apesar dos meus setenta e três anos, ainda me considero e me sinto como um fedelho). Você é, provavelmente, no mundo, a pessoa com que sinto ter mais afinidades no terreno da criação. Tentei dizer isso num prefácio, mas não sei se o consegui. Mas gostaria que você soubesse o quanto me sinto próximo de você, não só como artista – se posso empregar essa palavra que não me agrada – mas como homem e como criador… O sonho que você conta se assemelha a alguns dos meus – mas me inquieta um pouco haver desempenhado esse estranho papel, nele, e dessa maneira, ter participado, minimamente que seja, no seu novo alento para a criação do difícil ‘Casanova’.”
A partir de 1973 (quando completou setenta anos), George Simenon tornou-se obsessivo com o assunto do envelhecimento: fazia as contas da idade de todo mundo e se queixava da sua, entre jocosa e deprimidamente. O assunto se reflete em muitas das cartas ao amigo dezessete anos mais moço:
“Querido Fellini, irmão:
Provavelmente eu deveria escrever
“meu filho”, dada a nossa diferença de idade. Mas, como sei que compreende, emprego a palavra “irmão” em outro sentido. Há somente dois homens a quem dou esse nome, e o outro é, pelo contrário, mais velho do que eu. Refiro-me a Jean Renoir, que conheci antes de 1930, quando ambos lutávamos pelo que então se chamava de cinema de vanguarda – uma luta que, em várias ocasiões, imaginei que fosse nos levar
à chefatura…
Se me permito traçar esse linha paralela entre vocês dois é, em primeiro lugar, porque, por mais distantes que nos encontremos geograficamente, jamais tive a impressão de que a nossa amizade pudesse sofrer alguma diminuição com isso – do mesmo modo como ocorre com Renoir, que vive há muitos anos na Califórnia. Mas, entre nós dois, julgo que existe um vínculo de natureza ainda mais especial, uma vez que perseguimos o mesmo objetivo (embora sob formas artísticas diferentes): dar um conhecimento mais íntimo do coração humano, e por esse meio, essa forma anti-intelectual que podemos chamar de nossa.
Creio já lhe haver dito que, como eu, você é um instintivo – e como instintivo é que alcança valores universais….”
Datada de 9 de novembro de 1976, essa carta do criador de Maigret – que acerta em considerar Fellini “um instintivo” – segue elogiando o processo de “observação involuntária” do cineasta, e pretendendo que esse também fosse o “método” de Jean Renoir (o que já não parece tão acertado), para então descrever a si próprio como “uma espécie de esponja que absorve a vida sem o saber”, no mesmo saco de gatos dos “instintivos” inconscientes do “trabalho de alquimista” que se opera dentro dos Picassos e outros, “devolvendo aquela vida transformada”. “Mas, você é o maior de nós três” – declara Simenon, massageando o ego do italiano. A carta, aliás, parece que foi escrita também para isso (Fellini andava deprimido, mais uma vez): “Eu o admiro desde seus primeiros filmes – garante o autor do ótimo “Bairro Negro” (o melhor Simenon, na minha opinião) – e o que aumentou essa admiração foi ver como você foi se desfazendo de todas as amarras, regras e tabus. No mundo do cinema atual, Fellini é único, e, no fundo da sua alma, você sabe disso”.
A citação de Renoir não deixa de ser um tanto misteriosa, pois a leitura dos diários e da biografia de Simenon não revela indícios de uma amizade tão estreita, pelo menos, entre o escritor e o cineasta de “La règle de jeu”, o que faz parecer que George improvisa sobre o tema ou, ambiguamente, talvez até pretendesse, com isso, “cutucar” um pouco o amigo, nos seus brios cinematográficos (com um jab indireto no âmago ciumento das depressões de um cineasta?). Difícil saber.
Nem sempre as respostas Fellini eram imediatas e, muitas vezes, os assuntos ecoavam em cartas posteriores. Mas, são quase constantes as reclamações sobre um desencontro íntimo – o que é curioso – com os temas da maioria dos seus filmes pós-70 (como já vimos na carta sobre o “Casanova”). E se faz quase audível aquela vozinha de vovó Donalda, que não combinava com a personalidade poderosa de Federico, aludindo a intenções bem diversas daquelas que foram “adivinhadas”, pela crítica, nas suas obras de “intuitivo” (sem nada de Picasso, digo eu; o Picasso do cinema é Antonioni, sem dúvida):
“Meu querido Simenon:
E eu?, que tenho feito eu, durante todo este tempo em que não lhe escrevi? Fiz um filme curto, intitulado ‘Prova d’orchestra’ (Ensaio de Orquestra), e nele eu quis passar a atmosfera, falar da confusão, dos intentos, dos esforços de um grupo de músicos para alcançar reproduzir esse momento de harmonia prodigiosa que é a expressão musical. Junto aos músicos, há um diretor de orquestra, é claro, o qual compreende, na difícil dialética da relação com a orquestra, que o objetivo comum (executar as peças musicais) vai aos
poucos ficando em segundo plano…”
A carta prossegue com a vívida descrição do ambiente de filmagem do média-metragem, um interregno – apenas – na obra do autor de “Cabíria” que, no entanto, permanecia na sua angústia com relação ao longa-metragem (“Cidade das Mulheres”) interrompido desde o Natal do ano anterior:
“Que filme estranho! Ou melhor, como é estranho o que me ocorre com relação a esse filme! É a primeira vez em que me sinto tão inerte, tão vazio, como alguém totalmente estranho ao projeto que deve terminar. Por sua vez, o filme também parece indiferente a meu respeito – indiferente e inacessível, cerrado na sua natureza opaca e compacta. Nos desprezamos mutuamente. Evitamos nos encontrar…
Bem, não quero aborrecê-lo com as minhas jeremiadas de costume.
Eu e Giulietta estamos pensando em passar o Natal na casa dos Keel, em Zurich. Aproveitando a ocasião, caso concorde, iremos ver vocês e estaremos algum tempo na sua companhia…”
O encontro não aconteceu (parece), mas os dois amigos irão se ver em Veneza, por ocasião de uma homenagem a Fellini – quando Simenon é solicitado (também pelo Lincoln Center, de Nova York) a dar seu depoimento sobre o cineasta que ele considera como o protótipo do criador: “Nunca imitou ninguém, nunca seguiu nenhuma moda. Nunca adaptou a obra de nenhum novelista, poeta ou roteirista famoso. Ninguém seguiu menos os conselhos interesseiros dos produtores e não há cineasta que tenha levado tão pouco em conta os gostos volúveis do público”.
Isso foi escrito em 1985, e será nesse tom que a correspondência se aproximará do fim (em 1989), invertendo-se a polaridade: os protestos de admiração são fervorosos, da parte do escritor, assim como se iniciara a correspondência com Fellini confessando a sua admiração devota etc. O cineasta responde com lapsos de tempo cada vez maiores, de 1986 até o final de década, enxertando uns elogios a “L’homme qui regardait passer les trains” – uma das obras mais estimadas do escritor belga –, a qual Federico (estranhamente) confessa que “ainda não conhecia”. Pareceu-me um belo livro… Bravo, grande Simenon, nunca deixarás de me surpreender!”
A última surpresa a vir de Lausanne seria, infelizmente, a notícia da morte de George, no dia 4 de setembro de 1989, aos 86 anos.


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