A Cruz do Caminho

31 de janeiro de 2010 às 10:01 - Comentar
Por fernando monteiro

“Os cristãos têm só um crucifixo, ao passo que nós temos a medula da cruz”, diziam os sufistas discípulos da Rosa de Bagdá.

De novo, um nó górdio – agora de linho do pano de um “sudário” sanguinolento, atado ao espelho de cobre no qual ainda esperamos enxergar a névoa do futuro, no remate do desenho (vá a palavra teilhardechardinesca!) cristocêntrico. Ou o futuro que se determina – para tantos – pelo sacrifício de um rabi de poucos discípulos, pregando para a gente pobre daquela paupérrima província do império que nos deu a boa ordem…

Jesus de Nazaré vai se fazer crucificar entre o Antigo e o Novo, na medular distância iniciática entre os caminhos do Mar Morto e o desdobramento do helenismo reelaborado por visões de gosto semítico – quando a clara herança do Logos aparecer temperada com aquela “gordura espiritual” que já está nos textos bíblicos do Vale dos Penhascos (Q’uram, um dos cenários mais desolados da Terra)…

Menos irada e mais complexa do que na Idade dos primeiros profetas, a nascente etapa vai ser um ápice da pirâmide montada por pastores de cabras, sobre os muros da Jericó estranha que escavamos a medo, no epicentro de forças do mar imóvel – bem perto – que é o mais sinistro mar do planeta. Ninguém as ouve clamar por sobre as muralhas, mas quando volta Jesus das suas misteriosas andanças pelo Oriente, é o “Ocidente” – depurado da gordura asiática – que se anuncia pelas trombetas dos anjos anunciando o Amor (um conceito a encerrar a antiguidade pagã com a morte de todos os deuses que Juliano tentará restaurar, mais tarde, no altar de Pérgamo e noutros altares derrubados).
O mundo é finalmente redondo: a serpente engole o Peixe e morde a própria cauda, culturalmente. Como não admirar um tal “momento”, em parte inventado por São Paulo?

O mundo zera o seu “taxímetro” cultural e a história “recomeça” (para nós, só para nós), exatamente daqueles
“Testamentos dos Apóstolos” –e demais anexos de catacumbas, posteriores, textos tipicamente cristãos. Nessa marcha, o nosso bravo Ocidente está prestes a formar, nessa altura, o rosto final que será uma invenção de si mesmo, uma esfera se refletindo no espelho que produz a visão de paralax do nosso “grande” modelo de civilização. Tais imagens são sempre uma ilusão, mas uma ilusão pode ser agradável, e esta o é – ou se torna –, ao rematar a face duplicada: a “religião de escravos” (cuja máscara Nietzsche quis retirar) se transformará em religião de Estado e fará coincidir a imagem até com aquela do banquete grego em torno de idéias de igualdade pelo menos na eternidade que não pede contas a filósofos, profetas e pastores abandonados.

Estamos no Grande Trevo ou entroncamento das vias que “rematarão” a História vista como a história do Mediterrâneo (primeiro) e a história da Europa – depois. É assim que temos organizado o conhecimento: em torno do próprio umbigo orgulhoso do cordão umbilical ligado à antiga literatura judaica e seus conexos (e/ou “conectados”) adaptáveis o suficiente para caberem no, digamos, “Salão Nobre Ocidental”. Foi como construir e entalhar um móvel de muitas gavetas, um armário arrumado segundo a visão de idealidade elaborada como uma obra de carpintaria que serve para acumular caixas etiquetadas no móvel-imóvel: SÍNTESES JUDAICAS + GREGOS NÃO-ARCAICOS + ROMA-MODO-DE-SEGURANÇA + CRISTIANISMO. Nele, nesse sarcófago de madeira do Líbano, foi que nos acostumamos a guardar a múmia asséptica dessa mistificação bem enrolada, num contexto onde tudo está previsto, o passado está arrumado e as gavetas estão fechadas para o futuro.

“Futuro?” Não há propriamente futuro, dentro do câncer da “arca da aliança” que se tornou o sacrário ocidental do desamor desatado nos muitos cofres de ódio e egoísmo que modelaram a sociedade, a economia e a política do doente terminal – apagadas as “luzes” do século XX.

Futuro. Talvez haja futuro, ainda. Talvez seja possível, quem sabe, reformar o móvel, ou abrir – com a chave que está perdida – a portinhola de acontecimentos “laterais” como este do Noroeste da África: a cabeça de um rei com quem ninguém contava. Talvez ainda seja possível viajar para o antes do antes – a fim de voltar para o agora intemporal medido pelo calendário do pensamento – e, nessa finisterra do espírito, encontrar as “tábuas da lei” de Akhenaton…
Encontrar esse rei na raiz do Monoteísmo é quase como penetrar, com o temerário personagem de Conrad, no “coração do Congo”, para se deparar não com “o horror, o horror” – mas com a luz em negro do esforço humano, a claridade que vem de sombra, incluindo aquela, alongada, de um faraó morto há mais de três mil e trezentos anos.

Arte: Salvador Dali

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    COMENTÁRIOS

    • Tácito Costa: Sr. Paulo. Grato pelo alerta. Não tiro nenhuma vantagem pessoal desse trabalho. Não temos anúncios e nem patrocinadores e apoiadores monetários. Move-me somente o desejo de democratizar o acesso ao conhecimento. Vamos continuar. Somos favoráveis a cópia sem fins lucrativos. - Viajantes e apaixonados em transe
    • Anne Guimarães: Um poema ensolaradamente gris em tons de azul.... A vida simples e sagrada de quem encontra no mar a sua honra, a sua luz. Admiro tudo que eleva a vida de um pescador.... Lindos versos, bela vida natural potiguar! :) - Tarrafas
    • Anne Guimarães: Poeta Anil.... Sempre bom ler seus poemas.... Ouvir sua voz, receber sua alma.... "Abracei novas incertezas /Sussurro, nem sempre é gozo/ Só o agora é urgente" afff mexeram aqui dentro, rsrs. Esse também é o papel da poesia, motivar, emocionar, contar aquilo que a gente não disse , mas viveu ou vive - em silêncio - na quietude dos sentimentos mais intensos.Você sabe bem o que isso significa, vive poesia e respira versos na beleza do cotidiano sagrado. Beijos,querida! :) - Fio de luz
    • Anchieta Rolim: ...só o agora é urgente...Belo poema, Ednar. - Fio de luz
    • Anne Guimarães: Querida poeta-flor! ô coisa lindaaaa.... Lembrei agora de um poema de Carlos Nejar para sua filha Carla, em um dos versos sábios ele diz: " é no simples que as coisas são completas." É isso mesmo, quanto mais simples, mais doce, mais prazer nessa vida breve vida. Estarei sempre contigo, menina! Suas palavras serenas me mostram que - de uma forma ou de outra - é especial cada segundo de leitura aqui. Beijos no espírito. :) - Vagalume da Paz
    • Anchieta Rolim: Romana, é justamente isso que falta no mundo minha amiga, luz e paz. Bela poesia! Parabéns ! - Vagalume da Paz
    • Anchieta Rolim: Beleza de texto J. Paiva. Só espero que os meninos de hoje também sonhem com um Brasil melhor...Pois ainda há muito a ser feito.Parabéns! - Política de menino
    • Paulo César: Sr. Tácito, Pelo que eu saiba jornais não permitem a transcrição de artigos da forma como o senhor vem fazendo no seu site. Colocar um link é uma coisa, transcrever e fazer o leitor continuar no seu site, quando o artigo tem direitos autorais e está hospedado em outro local e tem regras de uso.O utilização da forma como o senhor vem fazendo denota pirataria, palavra muito em voga e contraditória, mas ainda passível de sanções pelas atuais leis do país. Não alerto apenas por alertar, mas sugiro consultar - se me permite a sugestão - um advogado para entender a sua situação atual(devidamente gravada e arquivada para uso, mesmo que esse e outros conteúdos sejam retirados do ar imediatamente). Com muito respeito, Paulo César - Viajantes e apaixonados em transe
    • Jarbas Martins: Qualquer seleção de poemas, antologia, florilégio, ou que outro nome tenha, sempre passou, no período histórico chamado de Modernidade, pelo crivo da parcialidade. Baudelaire, que além de poeta, era crítico de poesia, e da arte de um modo geral, sabia disso.O poeta e antologista Paul Éluard,à época da festiva revolução surrealista, tanto sabia que lançou a sua parcialíssima seleção - "Le Meilleur choix de poèmes est celui que l'on fait pour soi- 1818-1918". (A Melhor seleção de poemas é aquela feita para si mesmo -1818-1918"). Nestes rasos tempos da Pós-Modernidade - o prestígio, uma espécie de capital simbólico, segundo Bourdieu (e viva as lições do meu colega e amigo, professor-doutor Emmanuel Barreto), teria que entrar como um critério.O mercado assim determina.Daí a razão porque Ferreira Itajubá e Jorge Fernandes (mesmo com o aval de nomes como Luís da Câmara Cascudo,Mário de Andrade e Manuel Bandeira) - sempre são "esquecidos" das antologias feitas no preconceituosíssimo e longínquo Sudeste. Pobres, marginalizados e insulados em sua província submersa - não contam com uma "fortuna crítica" que merecem. - A identidade do verso brasileiro
    • Jairo llima: Fernando Monteiro está no centro do cânone de nossa literatura. Fico feliz de ser contemporâneo e conterrâneo deste artista. - As asas da noite que surgem (1)