A saga de uma anti-heroína

Manoel Onofre Jr.
DestaqueLiteratura

Terminei de ler, vivamente interessado, o livro “Memorial de Maria Moura”, de Rachel de Queiroz. Despertou-me atenção, desde logo, neste romance, a estrutura da narrativa, que é bastante inovadora, em se tratando de ficção brasileira. Duas histórias desenrolam-se, paralelamente, como romances autônomos, na voz dos respectivos personagens-mores – “O Beato Romano” e “Marialva” – mas terminam se entrelaçando com a narrativa principal, “Maria Moura”. Acontece, portanto, em termos de literatura, o que se convenciona denominar, em linguagem musical, de contracanto.

A ação romanesca ambienta-se no interior do Ceará, mais precisamente na Serra dos Padres e outros lugares do grande sertão, em pleno século XIX. Entre parêntesis devo dizer que não se trata de romance histórico; deduz-se a situação no tempo pelas referências à escravidão, então vigente, e ao Imperador Pedro II. Um mundo primitivo, rude, intensamente dramático e por vezes trágico, salta aos olhos do leitor.

Maria Moura, a protagonista central, é uma perfeita anti-heroína. Mulher valente, mandona, ambiciosa, não reluta em roubar e matar para atingir os seus objetivos. Semelhante figura parece inverossímil quando se atenta para as condições de espaço e de tempo em que ela se situa. No entanto, sabe-se que a autora inspirou-se, para criá-la, em personagem real da História do Ceará.

Ao longo do movimentado enredo surpreende-se aqui e acolá alguns clichês na formulação de cenas e episódios dramáticos; todavia, isto não chegar a ser comprometedor. Em matéria de linguagem e estilo, Rachel de Queiroz é mestra, incomparável, de modo que prende a atenção do leitor, fazendo com que este deixe passar eventuais deslizes, como, por exemplo, algo dejà vu na fabulação.

Surgido em 1992 , “Memorial de Maria Moura” foi o canto de cisne da famosa ficcionista e cronista, expoente do Regionalismo Nordestino de 1930, movimento que ela, a bem dizer, fundou com o seu romance “O Quinze”.

Nota curiosa: o “Memorial..” é dedicado ao escritor potiguar Oswaldo Lamartine, que assessorou a autora sobre usanças e coisas do sertão, especialmente, armas.

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Cronista também de primeira grandeza, Rachel de Queiroz contribuiu muitíssimo para que a crônica ganhasse maior importância como gênero literário.

Não sei de outro escritor brasileiro que tenha, como a cearense, o dom de transpor para a linguagem literária, sem preocupação de “fazer literatura” , a linguagem oral corrente no Nordeste. Neste sentido ela é uma estilista que se requinta na simplicidade. E, como tal, conferiu à crônica o tom de uma conversa descontraída entre amigos.

Durante muitos anos, manteve na revista “O Cruzeiro”, órgão de maior circulação no país, à época, a seção “Última Página”. Fui seu leitor assíduo.

Obras como “ As Três Marias”, Dôra Doralina”, romances; “A Donzela e a Moura Torta”, “O Brasileiro Perplexo”, “Mapinguari”, “ O Caçador de Tatu”, crônicas; “Tantos Anos”, memórias, além das mencionadas, linhas acima, fazem a grandeza dessa que é, sem dúvidas, uma das culminâncias da Literatura Brasileira.

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Há alguns anos, em visita a Natal, Rachel de Queiroz foi recepcionada pela Academia Norte-rio-grandense de Letras, em sessão solene sob a presidência de Diogenes da Cunha Lima. Saudou-a o acadêmico Sanderson Negreiros. Tive, então, oportunidade de conversar ligeiramente com ela. Disse-lhe, um tanto inibido, que lhe devia muito da minha formação literária. E ela, com um sorriso:

-Vocês são muito generosos.

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Manoel Onofre Jr.

Comentários

2 comments

  1. RITA VIEIRA - jornalista 27 fevereiro, 2018 at 21:15

    MUITO INTERESSANTE ESTE ARTIGO!!! GRANDE MANOEL ONOFRE. TAMBÉM AMO A OBRA DA RACHEL.
    BEIJO FRATERNO DAQUI DO RIO DE JANEIRO.

  2. Ana Cláudia Trigueiro
    Ana Cláudia 8 março, 2018 at 18:38

    Ótimas observações sobre “Memorial de Maria Moura”. Nossa, quanta emoção deve ter sido ver Rachel de Queiroz pessoalmente! Semelhante privilégio tive, ao conhecer o autor de “Chão dos simples”, a quem também tive a honra de tietar na academia, por ocasião da posse de Clauder Arcanjo.

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