A passagem do Levante Comunista de 1935 por Pau dos Ferros

Manoel Cavalcante
DestaquePolítica

Em novembro de 1935, um grupo de moradores de Pau dos Ferros participou do Levante Comunista (ou Intentona, como reza a historiografia oficial brasileira); conversei com João Escolástico Filho, cujo pai foi um dos integrantes aqui na cidade do Alto Oeste potiguar. 

O Levante Comunista faz parte da História do Brasil. Luiz Carlos Prestes, mesmo depois de morto há muitos anos, é noticiado cotidianamente. Há poucos meses devolveram o tí­tulo de Senador da República e sua viúva requereu sua investidura como General do Exército Brasileiro, face a lei da anistia.

Existe até uma discussão pública, e nos anais oficiais, entre a viúva e a filha de Carlos Prestes com Olga Benário, pois a filha não quer que o pai receba a patente de General, diz que ele sempre odiou o Exército, assim a imprensa noticiou.

Levante Comunista em Pau dos Ferros_Era VargasInsurreição potiguar: Pau dos Ferros avermelhada 

O RN, diferentemente de outros Estados, foi o único da Federação cujo governador foi deposto pelos rebeldes de Luiz Carlos Prestes. O comandante da polícia do Estado aderiu a rebelião comunista no iní­cio de novembro de 1935 e resolveu depor o Governador Rafael Fernandes  Gurjão (pauferrense).

O Governador estava no Teatro Carlos Gomes (hoje Alberto Maranhão) quando soube da traição do Chefe de Polí­cia. Fugiu e se escondeu com sua mulher e os dois filhos (Gileno e Marcos Fernandes Gurjão) na casa de amigo e no dia seguinte se asilou no Consulado da Itália).

O Comandante da PM do Estado telegrafou para os chefes de batalhões da PM de todos os municípios, mas a maioria não aderiu ao movimento, inclusive Mossoró, que se manteve fiel ao Governador.

Mas o de Pau dos Ferros atendeu a ordem e prendeu e depôs o prefeito Marcelino Francisco de Oliveira. Alguns jovens de Pau dos Ferros, liderados por Licurgo Nunes, que na época era acadêmico de Direito, se insurgiram contra essa opressão e tentaram se organizar para o combate, mas a PM soube antes e passou a persegui-los.

Além de Licurgo, Antônio Holanda foi preso, como também um Diógenes e um Gameleira cujos nomes não são lembrados.

Nos idos de 1935, foram nove dias de angústias, de pesadelos, famílias tradicionais foram envolvidas e seus sobrenomes não devem ser manifestados.

Juazeiro.2

Vizinha da cadeia pública, de onde vinham gritos de supostos torturados, a esposa de João Escolástico se refugiou na fazenda de um amigo da família, embaixo de um juazeiro.

Sob proteção de um juazeiro

Os manifestantes tomaram a cidade, João Escolástico Bezerra fugiu para Cajazeiras num jeep (fabricação USA) fornecido por Joaquim de Holanda para não ser preso pelos manifestantes.

A esposa de João Escolástico se escondeu embaixo de um juazeiro na fazenda de Joaquim de Holanda, porque residentes na rua 7 de setembro, quase vizinhos da cadeia de muro alto e fortificado ao lado do açougue e do motor da luz,  ouviram gritos e supuseram que os presos políticos estavam sendo torturados.

Há um fato engraçado com a prisão de Antonio Holanda, que por pouco não conseguiu fugir da perseguição dos soldados, mas ao pular uma cerca de arame ficou preso pelas calças e localizado pelos militares.

Os filhos de João Escolástico também se esconderam na fazenda, inclusive o menor, de 11 meses, fora carregado em um cesto de pão pela senhora Maria Elizária.

O motorista que transportou João Escolástico a Paraí­ba foi preso ao retornar e, provavelmente, mediante tortura, confessou a vinda de tropas da Paraí­ba, para tentar retomar a cidade dos rebeldes, o que causou a fuga de policiais, além do fato de existir em Pau dos Ferros apenas nove militares, alguns – inclusive – estiveram presos, por não terem compartilhado com o Levante.

Mas esse é um fato obscuro, não se sabe exatamente quantos soldados estavam em Pau dos Ferros, a única certeza é que ninguém morreu, não houve enfrentamento.

A desigualdade de tropas, no entanto, entre a que veio da Paraí­ba e a que estava na cidade (inclusive soldados e civis provenientes de Natal), serviu até de motivo de exploração eleitoral contra João Escolástico nas posteriores eleições de 1937. Através da vinda das tropas paraibanas, foi que a cidade conseguiu ser retomada.

DInarte Mariz

Dinarte Mariz (1903-1984) foi governador, prefeito de Caicó, delegado de polícia; sua história se mistura com a do Rio Grande do Norte.

Dinarte Mariz chamou tropas paraibanas para sufocar Levante Comunista

Essas tropas aqui desembarcaram, através dos mandos do Governador da Paraíba, Argemiro de Figueiredo, que já havia enviado tropas para várias cidades do RN.

Inclusive foram esses paraibanos que expulsaram os rebelados do Levante e trouxeram paz e tranquilidade para Natal – quando depuseram o governador, passaram a usar a Vila Cinanto, onde trabalhava e residia o Governador.

Foi também o Governador da Paraí­ba que reinvestiu o Governador Rafael Fernandes Gurjão no seu cargo. O interlocutor do governo paraibano era o nosso conhecido Senador e Governador Dinarte Mariz, que na época era um negociante de algodão, mas que resolveu liderar combatentes do RN contra os comunistas.

Foi Dinarte Mariz, um dos criadores do Partido Popular (partido que também contou com Aluysio Alves), que intermediou com o governador paraibano, a remessa de tropas paraibanas para Pau dos Ferros.

O caminhão GM chegava a Pau dos Ferros transportando João Escolástico Bezerra e 46 soldados paraibanos. A rua, hoje Avenida Getúlio Vargas, estava cheia de gente, nunca vira tantos pauferrenses juntos.

O caminhão era enorme (importado dos Estados Unidos), a cabine cabiam quatro pessoas e na carroceria duas carreiras de bancos nas laterais e duas unidas no centro, onde os soldados estavam. A cobertura de encerados (lonas), mas as lonas estavam encolhidas nas laterais, por onde o povo e os militares se avistavam.

Os sublevados ou tinham fugido ou se rendido, na verdade em Pau dos Ferros existiam apenas um Sargento (Comandante) e oito soldados. Os prisioneiros do Levante foram libertados.

Os rebelados erraram em subestimar a capacidade dos católicos, ao fechar a Catedral.  No comunismo da época, o mesmo da Rússia, as propriedades privadas passavam para o Estado, tudo era distribuí­do para o povo usufruir, só governava pessoas por eles indicadas.

Pau dos Ferros_altar_da_Igreja_Matriz_século_XIX

Pauferrenses ficaram revoltados com comunistas após estes fecharem a Igreja Matriz e deixa-los sem ter onde assistir a missa, com o Padre Omar Cascudo aprisionado na casa paroquial.

A cidade estava em festa

Mas os pauferrenses ficaram revoltados em ter sua igreja fechada, de não ter onde assistir a missa. O Padre Omar Cascudo foi aprisionado na casa paroquial. Tal como em Natal, mercearias e mercadorias da feira foram confiscadas. Aquele que não tivesse reserva de alimentos estava desesperado, virava pedinte dos policiais e dos pauferrenses que se aliaram a eles.

Sim, houve quem fizesse isso, inclusive de famí­lias – na época – bem conhecidas, que assim tentavam preservar seus pertences e, supõe-se que isso tenha causado tanto silêncio para a posteridade.

Em 1937 foram realizadas eleições para Prefeito, e João Escolástico concorreu pelo Partido Popular. Foi eleito e proclamado em 02 de abril.  Mas não foi uma vitória retumbante. Adversários questionaram o fato de ser o responsável pela invasão de militares paraibanos em Pau dos Ferros, que poderia ter causado um morticí­nio, se tivesse havido reação das forças que dominavam a cidade.

Levaram a emoção, alegando que os soldados pauferrenses se renderam para não provocar tantas mortes, como ocorrera em Caraúbas.  Como citado anteriormente, havia uma preocupação imensa dos capelães Omar Cascudo, seguido pelo capelão Militão Benedito de Mendonça em apaziguar os ânimos e trazer a paz para Pau dos Ferros, até que teve seus desejos satisfeitos, pois durante uma missa conseguiram do povo pauferrense e solenemente, a promessa de paz entre os habitantes.

Muitas famí­lias voltaram a ser amigas, todo mundo perdoado e a paz imperou na cidade até nossos dias, inclusive com muitos casamentos entre membros dessas famí­lias. Hoje não existem nomes, só fatos, lamentavelmente provocados por ambições de polí­ticos desalmados do Rio de Janeiro e outras capitais do paí­s, cuja repercussão alcançou o povo ordeiro de nossa terra.

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Manoel Cavalcante

Comentários

2 comments

  1. Samuel 17 outubro, 2017 at 08:44

    Uma correção: a primeira fotografia da matéria se refere a um desfile de membros da Ação Integralista Brasileira.

  2. Brunno 31 outubro, 2017 at 14:47

    Heróis são os oligarcas que preservaram seus interesses e que se peroetuaram no poder, oprimindo e aviltando o povo sertanejo.

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