A Hora Certa

Ana Cláudia Trigueiro
DestaqueLiteratura

No hospital onde ele nasceu, a mãe dela era enfermeira.
Na rua onde ele cresceu, a tia dela visitava uma amiga.
No cemitério onde o pai dele foi enterrado, os avós dela também foram.
Na escola onde ele estudou, a prima dela estudava.
No dia do alistamento dele, o irmão dela também se alistou.
Na mesma faculdade, estudavam em turnos diferentes.
Na escola onde ele era professor, ela não conseguiu emprego.
No casamento dele, a tia dela compareceu.
O amante da esposa dele, ela conhecia de vista.
No SINE, em busca de emprego, ele sentou na frente dela.
No fórum onde ele assinou os papéis da separação, o pai dela era segurança.
A ponte de onde ele quase pulou, ela atravessou inúmeras vezes.

Naquele dia em especial, caminhava sem pressa, distraída com a paisagem. Viu de longe, o homem que olhava quase debruçado, para baixo. Continuou a observá-lo ao mesmo tempo em que ele se debruçava cada vez mais.
– Moço, não faça isso!
Ele fingiu que não ouviu.
– Vai acabar caindo!
Ele subiu na murada e ela compreendeu.
– Não! Moço não faz isso!
– Me deixe em paz!
Ela parou bem próximo. Olhava para cima agora. A bolsa no chão.
– Não faz isso, pelo amor de Deus!
– Vá embora.
Mas ela segurou as pernas dele com força e jogou o corpo para trás. Ele caiu por cima, machucando seu estômago. Ela ficou sem ar, ele esqueceu momentaneamente sua amargura e a ajudou.
– Meu Deus, perdão, perdão! Não sirvo para nada mesmo!
– Que é isso! Melhor eu me machucar do que você cometer esse desatino!
Preocupado com ela, ele acabou desistindo de pular. Foram juntos à casa da mãe dele, onde o abatido rapaz passara a viver, após o divórcio. Conversa vai, conversa vem, tornaram-se amigos. Conseguiu encaixá-lo como professor de inglês na escola onde era professora de português. Começaram a namorar, casaram dois anos depois e tiveram a primeira filha. A avó da criança estava no hospital trabalhando, como há trinta e dois anos.
A tia dela foi visitá-los e deu um abraço apertado naquele rapaz, filho de uma amiga que morava na travessa Mário Negócio. Ele enfrentara inúmeras dificuldades na vida, até que em um dia especialmente crítico, aquela moça atravessou-lhe o caminho. Era a pessoa certa, no lugar certo, na hora certa.

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Ana Cláudia Trigueiro

Comentários

5 comments

  1. joão carlos 29 agosto, 2017 at 10:40

    Parabéns por mais esse fragmento da vida real. Trazer o cotidiano na perspectiva do trabalho como algo estruturante na vida é forte e bonito! Já esperando o próximo…

  2. EDILBERTO CLEUTOM DOS SANTOS 29 agosto, 2017 at 12:01

    Muito bom! Quase pulei com o rapaz e me perdi nos desencontros antes do elo final.

  3. Anselma Duarte 29 agosto, 2017 at 14:06

    Parabéns! Minha linda !! Ñ foi a toa quando olhei pra moça linda sentada ,quase do meu lado,enxerguei uma mulher ,por fora linda,mais o meu olha foi além,enxerguei a sua alma de poeta! enxergar tudo como um encanto,consegue ver beleza,num grão de areia,O carinho do vento .O seu olhar tem filtro ,um olhar de amor e qdo fala é como tivéssemos escutando uma melodia.
    Amo! vc de coração.
    Parabéns minha querida!
    Amei qdo encontramos para escrever sobre as nossas vidas!.

  4. Edmar Cláudio
    Edmar Claudio 9 setembro, 2017 at 19:40

    Quantas vezes nos deparamos com pessoas que enfrentam situações desesperadoras em suas vidas e que precisam, tão somente, de uma mão amiga que lhes amparem e de uma alma sensível que lhes ouçam os clamores. Mais que o conto de um encontro de almas gêmeas subentendo uma parábola onde denota-se o amor, a solidariedade e a piedade.

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