A guerra desembestada

25 de junho de 2010 às 9:32 - Comentar

Norman Solomon
Huffington Post – Vi o Mundo

Traduzido por Caia Fittipaldi

Troca-se o motorista, com o carro está derrapando. Trocam-se os generais, Petraeus assume o comando geral no Afeganistão; e o esforço de guerra dos EUA prossegue, só carnificina e futilidade.

Nas entrelinhas, tudo já estava escrito. Horas antes de o general Stanley McChrystal apresentar-se ao presidente Obama na 4ª-feira, o New York Times noticiava que “a fuzilaria está sendo alimentada por dúvidas crescentes – também entre os militares –, sobre se é possível vencer no Afeganistão, ao mesmo tempo em que encolhe o apoio da população àquela guerra de nove anos; e cresce como nunca o número de mortos norte-americanos.”

Pouca diferença faz agora, para McChrystal, que os jornais tanto tenham falado dos seus hábitos pessoais espartanos (praticamente nem come nem dorme), da energia física (corre freneticamente) e dos sucessos acadêmicos (lê História) e militares. Não há indivíduo insubstituível.

McChrystal é estrela cadente há muito tempo. Alguns dias antes de a matéria de Rolling Stone acelerar a queda repentina dos píncaros da glória de fazedor de guerras, Joe Klein, com a sabedoria convencional do Time Magazine, já não usava meias palavras, ao avaliar os resultados obtidos por McChrystal: “Seis meses depois de Barack Obama ter anunciado sua nova estratégia para o Afeganistão em discurso em West Point, a estratégia continua em sinuca [ing. stymied].”

Essas expressões, “em sinuca” e “num beco sem saída” [ing. stalemate], têm sido frequentemente usadas em referência à guerra do Afeganistão. O que de modo algum significa que os militares norte-americanos considerem a retirada.

Walter Cronkite usou a expressão “beco sem saída” em famoso comentário, aos telespectadores da rede CBS, em fevereiro de 1968, pela rede CBS, quando disse que já era impossível, para os EUA, vencer a guerra do Vietnã. “Temos nos frustrado já vezes demais pelo otimismo dos líderes norte-americanos, no Vietnã e em Washington, para continuar acreditando nos tons prateados que eles veem até nas nuvens mais escuras” – disse Cronkite.

E continuou: “Já parece impossível não ver que a sangrenta experiência do Vietnã acabará num beco sem saída.”

Vendo ou não vendo o beco sem saída, a guerra dos EUA no Vietnã prosseguiu por outros cinco anos depois daquele comentário, gerando horrores e mais horrores indizíveis em escala vastíssima.

Como milhares de outros ativistas norte-americanos, tenho alertado para a escalada da guerra do Afeganistão já há muito tempo. Cresceu a oposição à guerra, mas a situação hoje não é muito diferente da que descrevi em artigo de 9/12/2008: “Há, implícita na panaceia receitada pelos especialistas em política externa nos EUA, uma fé monolítica na massiva capacidade do Pentágono para produzir violência e infligir sofrimento. E o eco responde: a guerra do Afeganistão bem vale o preço que outros pagarão.”

Os eventos mais recentes refletem as regras não escritas que regem os comandos militares: tudo bem, se você quiser aprofundar uma matança horrenda. Mas nem pense em falar mal do comandante-em-chefe!

Fato é que os aspectos mais profundos do artigo “The Runaway General” [O general desembestado] da revista Rolling Stone pouco têm a ver com o general. O ponto de partida é – ou deveria ser – que a guerra dos EUA no Afeganistão é desastre sem solução; por mais que sejam insaciáveis os argumentos dos militares que aumentam, dia a dia, o desastre.

“Em vez de iniciarem a retirada ano que vem, como Obama prometeu, os militares insistem em levar adiante aquela campanha de contraguerrilha, e cada vez maior” – lê-se em Rolling Stone. E “a contraguerrilha só conseguiu criar demanda perpétua pelo único produto primário que os militares sempre têm para vender: guerra perpétua.”

Há um tom lamentoso e sombriamente patético nas últimas palavras do editorial do New York Times que chegou aos lares e gabinetes poucas horas antes de o general enfrentar o comandante-em-chefe: “Seja o que for que decida fazer com o General McChrystal, é indispensável que o presidente Obama assuma imediatamente o controle de sua política para o Afeganistão.”

Como inúmeros outros veículos de mídia em todo o país, o conselho editorial do Times continua agarrado ao sonho da guerra antiguerrilhas universal comandada pelos EUA. (…)

Houve furiosa discussão sobre a demissão de um general desembestado terminal. Mas falta ainda, desesperadamente, por fim àquela guerra desembestada.

O artigo original, em inglês, pode ser lido dando um Google em: From Great Man to Great Screwup: Behind the McChrystal Uproar

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    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - Comentar
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • Jarbas Martins: Muito bom, Bortolotto.Mas eu não trocaria um parágrafo de Adriano de Souza, ou um capítulo de um ciberfolhetim de Carlão, por tua prosa requentada. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
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    • chico m guedes: penso que quem acha que os valores em relação à vida introduzidos pelo cristianismo na civilização ocidental são só uma questão de crença pessoal, ou ignora brutalmente a história, ou, o que é pior, se auto-ignora enquanto fruto dessa civilização. sugiro um passeio imaginário ao coliseu romano num dia de espetáculo pagão. (em joguinho cyber ou seriado de tv não vale). claro que a sociedade ocidental moderna já abriu espaço para tornar o aborto uma questão de "foro íntimo das mulheres" (a mesma sociedade que vai em marcha batida pra nos transformar em mero 'produto', aliás). apois, apesar de toda essa mudernage, desconfio que entre nós filhos do cristianismo, pelo menos por mais um milênio, matar um feto (não venham com eufemismos que é disso que se trata) ainda será sentido e vivido como uma mancha moral (o que é o 'pecado', afinal?). mesmo que ele venha a ser descriminalizado. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Yuno, seu comentário rebaixando o cristianismo revela um preconceito fortíssimo. Nestes termos, é impossível realizar um 'debate amadurecido" que você diz querer. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Eu tacito, celina ,Abimael Noite de banda aluanda. Ribeira bordas navarro Quase carnaval amigos Maésia , Paulo, outros. Não naõ não lembro nome seca Elói. E tu andas estava. - Cena Aberta e transparente
    • José de Paiva: Seja bem vinda Glória Braga Horta ao SP e obrigado por ler o meu texto. Obrigado também pela generosidade dos amigos de sempre. Clarissa Torres, gosto muito das obras de Schiele, elas me inspiram. - Rita louca
    • Marcos Silva: Gosto muito daquela canção de Paulinho da Viola que diz: "Faça como o velho marinheiro que durante o nevoeiro leva o barco devagar". - À sombra da ditadura
    • gustavo de castro: E quem disse que os valores cristãos é que devem predominar? Foi Cristo ou os cristãos? - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Anchieta Rolim: Oreny, bela poesia! - Vento nordeste
    • Anchieta Rolim: Concordo marcos, inclusive quando João Carlos voltou da guerrilha continuou sua luta junto a artistas como Gonzaguinha, Paulinho da Viola e vários outros... Fazia parte do grupo o ex-jogador Afonsinho (aquele que lutou pela lei do passe livre para os jogadores de futebol), e também o cantor e compositor Potiguar Mirabô Dantas. - À sombra da ditadura