“Os cristãos têm só um crucifixo, ao passo que nós temos a medula da cruz”, diziam os sufistas discípulos da Rosa de Bagdá.
De novo, um nó górdio – agora de linho do pano de um “sudário” sanguinolento, atado ao espelho de cobre no qual ainda esperamos enxergar a névoa do futuro, no remate do desenho (vá a palavra teilhardechardinesca!) cristocêntrico. Ou o futuro que se determina – para tantos – pelo sacrifício de um rabi de poucos discípulos, pregando para a gente pobre daquela paupérrima província do império que nos deu a boa ordem…
Jesus de Nazaré vai se fazer crucificar entre o Antigo e o Novo, na medular distância iniciática entre os caminhos do Mar Morto e o desdobramento do helenismo reelaborado por visões de gosto semítico – quando a clara herança do Logos aparecer temperada com aquela “gordura espiritual” que já está nos textos bíblicos do Vale dos Penhascos (Q’uram, um dos cenários mais desolados da Terra)…
Menos irada e mais complexa do que na Idade dos primeiros profetas, a nascente etapa vai ser um ápice da pirâmide montada por pastores de cabras, sobre os muros da Jericó estranha que escavamos a medo, no epicentro de forças do mar imóvel – bem perto – que é o mais sinistro mar do planeta. Ninguém as ouve clamar por sobre as muralhas, mas quando volta Jesus das suas misteriosas andanças pelo Oriente, é o “Ocidente” – depurado da gordura asiática – que se anuncia pelas trombetas dos anjos anunciando o Amor (um conceito a encerrar a antiguidade pagã com a morte de todos os deuses que Juliano tentará restaurar, mais tarde, no altar de Pérgamo e noutros altares derrubados).
O mundo é finalmente redondo: a serpente engole o Peixe e morde a própria cauda, culturalmente. Como não admirar um tal “momento”, em parte inventado por São Paulo?
O mundo zera o seu “taxímetro” cultural e a história “recomeça” (para nós, só para nós), exatamente daqueles
“Testamentos dos Apóstolos” –e demais anexos de catacumbas, posteriores, textos tipicamente cristãos. Nessa marcha, o nosso bravo Ocidente está prestes a formar, nessa altura, o rosto final que será uma invenção de si mesmo, uma esfera se refletindo no espelho que produz a visão de paralax do nosso “grande” modelo de civilização. Tais imagens são sempre uma ilusão, mas uma ilusão pode ser agradável, e esta o é – ou se torna –, ao rematar a face duplicada: a “religião de escravos” (cuja máscara Nietzsche quis retirar) se transformará em religião de Estado e fará coincidir a imagem até com aquela do banquete grego em torno de idéias de igualdade pelo menos na eternidade que não pede contas a filósofos, profetas e pastores abandonados.
Estamos no Grande Trevo ou entroncamento das vias que “rematarão” a História vista como a história do Mediterrâneo (primeiro) e a história da Europa – depois. É assim que temos organizado o conhecimento: em torno do próprio umbigo orgulhoso do cordão umbilical ligado à antiga literatura judaica e seus conexos (e/ou “conectados”) adaptáveis o suficiente para caberem no, digamos, “Salão Nobre Ocidental”. Foi como construir e entalhar um móvel de muitas gavetas, um armário arrumado segundo a visão de idealidade elaborada como uma obra de carpintaria que serve para acumular caixas etiquetadas no móvel-imóvel: SÍNTESES JUDAICAS + GREGOS NÃO-ARCAICOS + ROMA-MODO-DE-SEGURANÇA + CRISTIANISMO. Nele, nesse sarcófago de madeira do Líbano, foi que nos acostumamos a guardar a múmia asséptica dessa mistificação bem enrolada, num contexto onde tudo está previsto, o passado está arrumado e as gavetas estão fechadas para o futuro.
“Futuro?” Não há propriamente futuro, dentro do câncer da “arca da aliança” que se tornou o sacrário ocidental do desamor desatado nos muitos cofres de ódio e egoísmo que modelaram a sociedade, a economia e a política do doente terminal – apagadas as “luzes” do século XX.
Futuro. Talvez haja futuro, ainda. Talvez seja possível, quem sabe, reformar o móvel, ou abrir – com a chave que está perdida – a portinhola de acontecimentos “laterais” como este do Noroeste da África: a cabeça de um rei com quem ninguém contava. Talvez ainda seja possível viajar para o antes do antes – a fim de voltar para o agora intemporal medido pelo calendário do pensamento – e, nessa finisterra do espírito, encontrar as “tábuas da lei” de Akhenaton…
Encontrar esse rei na raiz do Monoteísmo é quase como penetrar, com o temerário personagem de Conrad, no “coração do Congo”, para se deparar não com “o horror, o horror” – mas com a luz em negro do esforço humano, a claridade que vem de sombra, incluindo aquela, alongada, de um faraó morto há mais de três mil e trezentos anos.
Arte: Salvador Dali