A dívida

25 de janeiro de 2010 às 9:05 - Comentar
Por Laurence Bittencourt

Era noite. Jonas atravessou a Estação Paraíso a passos rápidos. Sua ânsia de chegar ao bar “X” era contrastada apenas pelo silêncio e calmaria que a Avenida do Contorno apresentava. Já passava das 23 horas quando finalmente ele chegou ao local avidamente buscado.

O local apesar de pequeno, dava a impressão pela distribuição interna, de ser maior do que realmente era. Dentro, ao todo havia apenas um balcão e oito mesas muito bem distribuídas. Três delas estavam vazias. O local, era arejado e limpo. Além do proprietário que ficava por trás do balcão, havia apenas um garçom que ficava circulando e levando os pedidos além de ficar limpando e retirando o que já havia sido consumido nas mesas. No canto esquerdo do salão, numa quase penumbra, ficavam instalados dois banheiros, com um desenho que indicava os nomes em letras garrafais por cima: HOMEM e MULHER.

À parte central do local, onde ficava o grosso das mesas e o balcão, havia luz, mas nada que mostrasse uma irradiação própria desses bares que de longe já se percebe uma intensa claridade. Havia discrição no lugar, o que sem dúvida comungava com a personalidade do novo proprietário.

A porta principal que dava acesso ao interior do ambiente, era no estilo “salom” dessas em que se vê em filmes americanos de faroeste antigo. Era uma porta velha deixada assim propositalmente pelo dono, para lembrar o clima dos velhos filmes. Essa fora a única característica não removida, quando o local passou de mãos, saindo do antigo proprietário para o atual há pouco mais de um ano. No entanto, a porta contrastava com o tom e pintura nova e recente das paredes internas e externas do local. Como a parte de dentro era pequena, se alguém parasse à frente da porta “salom”, podia claramente ver quem estava instalado dentro do Bar.

Jonas que acabara de chegar, parou na entrada, ajeitou o pequeno embrulho que trazia na mão direita, ajustou os óculos finos, e parou. Retirou a capa preta ainda molhada pela fina chuva que caia naquela noite e ajustou-a no braço.  Em segundos, como em um flash back, lhe veio à mente a primeira e única vez em que estivera naquele mesmo local, também numa noite fria e chuvosa, quando contava com apenas sete anos de idade acompanhado do seu pai. Já fazia bastante tempo.

Jonas era alto e magro, mas não esquelético. A magreza sob um paletó cinza claro, escondia, na verdade, um corpo bem torneado e adequado ao peso, com peitos e músculos bem ajustados ao formato geral. Os óculos redondos e de armação fina, lhe dava uma dureza no rosto, cuja impressão final era a de um homem sério, pouco falante. Mas nada grosseiro. Jonas, na verdade, era um pai de família dedicado, casado há mais de vinte e cinco anos, cujo amor que parecia “escondido” para quem não o conhecia de perto, sob um olhar sério e até certo ponto distante, era devotado à esposa e aos três filhos, cujo zelo e autoridade eram mantidos dentro dos limites de um padrão antigo e dignamente cultivados. A classificação de um trabalhador dedicado e um marido e pai devotado, seria uma boa descrição.

Jonas passou o pequeno embrulho para a mão esquerda e com a mão direita foi abrindo aos poucos a porta do Salão, o que permitiu ir adentrando calmamente e com cuidado para o centro do Bar. Mais uma vez ajustou rapidamente os óculos. Olhou para o centro do bar e para o lado esquerdo do ambiente e viu as oito mesas que estavam espalhadas adequadamente.

Antes de encostar-se ao balcão, percebeu a única mesa que ficava afastada das demais, colocada exatamente na lateral esquerda de quem olha de frente para o balcão, de tal forma, que parecia mais escondida que amostra. Pela pouca luz que recaia sobre ela, quase não enxergou que era uma das cinco mesas que estavam ocupadas. Ele olhou novamente de soslaio, rapidamente, e percebeu quem nela estava.

“Era ele”, não teve dúvida. Apesar da penumbra e do olhar rápido estava certo. Aproximou-se do balcão. O proprietário com uma calvície acentuada, olhou para aquele cliente que pela primeira vez visitava o local, e rapidamente se apressou em colocar dois tipos diferentes de copos sobre o balcão, como quem indagando com o gesto, que tipo de bebida aquele freqüentador novato iria pedir. Jonas sem repousar no balcão o embrulho que se encontrava em uma das mãos, nem a capa de chuva no braço, pediu uma dose de Whisky, acrescentando “sem gelo”. Olhou mais uma vez de soslaio. Não tinha dúvida, “era ele”. Tomou o whisky de um só gole e pediu outra dose apenas acenando com o dedo para o copo. Foi nesse momento, que o proprietário sentiu certo “ar” de preocupação no novo cliente. Mas nada falou e apenas executou o pedido.

Depois de terminado o trago e antes de pedir a terceira dose, Jonas olhou de frente para o freqüentador na mesa que se encontrava na lateral do balcão. Havia pouca luz, sim. Mais uma vez ele não teve dúvidas. Calmamente agora, tomou a terceira dose, colocando também calmamente o copo sobre a mesa.

O proprietário do bar era um homem de estatura baixa, atarracado, com poucos cabelos na cabeça, penteados para trás, o que deixava a calvície à mostra. Comprara aquele bar, depois que vira nos jornais o anúncio de venda que o antigo proprietário expôs em um dos jornais da cidade.

Jonas pediu outra dose. Foi então que o novo proprietário perguntou: “Vem de longe?”. À pergunta feita levou Jonas a olhar fixamente para Manoel, o dono do bar.

Após alguns segundos, respondeu: “Sim, de muito longe”, mas o longe, na verdade, não era no sentido geográfico e sim no tempo.  “Alguma cidade próxima?”, arriscou novamente buscando levar à frente a conversa. Agora, no entanto, a resposta obtida foi o silêncio. Jonas começou novamente a tomar lentamente a outra dose de Whisky. Nesse momento como que tomado por um impulso começou a se dirigir à mesa lateral, onde apenas um único ocupante se encontrava sentado. Com o copo na mão, além do embrulho e da capa, aproximou-se e antes de sentar, perguntou com voz calma e serena: “posso?”, apontando para uma das cadeiras vazias na mesa.

Ao ouvir a pergunta o homem que mais parecia dormir, começou lentamente a levantar a cabeça, até fixar os olhos nos de Jonas. Olhou-o fixamente por alguns segundos, e sem nada dizer, apenas acenou com a mão estendida indicando a cadeira.  Era o gesto que Jonas esperava.

Sentou-se. Puxando uma das cadeiras vazias da mesa, colocou o embrulho e a capa de chuva sobre ela. O homem que estava sentado apenas acompanhou seus gestos. Na verdade, não esboçou nenhum movimento que indicasse alguma vontade de iniciar uma conversa.  Sua atitude fora puramente cortês, quase mecânica.

Jonas olhou-o demoradamente e perguntou: “Seu nome é Otacílio?”. Com um olhar frio porém distante, o homem não apresentou qualquer reação de surpresa. Ao contrário. Continuou impávido e apenas baixou e levantou suavemente a cabeça confirmando.

Vendo a imobilidade do homem, Jonas continuou: “o senhor não me conhece…mas eu sou filho de Francisco Duarte de Medeiros, e hoje eu vim aqui saldar uma dívida antiga”. Sem emitir mais nenhuma uma palavra retirou de dentro do embrulho sobre a cadeira, uma arma calibre 38 e despejou seis tiros a queima roupa no homem a sua frente.

Comentários fechados.

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    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

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POESIA

    No bar
    08-02-2012 às 22:17 - 7 Comentários
    Por Jairo Lima

    Chegaste a mim não como lume
    Mas como Pergunta exposta na toalha sobre a mesa
    E com olhos irônicos fitaste o Vazio dos meus olhos
    E nos meus olhos te atiraste como um predador na rota de sua presa

    Na boca um sorriso zombava de futuros e certezas

    E eu te vi.
    Te vi como se vê mares e dunas
    Como coisas que são sem oráculos nem seitas
    Que não se anunciam, nem aguardam, nem ficam, nem se vão:
    Ali estavas de pé em frente aos panos da noite
    E parecia que contigo aquela noite estava feita

    Te vi coxas, riso, ombros e mãos
    Perdidos entre afago e maldição

    Enquanto o sol ainda se esconde tua mão me marca a pele e impõe fronteiras de posse
    Num corpo que já não é mais o meu e se entrelaça no teu e se contorce

    Os lábios se encontram e vão em busca dos vapores quentes da alma
    Se colam, se penetram, se invadem;
    Não são asas de pássaros, são patas de cavalo
    Destruindo colheitas

    Aquela noite só prometia suores
    Conquistados a cada beijo
    Os latifúndios do desejo
    Eram cada vez maiores

    (———–)

    Vim de longe
    Em hora incerta
    Vim de lunas
    Vim de céus perfurados de estrelas
    Vim de amores submersos em dores e desfeitas
    Para que celebrasses a consagração bizarra
    Que faz a carne virar pão
    O sangue virar vinho
    E a cama virar mesa
    Onde a fome dispõe as suas facas
    Para cortar as carnes e sugar a seiva

    (—————–)

    ******

    Tácito, aqui vai um pequeno FAQ para explicar porque voltei a enviar poemas:
    1. Porque JL parou de mandar poemas para o SP?
    Não sei
    2. E porque voltou a envia-los agora.
    Sei lá.

    COMENTÁRIOS

    • Marcos Silva: Anchieta: Obrigado, lerei e comentarei depois. - Ai Hay Hai
    • Fernando: Nossa, nunca li um artigo tão fraco como esse, nunca vi tantas falácias coligidas em um artigo de um abortista (não nos parece um jornalista, já que demonstra nada ter lido efetivamente sobre o aborto). Vejamo-las: 1) Aborto não é questão de controle populacional: mentira. Basta ver a origem da defesa do aborto nos EUA e basta ver quem financia o aborto ainda hoje. Para quem nada sabe do assunto, estudar a história das fundações Rockefeller, MacArthur e Ford pode ajudar. 2) Aborto é "direito reprodutivo". Direito??? Que absurdo! Além do absurdo, o termo maldosamente forjado para induzir a erro é incoerente: como pode um "direito reprodutivo" tirar uma vida? Ah, tem dúvida se é vida humana? Por favor, dá uma olhadinha aqui: abort67.com.uk 3) Ó loucura... "atendimento de qualidade" e "sem preconceito" do Estado para ajudar uma mulher a matar o próprio filho. Quanto amor, quanta bondade! Quer saber? Chega de ironia, falemos a verdade: que nojo, quanta hipocrisia! Por que não propor educação sexual para valorização da mulher, do corpo, do próprio sexo, ao invés de louvar o sexo irresponsável que gera vida e que deve terminar em assassinato "de qualidade" e "sem preconceito"? Repito, gritando: QUANTA HIPOCRISIA, QUANTA HIPOCRISIA ASSASSINA MENTIROSA travestida de luz. Típico de quem quer fazer o mal. 4) Ah, o velho conceito da luta de classes para transformar o assassinato de bebês em "questão de saúde pública": mulher rica aborta com segurança, mulher pobre aborta e morre. MENTIRA HORROROSA!! Uma simples consulta ao SUS desmistifica essa mentira. O aborto como causa de morte de mulheres está LONGE, MUITO LOOOOOOOOOOONGE de ser questão de saúde pública. Mas é claro que este abortista (jornalista? Não... já não resta dúvida) está mal informado, lendo pesquisas financiadas pelas ONGs abortistas que sabidamente MENTEM para jornalistas divulgando números falsos que eles irresponsavelmente repassam para pressionar a opinião pública. Deem uma olhadinha aqui (é só uma das evidências...): http://boletimfedf.blogspot.com/2011/03/os-controversos-numeros-do-aborto-e.html 5) Como é fácil ter opinião diferente sobre o feto quando você não foi abortado, né japonesinho? Que lindo que soa aos ouvidos menos instruídos "direito sobre o próprio corpo". Que sorte a sua que sua mamãe (e seu papai, coitado! Não o reduza a nada! Ele também quis que você viesse ao mundo... Como você pode tirar dele o direito de amar você?) - que sorte que ela não pensou como você!! Afinal, seu corpinho não era nada, não é? Era uma unha encravada da mamãe, não é? Se você tem dúvida sobre "que corpo" é mutilado, se o da mamãe ou o do bebê, recomendo novamente este videozinho instrutivo: abort67.com.uk 6) Ave, e o que dizer da tese - histérica - de que "religiosos estão se intrometendo na questão!!! O Estado é laico!!" Será que não existe um ateuzinho que não concorde com a matança de bebês? Acho que existem sim. Muitos. Mas é mais fácil ser ignorante (ou maldoso) e criar uma guerra religiosa. Abjeta, como aliás têm sido todos os supostos "argumentos" até aqui para defender a matança de bebês gerados irresponsavelmente. 7) E o autor - que por sinal demonstra ter um elevadíssimo autoconceito, um amor-próprio no mínimo... doentio, para usar um eufemismo - ainda tem o fingimento de se apresentar aos leitores como alguém que está preocupado com a dignidade alheia, quando se acha no direito de decidir quais dos mais novos membros da espécie humana devem ou não viver. Como é triste a cegueira humana! É surpreendente até que ponto alguém ensimesmado consegue perder a noção da realidade! - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: É, Alex de Souza... "seus corpos" - abort67.com.uk - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • chico m guedes: coisas de Jairo eu sempre me pego lendo em voz alta; é quase táctil (quase?) - No bar
    • Daniel Menezes: Ótima reflexão. - Yoani Sánchez, a direita e a esquerda
    • Jairo Lima: Brigado, Nina, sou leitor atento e empolgado de tua poesia. - No bar
    • Anchieta Rolim: Marcos Silva, caso tenha interesse dê uma olhada nesse blog: araguaiahistoriaemovimento.blogspot.com Um abraço! - Ai Hay Hai
    • Marcos Silva: Aprendi a sentir Anne como mais que irmã, pedaço de mim, essas coisas que uns e outros consideram sentimentais mas são apenas sentimentos que nos diferenciam dos computadores. Grande beijo. - Ai Hay Hai
    • Anchieta Rolim: Gostei muito da matéria. E pra quem interessar, segue o blog do meu amigo João Carlos Wisnesky que foi um dos guerrilheiros do Araguaia e que ainda continua sua luta para esclarecer esse fato histórico. araguaiahistoriaemovimento.blogspot.com - À sombra da ditadura
    • Nina Rizzi: Gosto muito. E o meu gostar tem a pretensão dos desejos mais pungentes. Um beijo :) - No bar