A minha Joana

12 de março de 2010 às 14:58 - Comentar
Por Carmen Vasconcelos

A minha Joana era feita de melancolia. Asas não tinha. Quando cantava, fazia questão de não ouvir que cantava, porque era dos que guardam a esquisitice de se apavorar com a própria alegria.

A minha Joana era bela, a seu modo gordo de escavar baús, de se espichar na cadeira de palhinha e deixar a criançada se espichar no seu gordo corpo. A minha Joana me dizia que saudade não é substantivo, que saudadear é um verbo anômalo, sem desinências, nem desistências, que só em português se conjuga. O meu medo de ter saudades dela era imenso, eu pensava não saber conjugar. Depois de tanto amedrontar-me com a saudade anunciada, eu soube que saudade não se premedita, não é sofrer sabendo a dor, saudades são repentes, rompantes com gosto de pão-de-ló e cheiro de café no meio da tarde. Saudade é coisa crocante, como pão francês derretendo manteiga.

Numa tarde molhada, ela me deu o arco-íris como quem entrega uma pátria e um caminho. E era. A pátria dos meus olhares encantados e o caminho dos sonhos então inúmeros. A minha Joana era sacerdotisa de Ceres, a deusa grega da semeadura e da colheita, e era também seguidora de Hermes, o deus dos mistérios. Mas se dizia e se pensava cristã. Temente a Deus e a Cristo (eu temente a ela), me ensinou, no entanto, a adorar todos os livros: “nossas estantes são altares”.

“A carne é triste” e nossas estantes são altares. A minha Joana preparou a dádiva de sua ausência longa e vaga, foi delicada sua forma de morrer. Não, que digo? Toda morte é brutal, por mais mansa e vagarosa que venha. Toda morte é lâmina, silício. Mas ela ensinou-me a entender distâncias inesperadas, a perceber a valentia silenciosa que há em partir ou deixar partir. Com ela aprendi que perdão não é coisa de oferecer, mas de entregar sem perguntas e tem de ser ácido o bastante para dissolver o visgo da mágoa. Não sei se consegui perdoá-la por ter morrido. Meu aprendizado é lento, não sei se finda. Mas não é por isso que preservo a memória da amada. Ela ainda vive em mim, porque substância não se acaba: tende a ser onda e duração.

A minha Joana escondia suas dores no silêncio da noite pelada, dos longos corredores, do aposento íntimo. Ela não queria deixar as dores como herança, mas dor não se doma. Os que adiam a verdade estacamos ao seu redor, ela já escurecida. E a minha insônia dela arde tanto que talvez eu nem morra.

Talvez eu não morra. A morte não existe na insônia, a morte não tem lugar. Nossas estantes são altares aos pés dos quais nos ajoelhamos nas horas altas, quando o deus voador, “sonso e ladrão”, nos restitui à rota dos instintos. Quando ele nos mostra palimpsestos, pergaminhos. O deus ou ela? Nessas horas de silêncio, a minha Joana desmembra estrelas, doma agouros, como a mãe fazia nos antes. Na insônia, a minha Joana dita versos, impõe o vício em palavras, esses mistérios sumarentos que escorregam da boca, das mãos, da pele.

Dos versos que escrevi para a minha Joana, escorregou esta prosa vagarosa e, por mais palavras que contenha, calada.

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    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

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  • OUTROS EVENTOS

POESIA

    Vento nordeste
    10-02-2012 às 7:14 - Comentar
    Por Oreny Junior

    sopra
    meu vento nordeste
    sou todo seu
    feito de sol e sal
    visto as velas
    desse cais cansado
    que tanto me espera
    levado pelas caiçaras
    nos lemes canguleiros
    sopra
    meu vento nordeste
    a amada me aguarda
    o rancho está vazio
    aproveita a baixa da maré
    e me atraca
    joga essa âncora
    onde o tempo
    por uns dias
    será meu amigo
    sopra
    meu vento nordeste
    sopra
    sopra
    ..

    COMENTÁRIOS

    • Marcos Silva: Certamente, existem ONGs sérias. Infelizmente, a desqualificação geral tende a se tornar corriqueira. Lembro que ela aparece com todas as letras no filme Tropa de elite (I). - Brado retumbante
    • Marcos Silva: No diálogo de 2010 sobre esse tema aqui, SP, considerei o direito do feto como especialmente frágil, uma vez que é uma vida ainda sem voz. Prefiro que haja debate sobre esse e outros temas. Não procuro convencer ninguém. Apenas considero fundamental ocupar o espaço público com argumentos em confronto, evitar a política de cada macaco em seu galho. Sou homem, não engravido. Mas posso engravidar uma mulher. Para evitar isso, tomo as providências necessárias (camisinha, em especial). Se engravidasse alguém, defenderia o feto, sim - parte de mim, parte do direito ao meu corpo. Melhor conversar. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Marcos silva, discordo. O tema do aborto é tão absurdo que nem sequer deve ser debatido. Você não percebe que isso é exatamente o que os abortistas desejam? Eles desejam pôr em discussão um assunto que até então é evidente: a vida humana ganhou um valor intrínseco com o Cristianismo (todos são filhos de Deus, todos são irmãos), mas agora os que querem erradicar Cristo da sociedade estão querendo justamente questionar esse valor, "discuti-lo". Seria o mesmo que você propor que o tema da pedofilia é muito sério e precisa ser debatido, ou então que como alguns seres humanos têm tendência homicida, deveríamos debater o homicídio. A discussão em si já questiona o valor, e eu te asseguro que as pessoas que propõem isso sabem o que estão fazendo, porque eu estudei com essa gente que quer manipular a linguagem para mudar a sociedade. Elas nunca vão apresentar suas reais intenções, porque tais intenções não atrairiam ninguém, causariam repugnância. A propósito, desculpem-me: nos comentários anteriores errei o endereço. Querem ver se o aborto é algo a ser discutido? Assistam a esse vídeo: abort67.co.uk Abs - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Yuno Silva: Pelo visto dá para ver que o assunto é polêmico, cultural, um tabu histórico, e abordado com o lado emocional da racionalidade. Deixemos a cristandade de lado para um debate amadurecido. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Carmen Vasconcelos: Grata, Anchieta. - Avoengo
    • Marcos Silva: Walter: Entendo que o grande equívoco foi terem implantado uma ditadura no país. Objetivamente, os guerrilheiros do Araguaia e outros não tinham poder de fogo para o enfrentamento com um Exército regular e minimamente equipado, que sustentatava o regime. Mas a guerrilha anunciou, tragicamente (porque muita gente morreu e sofreu - e não só os guerrilheiros propriamente ditos), que nem tudo era ditadura. Não anunciou sozinha, claro. Parte da produção artística (música popular, artes visuais, teatro, cinema, literatura) também o fez. A mesma situação se observou nos movimentos sociais que foram se estruturando contra o regime. A "milicada" não precisava de treinamento, já era bem treinada e o demonstrou desde o começo do regime, oprimindo os adversários. É possível que a guerrilha tenha servido como álibi para o regime. Mas uma ditadura, quando não tem álibi, inventa, como o Nazismo o fez em relação aos judeus. - À sombra da ditadura
    • Clarissa Torres: Paiva, texto incrível! Que alma atormentada e corajosa. Realmente, a imagem é igualmente perturbadora e por isso belíssima. Me lembrou Ego Schiele. - Rita louca
    • Jarbas Martins: Seja apocalíptica, não, Paglia.Tenha medo não. De hora em hora Deus melhora. - Camille Paglia, em entrevista recente
    • Jarbas Martins: Sai dessa, M.Couto. - À sombra da ditadura
    • Jarbas Martins: Tô contigo, Alex. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”