A crítica do Franklin Jorge
2 de agosto de 2010 às 12:39 - ComentarTácito, acessei como vc pediu e encontrei o texto, que compartilho com os demais:
A CARNAVALIZAÇÃO DA CULTURA
29 de julho de 2010
Transcrito do NOVO JORNAL, Natal 29/07/2010
Por Franklin Jorge,
Editor de Cultura e Opinião do NJ
Um critico complacente diria, benevolamente, que se trata de uma lista equivocada. Contudo, prefiro ver como um desserviço à cultura norte-riograndense a “Expo lítero-iconográfica Potyguar” elaborada pelo autodenominado bibliófilo João da Mata Costa, que se integra assim ao conjunto de eventos comemorativos da 62ª. Reunião Anual da Sociedade Brasileira Para o Progresso da Ciência (SBPC), em curso no Campus Universitário.
Pretensiosamente, lançou-se Da Mata ao desafio de estabelecer um cânone potiguar, tarefa para a qual mostrou que não está qualificado, já de entrada, ao ignorar soberbamente que uma tal tarefa não pode ser atribuída a um único individuo, mas ao trabalho de gerações e à consagração que o tempo outorga.
Marcada pela falta de critérios, essa reunião atabalhoada de cinqüenta títulos mostra um curador confuso e desinformado; uma espécie de Gumercindo Saraiva redivivo, que, aliás, consta como autor dessa mostra de “livros fundamentais da cultura potyguarriograndensedonorte” (sic), segundo o seu mentor e organizador, literato e professor da Universidade Federal do RN que mistura alho com bugalho e acende a suspeita de que tem a inteligência alheia em baixa conta.
A colaboração de João da Mata Costa ao SBPC contribui para a criação de um grande equivoco e delata a falta de rigor da organização do evento que condescendeu com tamanho disparate.
Essa mostra mal-alinhavada promove uma idéia equivocada da nossa produção literária, sobretudo para os que nos visitam neste momento. Contudo é preciso reconhecer a bossa inovadora do curador da mostra ao ignorar que livros canônicos são aqueles que servem de referencia, o que por seu natural subjetivismo exclui a poesia.
Essa mostra que se intitula de “Potyguarana” parece-me mais o fruto de um delírio narcísico de alguém que, embora amando os livros, o faz de maneira aleatória e sem critério, confundindo escritores autênticos com meros escrevinhadores – falta que se faz inadmissível quando chancelada por uma instituição – a universidade – que tem o dever primário de difundir o conhecimento, não o equivoco ou manifestações vaidosas de egos inchados, como se ocorre no presente caso.
Não há, nessa salada mal temperada, nem mesmo compatibilidade entre a maneira de grafar o conhecidíssimo vocábulo “potiguar”, já assimilado por todos que não são ágrafos. A não ser que o bibliófilo tenha desejado prestar homenagem ao concretismo ou ao joycianismo tão acarinhados por vanguardistas avelhantados.
Acautelando-se de eventuais criticas do público bem informado, bota o autor dessa performance “carta de seguro”, ao declarar que se trata de uma “seleção pessoal e parcial que não pretende abarcar toda cultura do RN”, mostra-se Da Mata um curador incapaz de pensar criticamente sobre suas leituras, uma falta imperdoável num professor universitário que tem como missão transmitir o conhecimento de maneira clara e inequívoca. Uma análise dos titulos que reuniu com o açodamento de um primário revela essa incapacidade de avaliação inerante ao exercicio intelectual sério e construtivo.
João da Mata Costa corre assim po risco de tornar-se folclórico como o seu mestre Gumercindo Saraiva – de quem se pode dizer que morreu sem jamais experimentar o prazer de ter sido apresentado à gramática -, ficando cada vez mais parecido com uma anedota muito conhecido pelos eruditos, na qual um poeta catalão pediu ao seu rei que lhe permitisse desmanchar em represália as sandálioas feitas por um sapateiro metido a cantor que lhe desmanchara a canção, estropiando-lhe a música e os versos, como o famigerado bibliófilo do Alecrim acaba de desmanchar o conceito de cânone e literatura.

