A cultura nordestina no carnaval carioca

22 de fevereiro de 2012 às 8:46 - 3 Comentários
Por João da Mata

Sou “cabra da peste” / Oh minha “fia”, eu vim de longe pro salgueiro/ Em trovas, errante, guardei / Rainhas e reis e até heróico bandoleiro / Na feira vi o meu reinado que surgia.
Qual folhetim, mais um “cadim, vixe maria!” / Os doze do imperador / Que conquistou o romanceiro popular / Viagem na barca, a ave encantada / Amor que vence na lenda / Mistério pairando no ar
Cabra macho justiceiro/ Virgulino, é Lampião! / Salve, Antônio Conselheiro / O profeta do sertão ( Samba Enredo do Salgueiro 2012 )

No ano do centenário do escritor Jorge Amado e do compositor e cantor Luiz Gonzaga a cultura nordestina está no sete – estrelo. A Escola de Samba Salgueiro com o “Cordel Branco e Encarnado” brilhou no segundo dia da Sapucaí Renovada num ano de grande criatividade onde as escolas de samba privilegiaram alguns do ícones da cultura nordestina.

A escola entra na avenida com um lindo painel do J. Borges, um dos maiores artistas vivos da xilogravura nordestina. O mestre de Bezerros-PE é autor de centenas de xilos que ilustram as capas dos livretos de cordel. Um dos maiores cordéis é o da história do Pavão Maravilhoso e foi brilhantemente desenvolvido no enredo da escola que teve na sua bateria um dos pontos altos, numa mistura de xote e samba. A princesa Megalona e o seu amor por Pierre, a luta entre cristãos e mouros são partes essenciais da cultura popular nordestina e não foi esquecido pelo departamento cultural da escola que está de parabéns. O medieval com o popular se uniram num grande enredo. A história do imperador Carlos Magno – o imperador do ocidente – também foi brilhantemente apresentado pela escola do branco e encarnado. Os coronéis eram formados pela velha guarda da escola. O popular e o profano são partes dessa cultura também apresentada num dos carros alegóricos. As histórias de assombrações que povoaram o imaginário popular foram apresentadas num dos cordões ricamente fantasiado com as imagens ancestrais e poéticas do nosso sertão arcaico. O sobrenatural e a temida onça caetana, que de tanto pavor virou sinônimo da morte. A caipora e as visagens da noite. O relicário para se proteger. A rica estética dos cangaceiros e da fauna nordestina foi lindamente mostrada. A bateria estava estupenda formada de cangaceiros. Lampião não foi tão justiceiro como diz o samba enredo, mas continua a povoar e semear o imaginário da cultura popular. Sua saga é tão rica como a dos grandes heróis medievais, brilhantemente simbolizada na história de Carlos Magno e os dozes pares de França. São histórias do medievo do qual a nordeste é um rico depositário. A escola de samba salgueiro está de parabéns e, em minha opinião, merecia ganhar o lugar primeiro.

3 Comentários

  1. 22 de fevereiro de 2012

    Tácito, não sei o q acontece. Quando curto alguma mensagem não está sendo transportada com a devida ilustração. Muitas vezes a ilustração que acompanha a mensagem para o face é outra do arquivo ou mais recentemente postada no sp.

  2. Aldo Lopes de Araújo
    22 de fevereiro de 2012

    Caro João,

    Só a letra do samba enredo é que é infame. Esse negócio de dizer que Lampião é “cabra macho” e “justiceiro” é uma balela e só revela o completo desconhecimento do letrista, senão a sua idiotice (do letrista, claro). Lampião, dizem, era gay. E justiceiro ele nunca o foi. Ao contrário era um contumaz (in)justiceiro. Vivia lambendo as alpercatas dos coronéis trucidando vaqueiros e trabalhadores. E ainda por cima queria ser milico. Foi enganado miseravelmente pelo padre Cícero que encenou a entraga da patente de capitão do Exército e o tal caiu como um pato. Além do mais, vangloriu-se dessa falsa patente à vida inteira. Afora os solecismos e os apelos exagerados ao pitoresco, o restante está de bom tamanho.

  3. 23 de fevereiro de 2012

    Sim, amigo Aldo. Meu Saudar, Como eu cantei, o NE foi o grande campeão da Noite de Carnaval na Sapucaí. Justo o 1o lugar para o entedo com Luiz Gonzaga da Unidos da Tijuca. O Salgueiro ficou em 2o, por conta da evolução. Tá de bom tamanho.
    Sobre o Lampeão escreverei em seguida. Li o livro do Juiz aposentado. Muito fraco. abração.

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POESIA

    Névoa
    16-05-2012 às 9:40 - 7 Comentários
    Por Jarbas Martins

    Carl Sandburg

    Vem a névoa
    em breve pisar de gata.

    Queda-se olhando
    o porto e a cidade
    sentada em seu silêncio e
    esgueirando-se em seguida.

    (Tradução de Jarbas Martins)

    * * *

    Fog

    The fog comes
    on litlle cat feet.

    It sits looking
    over harbor and city
    on silent haunches
    and then moves on.

    (Carl Sandburg, “Selected Poems”, G.Books,1992)

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: Amigo Carlão, Vejo com muita alegria a sua inquietação e leitura. Tb indico fortemente o livro .Jerônimo, A Técnica do Livro de autoria do grande Dom Paulo Evaristo Arns ( Sua tese de doutorado) , trad. de Cleone Augusto Rodrigues e prefácio de Alfredo Bosi . Belíssimo livro em capa dura Jeronimo traduziu a vulgata da biblia e é considerado o patronomo dos bibliófilos e amantes do livro. Saudações bibliófilas. ab imo corde - Help
    • edjane linhares: Muito lindo, Jarbas. A experiência do haicai, como Fernando nos lembrou, ajuda muito neste processo de contemplação e silêncio, ato solitário e sublime. Quero agradecer a homenagem às mães no seu último haicai (único vestígio da data por aqui). Aguardo coletânea deles. Um abraço. - Névoa
    • Jarbas Martins: Amigo Jóis: gosto da sua poesia e da sua prosa digressiva, inflada de saberes e sabores, biscoito fino para raros paladares.Nem precisava dizer isso, mas como em seu comentário você se reportou a um incógnito Aguinaldo Soares, usando termos utilizados por ele contra mim - deu-me vontade de voltar ao assunto. Repito mais uma vez: Aguinaldo Soares sabe escrever, e a expressão "sólida cultura" é tão infeliz que não me restou outra alternativa: pedi desculpas ao ilustríssimo desconhecido.Não conheço o Aguinaldo, mas presumo que ele, como eu, temos algo em comum: fizemos o curso de direito.Daí o nosso gosto pelas sentenças líquidas e certas. Abraços, Poeta ! - Ditirambo
    • Marcos Silva: Li um livro interessante sobre Jerônimo, A Técnica do Livro Segundo São Jerônimo, de Paulo Evaristo Arns - Help
    • Jarbas Martins: Tradução inventiva a tua, Marcos. Nenhuma novidade nisso. Você é um reconhecido mestre na arte tradutória. - Névoa
    • Jóis Alberto: O poema é bom! Afirmo isso, embora não tenha plena consciência do ofício de poeta. Porque se eu for intelectual, sou dos mais incompletos – em meio a preconceitos, totens e tabus, como vocês já tiveram oportunidade de ler mais de uma vez, aqui neste democrático SP. Além do mais, como posso ter sólida base cultural nesses tempos em que tudo que é sólido se desmancha no ar? Tempos de modernidade e amores líquidos, de fodas em excesso e entediadas, blasé até – foda blasé é ‘foda’! – de gente que trepa com a mesma rotina de quem escova os dentes, tema objeto das sátiras ingênuas de meia dúzia dos meus poemas eróticos. Ingênuas não só se comparadas às sátiras e poemas eróticos/pornográficos de um grande poeta, Bernardo Guimarães, por exemplo, mas ‘ingênuas’ também no sentido libertino, filosófico, da palavra ‘ingênuo’! Ou então as fodas são escassas como as leituras de gente que, se leram os gregos, leram em traduções, não no original, e fazem a pose erudita de quem muito entende esses clássicos da filosofia, da poética e da ética, da antiguidade greco-romana. O que danado é ‘inveja poética’? Se é inveja não é poética, nem ética! Porque a ética, é verdade, pode tratar da inveja, da emulação, mas a inveja despreza a ética. O que danado significa ‘fracasso moral da estética’? De qual moral estamos falando? Da moral burguesa? Sinceramente! Qual o poeta que não esconde a fonte onde bebe? Como poeta bissexto, escondo e revelo fontes. Sem maiores dificuldades coloco as cartas na mesa, porque nesse jogo de cartas – de cartas muitas vezes marcadas, e viciadas – uma das minhas cartas prediletas é a do coringa, do joker! Porém, como há muito não jogo nem pif-paf, buraco ou sueca, uso essa expressão ‘jogo de cartas marcadas’ como um dos inúmeros clichês que pululam por aí, em discussões de intelectuais de prestígio... - Ditirambo
    • Cássio: Biografia eu não sei, mas recomendo o filme do júlio bressane. No seu livro Cinemancia tem também uma tradução interessante da "epifania" de são jerônimo. - Help
    • Marcos Silva: Belo poema, bom poeta, boa tradução. Sugiro a alternativa: NÉVOA. Névoa vem em pés de gatim Senta e olha sobre porto e cidade ancas silêncio e se moveu - Névoa
    • Jarbas Martins: Tenho a honra e o dever de confessar que a tradução que fiz do poema "Dormire", de Ungaretti, publicado há alguns dias neste SP - teve a orientação do poeta Fernando Monteiro ! Obrigado, mestre Fernando, obrigado poetas Anne Guimarães e Lívio Oliveira. - Névoa
    • Nina Rizzi: "A capa já dá o tom da revista. Uma foto de Câmara Cascudo passeando de riquexó (uma espécie de carroça de duas rodas e movida a tração humana) em Moçambique, ao lado de uma pessoa não identificada. A foto - de autoria desconhecida - foi clicada em 1963, quando o folclorista estudava costumes e tradições africanos. As observações e anotações depois seriam o mote para o livro Made in África. A imagem foi cedida pela família. E a filha, Ana Maria Cascudo, escreve artigo contando as inúmeras viagens do pai, em um diálogo emblemático entre Natal e o estrangeiro." Viu, neguinho não existe não, ô rapá! - Tributo ao mar