A leitura movida a cliques

12 de abril de 2010 às 22:25 - Comentar

Por Sérgio Augusto
No O Estado de S.Paulo

Aderi ao Kindle. A bem dizer, resolvi experimentar o Kindle. Sem gastar um tostão com o leitor eletrônico da Amazon. Ganhei acesso aos livros eletrônicos (e-books) comercializados pela maior livraria virtual do mundo via Kindle for PC. Economizei em torno de R$ 900, que é quanto custa aqui a versão global do mais badalado dos e-readers.

A oferta era irresistível: do site da Amazon.com você baixa, gratuitamente, um software que lhe possibilita ter um Kindle no computador; depois, é só comprar os títulos disponíveis em versão eletrônica, que chegam ao seu computador em questão de minutos. Como não leio na rua e ainda prefiro me distrair em salas de espera com livros impressos, o Kindão (ou seja, meu laptop dotado de Kindle) dá pro gasto. Se não for melhor: sua tela LCD, com tecnologia XBRITE, tem luz própria, um chuá no breu.

Sou bibliófilo juramentado, mas não um ludita – e, acima de tudo, um curioso das chamadas novas tecnologias. Menos avesso à leitura na tela de um computador que a maioria das pessoas, considero uma imensa vantagem a possibilidade de navegação oferecida por qualquer hipertexto. Quantas vezes Machado usa, em Dom Casmurro, a palavra “ciúmes”? Resposta: 14. Tente computá-las e encontrar cada uma delas na versão impressa do romance. Também só na versão e-book de Guerra e Paz posso ir direto, em segundos, ao duelo de Pedro com Dolokhov ou a qualquer outra passagem do caudaloso romance.

Gostei, com reservas, do Kindle for PC. Faltam-lhe alguns recursos do Kindle (opção áudio, mecanismo de busca, anotações e realce), prometidos sine die pela Amazon, mas é possível alterar o tamanho da fonte e marcar páginas, o que ainda é pouco para justificar uma opção pelo livro eletrônico, que, mesmo em sua mais bem acabada encarnação, exagera nas esquisitices.

Páginas sem números, por exemplo. No lugar da numeração tradicional, temos, no rodapé, algo chamado “location”. Na versão digital de A History of Histories, de John Burrow, a informação de como Edward Gibbon teve o estalo de historiar a queda e a ascensão do Império Romano (flanando pelo Capitólio, em 15 de outubro de 1764), não fica na página tal, mas na “location 6.335-47″.

Comecei minha kindleteca com mais dois ensaios que precisava ler com urgência, Reality Hunger, de David Shields, e You Are Not a Gadget, de Jaron Lanier, seguidos de algumas amostras grátis, para eventual compra, entre as quais o último romance de Don DeLillo, Point Omega. Eis o que mais nos move a recorrer à versão digital de um livro: a pressa de consumi-lo. Se pudesse comprá-lo, impresso, na livraria da esquina ou recebê-lo pelo correio em menos de 24 horas, minha kindleteca teria menos títulos que a mesinha de cabeceira de um BBB – até por ser ínfima a diferença de preços entre os livros e e-books recém-lançados. Solar, o mais novo romance de Ian McEwan, sai por US$ 15.75 em capa dura, e por US$ 14.99 na versão eletrônica.

Há livros baratos e mesmo de graça no acervo Kindle da Amazon, mas lixo, nem de graça, certo? Há clássicos que nada custam, é verdade, pechincha inócua para quem já os leu com lombada e deles não se desfez. O catálogo de e-books da Amazon, praticamente restrito a obras em inglês, tem muitos furos. Nada de Nabokov, Greene, Bellow, Salinger, Pynchon, Edmund Wilson, Mary McCarthy, Gore Vidal. De John Cheever, só uma modesta seleta de oito contos. De J. M. Coetzee, seu último romance, Summertime: Fiction, e olhe lá.

Duvido que o livro, o maior artefato civilizador inventado pelo homem, esteja com os dias contados. Não tenho como provar sua imperecibilidade, mas como seus tecnófilos coveiros tampouco têm como provar a inevitabilidade de sua obsolescência, fiquemos no concreto: o livro tem 550 anos de serventia e seu avatar eletrônico, menos de 20 anos de experimento e alguns meses de modismo. Frívolo modismo, em muitos casos. Gente que não tinha o hábito de ler – gostar de ler, eis a questão – não modificará seus hábitos motivada, exclusivamente, pelo Kindle.

Assim como o CD não acabou com o vinil, o cinema não acabou com o teatro, nem a TV com o cinema, por que duvidar que algo tão prático e entranhado em nossas vidas como o livro impresso possa desaparecer para sempre? Seu desaparecimento seria inevitável sobretudo por razões econômicas, já que as crescentes despesas com papel, impressão, encadernação e distribuição tendem a inviabilizar a produção do livro tal como o conhecemos. Ocorre que os gastos com todos aqueles itens devoram apenas 20% de seu preço de capa.

Das notórias vantagens do livro eletrônico (suas páginas não viram à nossa revelia, ao sabor do vento; se um é roubado, compra-se outro e baixam-se de novo os títulos já adquiridos, etc.), nenhuma é mais enaltecida que a sua portabilidade e sua capacidade de armazenamento. Num Kindle, cabe uma biblioteca inteira. Mas quantos tomos somos capazes de devorar num feriado ou nas férias?

A despeito do enorme potencial do livro eletrônico, seu sucesso ainda é, et pour cause, relativo. Caro, ele responde por apenas 5% do mercado de livros e o grosso de sua freguesia pertence à geração baby boomer (gente na faixa dos 46-64 anos). A clientela mais jovem talvez estivesse esperando pelo iPad, o superKindle que a Apple afinal lançou no sábado passado e cuja variedade de recursos deixa no chinelo todos os leitores eletrônicos existentes no mercado.

O iPad é um misto de e-reader com notebook, TV e celular inteligente, e suporta imagens em cores, ao contrário do Kindle e similares, monocromáticos e monocórdios. Até luditas enrustidos gostaram do brinquedo, mas ainda é prematuro proclamar Steve Jobs como o Gutenberg do novo milênio.

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OUTROS EVENTOS

POESIA

    Névoa
    16-05-2012 às 9:40 - 7 Comentários
    Por Jarbas Martins

    Carl Sandburg

    Vem a névoa
    em breve pisar de gata.

    Queda-se olhando
    o porto e a cidade
    sentada em seu silêncio e
    esgueirando-se em seguida.

    (Tradução de Jarbas Martins)

    * * *

    Fog

    The fog comes
    on litlle cat feet.

    It sits looking
    over harbor and city
    on silent haunches
    and then moves on.

    (Carl Sandburg, “Selected Poems”, G.Books,1992)

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: Amigo Carlão, Vejo com muita alegria a sua inquietação e leitura. Tb indico fortemente o livro .Jerônimo, A Técnica do Livro de autoria do grande Dom Paulo Evaristo Arns ( Sua tese de doutorado) , trad. de Cleone Augusto Rodrigues e prefácio de Alfredo Bosi . Belíssimo livro em capa dura Jeronimo traduziu a vulgata da biblia e é considerado o patronomo dos bibliófilos e amantes do livro. Saudações bibliófilas. ab imo corde - Help
    • edjane linhares: Muito lindo, Jarbas. A experiência do haicai, como Fernando nos lembrou, ajuda muito neste processo de contemplação e silêncio, ato solitário e sublime. Quero agradecer a homenagem às mães no seu último haicai (único vestígio da data por aqui). Aguardo coletânea deles. Um abraço. - Névoa
    • Jarbas Martins: Amigo Jóis: gosto da sua poesia e da sua prosa digressiva, inflada de saberes e sabores, biscoito fino para raros paladares.Nem precisava dizer isso, mas como em seu comentário você se reportou a um incógnito Aguinaldo Soares, usando termos utilizados por ele contra mim - deu-me vontade de voltar ao assunto. Repito mais uma vez: Aguinaldo Soares sabe escrever, e a expressão "sólida cultura" é tão infeliz que não me restou outra alternativa: pedi desculpas ao ilustríssimo desconhecido.Não conheço o Aguinaldo, mas presumo que ele, como eu, temos algo em comum: fizemos o curso de direito.Daí o nosso gosto pelas sentenças líquidas e certas. Abraços, Poeta ! - Ditirambo
    • Marcos Silva: Li um livro interessante sobre Jerônimo, A Técnica do Livro Segundo São Jerônimo, de Paulo Evaristo Arns - Help
    • Jarbas Martins: Tradução inventiva a tua, Marcos. Nenhuma novidade nisso. Você é um reconhecido mestre na arte tradutória. - Névoa
    • Jóis Alberto: O poema é bom! Afirmo isso, embora não tenha plena consciência do ofício de poeta. Porque se eu for intelectual, sou dos mais incompletos – em meio a preconceitos, totens e tabus, como vocês já tiveram oportunidade de ler mais de uma vez, aqui neste democrático SP. Além do mais, como posso ter sólida base cultural nesses tempos em que tudo que é sólido se desmancha no ar? Tempos de modernidade e amores líquidos, de fodas em excesso e entediadas, blasé até – foda blasé é ‘foda’! – de gente que trepa com a mesma rotina de quem escova os dentes, tema objeto das sátiras ingênuas de meia dúzia dos meus poemas eróticos. Ingênuas não só se comparadas às sátiras e poemas eróticos/pornográficos de um grande poeta, Bernardo Guimarães, por exemplo, mas ‘ingênuas’ também no sentido libertino, filosófico, da palavra ‘ingênuo’! Ou então as fodas são escassas como as leituras de gente que, se leram os gregos, leram em traduções, não no original, e fazem a pose erudita de quem muito entende esses clássicos da filosofia, da poética e da ética, da antiguidade greco-romana. O que danado é ‘inveja poética’? Se é inveja não é poética, nem ética! Porque a ética, é verdade, pode tratar da inveja, da emulação, mas a inveja despreza a ética. O que danado significa ‘fracasso moral da estética’? De qual moral estamos falando? Da moral burguesa? Sinceramente! Qual o poeta que não esconde a fonte onde bebe? Como poeta bissexto, escondo e revelo fontes. Sem maiores dificuldades coloco as cartas na mesa, porque nesse jogo de cartas – de cartas muitas vezes marcadas, e viciadas – uma das minhas cartas prediletas é a do coringa, do joker! Porém, como há muito não jogo nem pif-paf, buraco ou sueca, uso essa expressão ‘jogo de cartas marcadas’ como um dos inúmeros clichês que pululam por aí, em discussões de intelectuais de prestígio... - Ditirambo
    • Cássio: Biografia eu não sei, mas recomendo o filme do júlio bressane. No seu livro Cinemancia tem também uma tradução interessante da "epifania" de são jerônimo. - Help
    • Marcos Silva: Belo poema, bom poeta, boa tradução. Sugiro a alternativa: NÉVOA. Névoa vem em pés de gatim Senta e olha sobre porto e cidade ancas silêncio e se moveu - Névoa
    • Jarbas Martins: Tenho a honra e o dever de confessar que a tradução que fiz do poema "Dormire", de Ungaretti, publicado há alguns dias neste SP - teve a orientação do poeta Fernando Monteiro ! Obrigado, mestre Fernando, obrigado poetas Anne Guimarães e Lívio Oliveira. - Névoa
    • Nina Rizzi: "A capa já dá o tom da revista. Uma foto de Câmara Cascudo passeando de riquexó (uma espécie de carroça de duas rodas e movida a tração humana) em Moçambique, ao lado de uma pessoa não identificada. A foto - de autoria desconhecida - foi clicada em 1963, quando o folclorista estudava costumes e tradições africanos. As observações e anotações depois seriam o mote para o livro Made in África. A imagem foi cedida pela família. E a filha, Ana Maria Cascudo, escreve artigo contando as inúmeras viagens do pai, em um diálogo emblemático entre Natal e o estrangeiro." Viu, neguinho não existe não, ô rapá! - Tributo ao mar