A poesia viva do Seridó

Iara Carvalho
DestaquePoesia

Sete nomes, sete vozes do Seridó declamado em verso e prosa na literatura potiguar; aqui nesta listagem aleatória, poetas da emblemática região norte-rio-grandense dão sequência às comemorações do Dia da Poesia.

“Quero, da Serra de Santana, olhar pra baixo, cheio de mim” – Jorge Fernandes

A poesia viva do Seridó.3

Em terra de José Bezerra Gomes, Luís Carlos Guimarães, Moacy Cirne e Nei Leandro de Castro, para citar ‘apenas’ alguns da tradição literária do Seridó que alçou voos e se tornou referência de boa literatura, há que se fazer jus à descendência e dar ouvidos às novas vozes que ecoam desde o cume da Serra de Santana, passando pelos nossos canyons lendários, até chegar às agruras do chão deste Seridó que produz arte de fina estampa aqui no Rio Grande do Norte.

 

A poesia viva do Seridó_Maria Marcela.2

Marcela é dona de uma poesia com forte carga de feminilidade e erotismo, através de uma linguagem que prima pela concisão poética.

Maria Marcela Freire 

De Currais Novos, Marcela venceu o Concurso Luís Carlos Guimarães de Poesia, edição de 2013. Não possui livro publicado, mas já participou de algumas coletâneas e alguns blogues.

Braile

Aprendi a domar

meus medos

 

confiando em meus

próprios dedos.

 

***********

 

Da solidão do óvulo

 

Mediante a fertilidade

do meu ser

Só,

ovulo.

 

Sinto o cheiro do desejo

eclodindo de minhas fendas

 

ainda tenras

ainda nós…

 

Ondulando

Ovulando

 

em cama larga

em cama

Só.

 

***************

 

Vivendo a perigo

 

Quero amor silencioso,

balbucio

 

Quero lamber teu rosto

igual loba no cio.

Gabriella Barouch

Wescley J. Gama

A poesia viva do Seridó_WescleyNasceu em São Vicente e vive em Currais Novos, desde criança. Publicou o livro com a força das folhas que estiverem vivas (2015) e traz, em seus versos, doses pujantes de ancestralidade, bebidas no cotidiano, por meio de uma linguagem que explora a síntese do imaginário. Além de poeta, é músico, ativista cultural e já foi vencedor dos três maiores concursos literários do Estado: 7º Prêmio Luís Carlos Guimarães de Poesia, 4º Concurso de Poesias Zila Mamede e um dos agraciados do Prêmio Literário Rota Batida, da Fundação Vingt-un Rosado, que patrocinou a edição do seu livros de poemas.

 

na cacimba profunda

pairava água doce.

 

na casinha profunda

flutuavam bebês,

à espera do resgate da água

 

(da cacimba profunda).

 

***************

 

nas paredes de barro

zé do né se encostava

e emprestava gentilezas,

dentro da tarde cinzenta.

 

ele sabia,

o café não tardava

e as casas de marimbondos

se preparavam rápidas

para suas histórias de trancoso.

 

**********

 

burros com cargas d’água

passam sede no caminho seco.

 

A poesia viva do Seridó.4Paula Érica Batista

É de Currais Novos e ficou em terceiro lugar no 10º Concurso Luís Carlos Guimarães de Poesia. Paula Érica também é cantora e ativista cultural, não possui livro publicado e assume, em sua poesia, uma voz de mulher senhora de seus anseios, circunscrita em sua aldeia repleta de gostos, sons e cheiros.

 

A poesia viva do Seridó_Paula Érica

Além de poeta, Paula Érica é cantora e ativista cultural em Currais Novos.

Calabouços

 

Antes de virar moça

Fazia do pão dormido

Alimento de escavadeira

 

Furava meus olhos

Vestia meus pés

Amamentava meus corvos

 

Em fileira de dia santo

Me transfigurava

A cada manhã

 

E trazia nas mãos

Um amor feito de rocha

Terra de Alvorada.

 

*******

 

Fruto maduro

 

Não quero risos secretos

amores doidos

sonhos caducos

 

Penso em voar

de pés no chão

como em trilhos de trem

 

E se minha vida aflorar

numa manhã sertaneja

que venha com invernia

 

Abrindo caminho

para barreiros

margens, leitos…

 

Feito dias de chamamento

em terra seca

 

Feito açude

doido pra sangrar…

 

*************

 

Sequidão

Meu vestido branco

Amanheceu manchado de sangue

Não sei se eram meus ou teus os desejos

Expostos com uma vermelhidão tão insana

Ontem tomei banho de sol

E de braços nus

Abri as janelas

E ofereci-me ao vendedor de pão

 

header_A-Sarah-Maycock-illustration

A poesia viva do Seridó_Jeanne Araujo

O corpo como espaço de linguagem.

Jeanne Araújo

É de Acari e vive há alguns anos em Ceará-Mirim. Publicou os livros Monte de Vênus (2011) e Corpo Vadio (2015), ambos de poesia. Foi premiada em diversos concursos literários do RN e de outros estados. Em sua lírica, trata o corpo como espaço de linguagem, tanto em sua carga de erotismo, quanto em suas possibilidades de parir dores e vazios, através da palavra, esse corpo em expansão.

 

Minha vontade sempre foi

subir ao topo da tua permanência

e ali, habitar-te.

Mas minhas impetuosidades

foram expostas em direção a outros receios.

O teu templo exige vigilância, clausura

e eu sou transitória.

Mas há muito estirei minha alma

sem arremedo

 

*******

 

amanhã

debaixo de alguma porta

tua sombra passará

fazendo ruído

arrastando correntes

então abrirei a porta

e não haverá nada

nem sons nem ruídos

somente uma estrada

que se alonga

indefinidamente

sei por onde andar

e com que ânsias.

a teus pés.

 

*******

 

não fosse os vãos em que me perdi

nas tralhas docemente aprisionada

catando a poesia inquietante

que fez de mim barca e jangada

não fosse teu cais ambicioso

e tua palavra que guardei

amei quase tudo em ti

e quase tudo herdei.

 

FeminismoA poesia viva do Seridó_Ana de SantanaAna de Santana

É natural de Caicó e publicou três livros de poesia: Danaides, Em nome da pele e à unha, este último publicado ano passado, e que traz uma poesia com perspectiva feminista. Sua poética tem cheiro de memória, gosto de subversão e som de verso bem arquitetado.

 

artefatos

 

houve manhãs

em que acordou na maior paz

brincou com as fadas

penteou os cabelos da boneca

montou em cima da máquina

de costura da mãe

miniaturas de cama e fogão

 

houve manhãs

em que acordou na paz

pintou de fúccia

os lábios e as unhas

dançou de saltos altos

dançou

 

houve manhãs

em que acordou

penteou os cabelos

da mais nova

arrumou a casa

cozinhou feijão-de-corda

 

houve manhãs

em que acordou

da paz

eita, salgou o arroz

 

nas últimas manhãs

tem audiência à primeira hora

com os fermentos em pó

planeja fabricar bombas caseiras

 

***********

 

discrição

 

o medo da mãe

é sobreviver à prole

feliz  comemora

os aniversários da cria

com quem será, com quem será

com quem será que um dia vai casar

nas mãos que batem palmas

uma unha cotó

vai crescer

vai se quebrar

sucumbir à lixa e ao dente

morrerá

sem testemunhas

inúmeras vezes

– feito o mosquito

abatido no aplauso –

inúmeras vezes

irromperá da carne

até que uma janela de correr

a esmagará

então a mãe enxergará o roxo

desde sempre presente

 

**********

a marca de aninha

 

quem vê assim pensa

que ela dorme o dia inteiro

ou vela um príncipe

com mimos e  confidências

se enganou, meu bem!

essa gata é escaldada

tá lhe querendo

e vai lhe marcar feito zorro

só que à unha

 

paul_lachineAntonio Fabiano

É natural de Patos/PB, mas veio muito cedo para Cerro-Corá, e, por isso, considera-se seridoense, potiguar. Tornou-se Frei pela Ordem do Carmelo Descalço e, atualmente, vive em São Paulo. Publicou os livros de poemas Sazonadas, Girassóis noturnos, Cancioneiro da Terra e Na ponta dos pés, este último com comentário, na contracapa, de Ferreira Gullar. Sua poética passeia entre o clássico e o contemporâneo, com fortes cargas de memória afetiva.

 

As fontes de nácar

 

Antonio Fabiano

Antonio Fabiano é frei pela Ordem do Carmelo Descalço.

Como abelhas

os homens vãos às fontes

de nácar

(não querem ser moluscos)

furtam pólen

para o néctar

às vezes póstumo

da via que o sol faz

quando desce pelo mar

e horizontal

brilha.

É esta cor que eu persigo no meu sonho

e através surfo?

Galgo

às ondas do que incende

o líquido caminho.

Eis o porto!

A concha e o seu segredo madrepérola!

Ninguém dissuadirá a colmeia

de que ― doces as pérolas ―

todas as abelhas são rainhas.

 

********

 

Dia ensolarado

 

Como um imbu maduro

O sol caiu do céu

Bateu no lombo de um dromedário

Rolou a duna

Quicou na água da praia

Iluminou toda a cidade

De Natal.

 

******

 

Resposta

 

Então chove

Chove dias a fio

O céu chora

Arrependido.

A terra se renova

Abre-se como flor

De eterna seiva

E já não lembra mais

A mágoa antiga.

 

Eric Lacombe_Melancholic

Reprodução do quadro Melancholic, de Eric Lacombe.

A poesia viva do Seridó_Camilo RosaCamilo Rosa

Nasceu em Serra Negra do Norte, morando atualmente em João Pessoa, onde é professor pela UFPB. Publicou o livro de poemas Afetos tombados, além de participações em revistas virtuais de renome, como a Germina. Sua poesia verte doses de melancolia, através de uma linguagem fundamentada na concisão e numa imagética de sentidos amplos.

 

Matado

 

morto

a mando

do amante

como que pode

matar

amando?

 

*********

 

Condicional

 

quando voltares

se voltares

voltarei

a sentir os olhos

 

*********

 

Luxo

 

era uma senhora

tão vaidosa

que tinha pérolas

nos rins

Share:
Iara Carvalho

Comentários

3 comments

  1. VALDENIDES DIAS 16 março, 2017 at 11:16

    Excelente recorte. Parabéns. Iara Carvalho, a sereia que transita pelo Seridó movediço do meu coração, que fez e faz da poesia um milagre de vida. Tens o meu amor e a minha admiração eterna, na certeza de que meu anzol só fisga os seres encantados e encantadores.

  2. PAULA ÉRICA BATISTA DE OLIVEIRA 16 março, 2017 at 14:36

    Aff Maria, Iara Carvalho! que honra estar entre os homenageados. O Seridó chega escancarando tudo e fazendo poesia onde quer que esteja. Tenho um respeito e um amor imensurável por esta terra querida, celeiro de grandes encontros e de grandes revelações. Parabéns e obrigada! te amo desde sempre.
    Paula Érica

Leave a reply