A crueza de “Uma questão pessoal”, de Kenzaburo Oe

Tácito Costa
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Kenzaburo Oe é o terceiro escritor japonês que eu leio. Concluí no último final de semana o seu impactante romance “Uma questão pessoal”. Pela ordem, li antes Yasunari Kawabata (“A casa das belas adormecidas”) e depois Haruki Murakami (“O Incolor Tsukuru Tazaki e Seus Anos de Peregrinação”).

Muito pouco, mas é um começo. Penso que estou melhor em cinema. Assisti aos mais importantes filmes de Kurosawa e alguns de Kenji Mizoguchi, Yasujirô Ozu, Nagisa Oshima e Takeshi Kitano.

Sei que preciso ler Yukio Mishima, um nome incontornável da literatura japonesa. Até tenho um livro dele, mas ainda não recebi o chamado para lê-lo.

capa

“Uma questão pessoal” tem inegáveis inspirações biográficas.

Em 1964, Kenzaburo recebia a notícia de que seu primeiro filho nascera com uma anomalia cerebral. É a mesma situação enfrentada pelo protagonista do livro, o professor de cursinho de vestibular Bird (apelidado com esse nome aos 15 anos pois lembrava, fisicamente, um pássaro), que aos 27 anos leva uma vida medíocre, bebendo pelos bares de Tóquio e sonhando com aventuras no continente africano.

No livro, depois do parto, os pais descobrem que a anomalia cerebral fará o menino ter uma vida vegetativa. Bird passa, então, a desejar a morte da criança. A história começa com ele perambulando pela cidade, entra em uma livraria, compra um mapa da África, enquanto a mulher está no hospital em serviço de parto. Bird só aparece no hospital quando bebê nasce.

“Um nome, pensou Bird. Estava confuso, como quando refletira sobre o assunto no hospital onde a mulher se encontrava internada. Dar um nome humano ao monstro faz com que ele se transforme em gente e passe a reivindicar direitos. A morte dessa criança enquanto anônima é uma coisa e com um nome é outra; sua existência torna-se mais real”.

Durante os primeiros dias após o parto ele não tem contato com a mãe, que convalesce na casa da mãe, enquanto ele se abriga na casa da amante Himiko, que tenta recuperar-se do suicídio do marido em companhias nada recomendáveis. Em resumo, dois personagens à deriva.

O romance passa a girar em torno da amante e do filho e consequentes questionamentos de ordem moral.

É uma obra singular deste autor, que ganhou o Nobel de Literatura em 1994. Na forma, pela variedade de discursos (direto, indireto, indireto livre etc.) e no conteúdo, pela maneira crua e violenta com que aborda a vida de Bird. Uma crueza que choca, mesmo a leitores com alguma estrada em termos de obras fortes.

O filho do escritor, desenganado pelos médicos, Hikari, sobreviveu e se tornou compositor.

TRECHO

“- Uma vida vegetativa… O médico se calava sem ir direto à resposta, que Bird aguardava em silêncio. De repente, Bird teve a clara consciência do desejo vergonhoso que surgira nas entranhas de sua mente no momento em que tomara conhecimento, na recepção da pediatria, de que a criança estava viva. O desejo crescera com a espantosa rapidez de um bando abjeto de moscas negras e desde então vinha ganhando contornos nítidos. Ai de mim e de minha mulher com essa criatura vegetal, esse bebê-monstro atrelado a nossas vidas! Preciso fugir dele. Do contrário, o que será de minha viagem à África? Aflito, Bird se encolhia, como se o bebê-monstro estivesse para atacá-lo da incubadora através da parede envidraçada. Mas que vergonha! O egoísmo o infestara como verme intestinal, o rubor lhe vinha à face, transpirava por todos os poros.”

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Tácito Costa

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