A lama sangue dos coturnos
26 de fevereiro de 2012 às 23:11 - ComentarNO NOVO JORNAL
As Forças Armadas brasileiras, hoje, merecem todo nosso respeito.
Todo o respeito do país que precisa de um aparato militar de defesa da
soberania nacional. E guardiã das fronteiras.
Mas não precisa de políticos fantasiados de generais. Onde os quartéis
eram núcleos de conspiração e abrigo de partidos perdedores de eleições.
O Império foi derrubado por um golpe militar. A república inicial
montou-se na esperteza de políticos profi ssionais, usando a ingenuidade
de militares desprovidos da malícia politiqueira.
E assim usaram e descartaram Deodoro. Usaram e descartaram Floriano.
Ainda usaram Floriano para a tentativa de derrubar Prudente.
Da sucessão de Prudente, Campos Sales, Rodrigues Alves, Afonso
Pena e Nilo Peçanha, a trama se desenrolava entre as convenções do Partido
Republicano e o humor dos quartéis. Até desaguar na eleição do General
Hermes, tio de um nepote que serviu de pretexto para esvaziar o
prestígio do Império agonizante.
Das animosidades insanáveis entre Marinha e Exército, uma aristocrática
e monarquista; o outro, republicano e plebeu; navegavam os conspiradores
insatisfeitos de cada época. E assim foi até a década de vinte.
Com o advento das ideias “revolucionárias” e novidadeiras da Europa,
os militares brasileiros se politizaram teoricamente e criaram o primeiro
núcleo escancarado da busca pelo poder. Era o “partido” do tenentismo.
Que durante décadas, idade e promoções foram saindo do papel
de “grupo de pressão” a serviço da conspiração, para encampar, eles próprios,
ex-tenentes e agora generais, a própria feição do poder.
E puxaram o tapete dos aliados conspiradores. Enganaram Lacerda,
traíram Magalhães Pinto, usaram Adhemar de Barros, cassaram Juscelino.
E montaram um esquema político de apoio irrestrito; Antônio Carlos
Magalhães, Petrônio Portela, Dinarte Mariz, dentre outros, que fantasiavam
a face “democrática” do regime para os olhos do exterior.
Enquanto prendiam, exilavam, torturavam, matavam sem qualquer
demonstração de culpa. Desfi braram a alma da pátria. Humilharam e
desumanizaram duas gerações. Fizeram da ditadura Vargas apenas uma
imagem pífi a da crueldade.
E ainda querem, os que restam da reserva, cantarolar sobre o esquife
da pátria enxovalhada. Canto rouquenho de rapina saudosa da carniça.
Ainda há sangue não coagulado. Nas manchas guardadas por mães
e cônjuges, em trapos reais ou imaginários, num permanente e insuportável
cheiro de súplica, como disse o poeta Alverga no seu Inventário das
Cicatrizes.
Pendurem seus coturnos, políticos sem votos, fantasiados de generais.
Traidores dos próprios juramentos.
Quando ressecada, pelo furor do tempo, começar a virar cacos caídos,
verão, pela fresta que a chama faz na escuridão, escorrer mais sangue
do que lama. Té mais.






