A genial Hilda Hilst
23 de agosto de 2010 às 9:43 - Comentar
“Todos nós estamos na sarjeta, mas alguns de nós olham para as estrelas.” Oscar Wilde
“E quem olha, se fode”. Lory Lamby
Muito instigante o documentário sobre a escritora Hilda Hilst, apresentado pela Rede Minas e reproduzido aqui no SP (19 de agosto).
A maior parte dos comentários é de Jose Luis Mora Fuentes, escritor, amigo fiel e incansável de Hilda.
No documentário Mora Fuentes aponta: “Hilda sempre optou pelos caminhos que não são óbvios, rompendo padrões na sua vida, na sua obra”. Ou ainda: “Ela queria agredir um pouco as pessoas, deixar todo mundo chocado aí ela começou com a Lory Lamb”.
O Caderno Rosa de Lory Lamby, juntamente com Cartas de um sedutor e Contos d’Escárnio/Textos Grotescos, faz parte da trilogia erótica de Hilda Hilst.
O caderno rosa de Lory Lamby é a obra mais instigante e polêmica da escritora. Escrito em forma de diário, trata das confissões de uma menina de oito anos de idade que vende o corpo estimulada pelos pais.
A primeira pessoa convidada a fazer as ilustrações do livro recusou o trabalho. Coube então, ao cartunista Millor Fernandes a corajosa tarefa. “Dois velhos que perderam a vergonha”. Disseram à época sobre Millor e Hilda.
Com O Caderno Rosa de Lory Lamby, Hilda Hilst nos confronta com a evidência da realidade sexual infantil, cujas revelações de Freud em 1905, causaram e causam perturbação até hoje.
Lory Lamb é uma menina de apenas oito anos que fala muito à vontade sobre suas aventuras sexuais e do prazer que ela desfruta. Trata-se na realidade de fantasias que escreve no seu caderno rosa na tentativa de auxiliar o pai escritor, cujo editor queria que ele escrevesse textos com apelos eróticos para que vendesse bastante.
O texto foi adaptado para o teatro e quando a peça foi encenada houve protestos bastante inflamados por parte da platéia e até quem considerasse que Hilda fazia apologia à prostituição infantil.
Mora Fuentes em texto de sua autoria, intitulado “O caderno rosa de Hilda Hilst” comenta que, à semelhança da criança da fábula que grita “O Rei está Nu”, Lory investe principalmente contra o engodo e a hipocrisia.
Com a morte de Hilda em 2004, a casa do sol e seu legado artístico ficaram sob a responsabilidade do escritor que, três dias depois de ter concedido a entrevista, objeto do documentário, morreu vítima de AVC.
A poeta, dramaturga e ficcionista em entrevista publicada em 25 de dezembro de 1999 no caderno “Prosa & Verso; jornal “O Globo”: “Podemos ser muito geniais ao morrer. As últimas palavras de Kafka foram “Para o poço, para o fundo do poço filho de reis”. Rimbaud despediu-se da sua irmã, refe¬rindo-se ao dia seguinte da sua morte, dizendo “Eu estarei embaixo da terra e tu caminharás ao sol”. Eu apenas diria “Que maçada”. Daqui há 50 anos serei considerada genial. Principalmente quando morremos podemos ser geniais.

