A fotogenia do vento

24 de março de 2010 às 11:42 - Comentar
Por fernando monteiro

Michelangelo Antonioni tinha uma percepção naturalmente visual das coisas, como se pode perceber de uma pequena observação sua que parece simples, mas é, na verdade, daquela leveza complexa do vôo de uma pluma:
“Como é fotográfico o vento!”
A primeira reação é pensar no vazio que a curta frase abstratamente contempla, até que vemos, por exemplo, o vento agitando as copas das árvores (como no parque inglês da obra-prima de Antonioni, “Blow-up”).
Então, percebemos a sutileza do olhar do “poeta das imagens”, conforme Antonioni era chamado. Entretanto, não é preciso ser um poeta (das letras ou do cinema) para saber enxergar além da paisagem cotidiana. É preciso, apenas, ver com o olhar que “descansa” do foco exato, do centro da atenção geralmente desviada do lateral ou do periférico.
O diretor dizia que treinou o olhar em Ferrara, a cidade onde ele nasceu (em 1912), e que hoje tem um museu dedicado à sua vasta obra.
Lá, as imagens de alguns filmes memoráveis revelam as névoas da sua cidade natal, o vazio das avenidas de Milão – com os fios molhados dos postes, na chuva –, os jardins das mansões romanas, e (extremo cuidado), a grama que Michelangelo mandou pintar de verde!, a fim de realçá-la, durante as filmagens do mesmo Blow-up. O realizador explicou, mais tarde, que o fez pensando nas tomadas noturnas, quando a relva talvez fosse parecer “normalmente” mais cinzenta do que daquela cor bem nuançada na frase do pintor Paul Gauguin: “Um quilo de verde é mais verde do que meio quilo”.
O que vale para as outras cores, e também vale para incentivar uma atenção visual mais próxima de descobrir a beleza nas mais simples coisas. Na sua modéstia, elas não são vistas, mas apenas olhadas – como um carrinho de bebê, pungentemente vermelho, sobre a relva não-pintada.
Tenham certeza: ter o olhar intensificado para ver (realmente ver) coisas assim, é como respirar mais largamente, num mundo menos poluído pelo “feio”. Por preguiça ou pressa – ou, pior, pelas duas combinadas – nos afastamos da visão dos Michelangelos que existem dentro de nós. Sabe-se que nem todos são capazes de escrever belos poemas ou de realizar filmes importantes etc, porém todos são capazes, sim, de ver as coisas mais do que ao acaso, no pleno mistério do que acontece e do que não-acontece (justamente o tema de Blow-up, que – para quem não conhece o filme de 1966 -, eu recomendo, procurem nas locadoras de DVD, sob o estranho título brasileiro “Depois daquele beijo”).
Depois, tentem ver e rever tudo – se possível – com uma atenção que nada perca (ou nada deixe passar) do universo que muda a cada hora, sob a aparência dos minutos para sempre mergulhados no tempo que não retorna a fim de captarmos a “fotogenia do vento” e outras surpresas.

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  • Museu de Arte Moderna do Rio abre mostra cancelada de Nan Goldin

    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

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  • OUTROS EVENTOS

POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - Comentar
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • Anchieta Rolim: "Tá legal, eu aceito o argumento." Valeu Marcos. - À sombra da ditadura
    • chico m guedes: penso que quem acha que os valores em relação à vida introduzidos pelo cristianismo na civilização ocidental são só uma questão de crença pessoal, ou ignora brutalmente a história, ou, o que é pior, se auto-ignora enquanto fruto dessa civilização. sugiro um passeio imaginário ao coliseu romano num dia de espetáculo pagão. (em joguinho cyber ou seriado de tv não vale). claro que a sociedade ocidental moderna já abriu espaço para tornar o aborto uma questão de "foro íntimo das mulheres" (a mesma sociedade que vai em marcha batida pra nos transformar em mero 'produto', aliás). apois, apesar de toda essa mudernage, desconfio que entre nós filhos do cristianismo, pelo menos por mais um milênio, matar um feto (não venham com eufemismos que é disso que se trata) ainda será sentido e vivido como uma mancha moral (o que é o 'pecado', afinal?). mesmo que ele venha a ser descriminalizado. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Yuno, seu comentário rebaixando o cristianismo revela um preconceito fortíssimo. Nestes termos, é impossível realizar um 'debate amadurecido" que você diz querer. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Eu tacito, celina ,Abimael Noite de banda aluanda. Ribeira bordas navarro Quase carnaval amigos Maésia , Paulo, outros. Não naõ não lembro nome seca Elói. E tu andas estava. - Cena Aberta e transparente
    • José de Paiva: Seja bem vinda Glória Braga Horta ao SP e obrigado por ler o meu texto. Obrigado também pela generosidade dos amigos de sempre. Clarissa Torres, gosto muito das obras de Schiele, elas me inspiram. - Rita louca
    • Marcos Silva: Gosto muito daquela canção de Paulinho da Viola que diz: "Faça como o velho marinheiro que durante o nevoeiro leva o barco devagar". - À sombra da ditadura
    • gustavo de castro: E quem disse que os valores cristãos é que devem predominar? Foi Cristo ou os cristãos? - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Anchieta Rolim: Oreny, bela poesia! - Vento nordeste
    • Anchieta Rolim: Concordo marcos, inclusive quando João Carlos voltou da guerrilha continuou sua luta junto a artistas como Gonzaguinha, Paulinho da Viola e vários outros... Fazia parte do grupo o ex-jogador Afonsinho (aquele que lutou pela lei do passe livre para os jogadores de futebol), e também o cantor e compositor Potiguar Mirabô Dantas. - À sombra da ditadura
    • Marcos Silva: Certamente, existem ONGs sérias. Infelizmente, a desqualificação geral tende a se tornar corriqueira. Lembro que ela aparece com todas as letras no filme Tropa de elite (I). - Brado retumbante